A matáfora da moeda no discurso e na atitude dos candidatos presidenciais. Para ler, como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
03/11/2005
25/10/2005
A CRISE NO PSD/AÇORES - A CONSTRUÇÃO DUMA ALTERNATIVA POLÍTICA
Uma proposta política para a construção duma laternativa política no PSD/Açores. A crise de liderança e o futuro. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
21/10/2005
UMA BOA NOTÍCIA
A candidatura presidencial de Cavaco Silva.
Um dicurso de apresentação eficaz e de grande lucidez. Uma atitude determinada. Um candidato ganhador.
A partir de hoje, a disputa presidencial mudou de figura!
DE REGRESSO A ANTÓNIO VIEIRA
Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. A funda de David derrubou o gigante, mas não o derrubou com o estalo, senão com a pedra: Infixus est lapis in fronte ejus. As vozes da harpa de David lançavam fora os demônios do corpo de Saul, mas não eram vozes pronunciadas com a boca, eram vozes formadas com a mão: David tollebat citharam, et percutiebat manu sua. Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear, faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras? - Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. Pois palavras que frutificam obras, vede se podem ser só palavras! Quis Deus converter o Mundo, e que fez? Mandou ao Mundo seu Filho feito homem. Notai. O Filho de Deus, enquanto Deus, é palavra de Deus, não é obra de Deus: Genitum non factum. O Filho de Deus, enquanto Deus e Homem, é palavra de Deus e obra de Deus juntamente: Verbum caro factum est. De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens. Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do Mundo. Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras. A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos.
Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655
19/10/2005
AS FALSA COOPERAÇÃO COM LISBOA
As notícias que resultam da apresentação do orçamento de Estado para 2006 não podiam ser piores: o mesmo montante de trasnferências financeiras ao abrigo da Lei das Finanças das Regiões Autónomas e uma brutal redução em todas as outras tranferências. Resultado? Menos 11,6% no valor glbal das transferências para os Açores.
A proposta de OE apresentada pelo Ministro das Finanças é bem o sinal da interpretação que o Governo de José Sócrates faz da solidariedade para com os Açores, ao mesmo tempo que atira para o caixote do lixo da história as promessas eleitorais dos socialistas açorianos de que a cooperação com Lisboa ,sob o signo da rosa, seria um longo romance político.
Para Carlos César, o embaraço político é evidente: depois de ter afirmado que o Governo de Durão Barroso era "o pior Governo de sempre para as Autonomias", o que dirá agora do Governo do seu amigo José Sócrates?
AS TRAPALHADAS DO GOVERNO SOCIALISTA
Aqui ao lado, no anjo mudo, um comentário sobre a criação de mais uma sociedade anónima por parte do Governo Regional dos Açores, com vastos e inusitados poderes de autoridade pública, nos domínios do ambiente e do planeamento do território. Em nome da facilidade na obtenção de recursos financeiros, a Região transfere para uma sociedade anónima, cuja fiscalização política escapa à Assembleia Legislativa, poderes que devem ficar na esfera jurídica da Região. Para os mais curiosos, a proposta de Decreto Legislativo Regional está disponível aqui, valendo a pena ler os artigos 2º e 7º. Para bom entendedor...
16/10/2005
DA VITÓRIA E DA DERROTA EM 9 DE OUTUBRO
Terá o PS ganho as eleições autárquicas nos Açores ou, pelo contrário, apenas os sociais-democratas poderão reclamar uma vitória? Quais os critérios para determinar o vencedor eleitoral? Do meu ponto de vista, o PSD e o seu líder são os únicos vencedores globais da noite eleitoral. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
DEPOIS DO SILÊNCIO....
Depois dum período de silêncio auto-imposto pela campanha eleitoral (com os inevitáveis reflexos nas audiências, no share e cotação bolsista deste blog), volto a escrever ao ritmo habitual. Dentro de momentos, colocarei um post sobre as eleições autárquicas nos Açores.
29/09/2005
O REFERENDO QUE O PS IMPÕE AO PAÍS
Apressadamente, para esconjurar dois actos eleitorais que se adivinham desfavoráveis aos socialistas, o PS aprovou na Assembleia da República, a resolução que aprova a realização de novo referendo sobre o aborto.
O PS quer transformar o referendo ao aborto numa espécie de intervalo político entre dois actos eleitorais - autárquicas e presidenciais. Do Presidente da República espera-se bom senso, para não marcar o referendo para uma época entre eleições. O Dr. Jorge Sampaio deverá deixar mesmo a convocação do referendo para o seu sucessor. Utilizaria, deste modo, com acerto, a "magistratura de influência" do cargo de Presidente da República.
FALEMOS DO QUE INTERESSA
A "felgueirização", como novo sinal do populismo que atravessa o país e adormece a consciência do eleitorado. As pressões dos poderes públicos sobre os jornais e os jornalistas, em alturas de campanha eleitoral. Para ler, como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
23/09/2005
A televisão ao deus-dará
Subitamente, a RTP-Açores muda de critérios e decide transmitir, ontem, o debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo a uma hora bem diferente de todos os anteriores (cerca de uma e pouco mais tarde do que os 17 debates anteriores). Explicação improvisada da RTP/A: ia transmitir em directo um jogo de hóquei, a partir da ilha do Pico. A preocupação da RTP ou terá a ver com estudos de audiência, "shares", médias de espectadores e então é inatacável ou, não tendo por base nada disto, revela um constangedor amadorismo e uma errada percepção da realidade, quando em Angra do Heroísmo ocorre um dos mais interessantes combates eleitorais destas eleições autárquicas.
Pela consulta da programação da RTP/Açores para hoje, descubro que o debate sobre Ponta Delgada, também mudou de horário.
A RTP/Açores ignorará que a fidelização duma audiência em comunicação televisiva assenta - entre outras coisas - na regularidade do horário? As circunstâncias que - alegadamente - motivaram a alteração dos horários de emissão, foram dois jogos (um de hóquei e outro de futebol), ambos certos, previsíveis e marcados há largo tem.... Mais palavras para quê?
A AGENDA DO PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA
O Procurador-Geral da República, terá dado instruções, segundo o Público de hoje, citado pela TSF que não será dado despacho no inquérito do processo "Apito Dourado" para não perturbar o processo eleitoral. Desta infeliz tomada de posição do Dr. Souto Moura (mais uma, afinal) conclui-se que há uma agenda política na Procuradoria-Geral da República que até tem em consideração os ciclos político-eleitorais. Com esta desastrada opção, o Dr. Souto Moura coloca em causa a independência da instituição que dirige e do corpo de magistrados que a integram. A crise das instituições do Estado de Direito acentua-se depois do dia de hoje. Pobre país!
22/09/2005
CRÓNICA DOS ÁLAMOS TRISTES
Um olhar sob o insucesso escolar nos Açores, revelador do insucesso das políticas educativas dos governos do PS, para ler, como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
13/09/2005
10/09/2005
GANHAR OU PERDER NAS AUTÁRQUICAS
Uma antecipação das "contas" da noite eleitoral de 9 de Outubro. A crónica incapacidade do PS ganhar nas eleições autárquicas esconde o quê? Para ler, como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
31/08/2005
REGIÃO POBRE, PODER FRÁGIL
Sobre a confusão entre o poder institucional e a sociedade civil por parte do Governo Regional dos Açores, que insiste em desvalorizar as instituições e diminuir a autoridade do Estado, a propósito da insólita e ilegal pretensão de fazer um Conselho de Governo para os Assuntos Económicos no qual participarão representantes dos poderes fácticos (Câmara de Comércio, representantes da agricultura e da construção civil). Para ler, como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
11/08/2005
OS ANJOS TÊM FONTES...
TRINTA ANOS DE TELEVISÃO NOS AÇORES
A RTP/Açores assinalou trinta anos. Ocasião para felicitar a televisão dos Açores e olhar o passado recente, dum modo sereno e crítico. Trinta anos depois, os Açores merecem uma televisão mais sofisticada no produto e mais ambiciosa na atitude. Em tempo de aniversário, desejar apenas novas instalações é pouco, muito pouco.Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
05/08/2005
6 DE AGOSTO DE 1945
Há sessenta anos atrás o relógio de Kengo Futagawa parou, quando atravessava Kannon Brige, Hiroshima. Naquele preciso instante o tempo do mundo parou, sob o cogumelo atómico.
Para não esquecermos e contarmos aos nossos filhos e aos filhos dos nossos filhos.
03/08/2005
SEGUNDA CRÓNICA DO ATLÂNTICO OU DA IMPORTÂNCIA DA ÁGUA

Crónica de viagem, ainda sobre a ilha do Sal. Deserto e água, pobreza e desenvolvimento, turismo e infra-estruturas de lazer. Para ler, como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
02/08/2005
RESPIRAR À SUPERFÍCIE...
Um outro olhar, de superfície, a partir do Pontão, em Santa Maria (ilha do Sal). Daqui largam e aportam minúsculos barcos de pesca, cujo pescado é içado à força de cordas e braços. Daqui, miúdos e graúdos, mergulham nas águas límpidas do oceano. Daqui partem os que ambicionam conhecer o mar....simplesmente.É quase um milagre que o Pontão resista ao tempo e à incúria das autoridades. Esburacado, esventrado, remendado com quantas tábuas há, o Pontão exibe-se pelo mar dentro...
01/08/2005
CRÓNICA DO ATLÂNTICO - CABO VERDE

Noutras paragens insulares, no meio do enorme Atlântico, a ver o mundo com outro olhar, a partir de outras perspectivas. Aqui ao lado, como sempre, no anjo mudo.
21/07/2005
A DEMISSÃO DE CAMPOS E CUNHA
Comecemos por recordar que o Prof. Campos e Cunha não era um Ministro qualquer: Ministro das Finanças, também Ministro de Estado (a par com Freitas do Amaral), o que significa que o Primeiro-Ministro lhe conferiu um peso político específico na estrutura do Governo.
Desde cedo se percebeu que Campos e Cunha não se tinha ajustado bem ao papel de Minsitro de Estado e das Finanças, bastando para atanto recordar o anúncio extemporâneo do aumento de imoposto à TSF, ainda o Governo não tinha tomado posse ou o conteúdo do artigo na edição de Domingo passado, do Público (o qual pode ser consultado aqui).
Este artigo, com asa declarações que hoje prestou ao Diário Económico, terão sido a gota de água na sua relação com o Primeiro-Ministro e conduziram à sua exoneração, sob a pública aparência dum sempre mais discreto pedido de demissão apresentado pelo próprio.
A demissão dum Ministro das Finanças é sempre um sinal de crise no seio de qualquer governo, sobretudo quando se conjugam três outras circunstâncias: ser também um Ministro de Estado, estar no poder há pouco mais de cem dias e o Governo atravessar um notório período de descoordenação política que não abona em favor do seu núcleo duro.
A demissão de Campos e Cunha é um tiro no porta-aviões do Governo de José Sócrates. Os augúrios continuam a não ser bons!
SOROR MARIANA ALCOFORADO


Este post é sugerido por comentário do Carlos Riley, aqui, a propósito do Convento de São Francisco e da famosa freira, Mariana Alcoforado.
Tanto quanto sei, Soror Mariana Alcoforado, foi religiosa da ordem de Santa Clara, tendo ingressado e vivido no Convento da Conceição de Beja, não muito longe, de facto, do Convento de São Francisco, objecto do anterior post.
Soror Mariana Alcoforado é autora de cinco famosas cartas de amor dedicadas ao cavaleiro francês Noël Bouton, Marquês de Chamilly, cuja primeira edição é publicada em francês, em 1669 (fac-simile publicado aqui ao lado).
Como curiosidade, diga-se que o Museu de Beja conserva a janela gradeada do Convento da Conceição, também chamada Janela de Mértola ou das Portas de Mértola, através da qual a religiosa via o seu amado.
19/07/2005
UMA LUZ BRANCA E DIREITA

O Convento de São Francisco (ao lado, num velho postal), no coração de Beja, hoje é uma Pousada de Portugal. Começou por ser um convento franciscano e depois quartel militar, do Regimento de Infantaria, nº 17.
Nas ruas de Beja, onde a luz branca da tarde é direita, quase orgulhosa, o convento é a sentinela do tempo que passa.
EFEITOS SECUNDÁRIOS DA SILLY SEASON
Todos os anos a silly season provoca declarações desencontradas, atitudes cuja explicação levamos tempo a perceber, enfim... um rol extenso. Para ler, aqui ao lado, como sempre no anjo mudo.
13/07/2005
LENDO O PADRE ANTÓNIO VIEIRA

"Qui habet aures audiendi, audiat.
Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. Este aviso é de Cristo Senhor nosso. Mas por que o terá feito o Divino Mestre, que nunca disse uma palavra em vão? Não será que os ouvidos não servem senão para ouvir, e é inútil apelar ao que servem se a outra cousa não servem? Cristo sabia a quem falava, e conhecia os ouvidos de cada um dos Seus ouvintes. E, assim como há olhos que, olhando, não vêem, há ouvidos que, ouvindo, não escutam. (Quia videntes non vident, et audientes non audiente neque intellegunt.) Mas como pode acontecer que, tendo os ouvidos no ouvir a sua função, e havendo quem lhes fale, não ouçam? Ou porque os homens, ouvindo, não queiram ouvir (audientes non audiunt) ou porque não entendem (neque intellegunt). E são estas as piores formas de não ouvir, sendo a segunda sem malícia, por ignorância, e a primeira semelhante à maldade do Demónio, por não atender à verdade. Se aqui vindes para ouvir sem escutar, melhor fora que não viésseis nem vos falasse eu. Porque nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus. (Non in solo pane vivit homo, sed omni verbo quod procedit de ore Dei.) E a boca de Deus (oh! cristãos, indigníssimo sou eu de falar por ela), não vos é dada outra, agora, senão a minha. Mas, se não há quem fale, não há quem ouça; se não há quem ouça, não há quem escute; se não há quem escute, não há quem aprenda; e, se não há quem aprenda, não haverá quem saiba (...)"
Sermão na cidade de Angra
Sermão na cidade de Angra
12/07/2005
LENDO FREI MANUEL BERNARDES

Estado de Grandeza Dependente
A pura, perfeita, e absoluta liberdade consiste em não necessitar de coisa alguma: e esta é própria dos bem-aventurados. Outra mais inferior consiste em necessitar de poucas coisas: e quanto estas forem menos, tanto a liberdade será de mais alto grau. E esta é a que na presente vida podemos, e devemos procurar (...). Daqui se infere, que quanto maior é a grandeza de estado de uma pessoa, tanto maior é o seu cativeiro (excepto aqueles poucos, que só no exterior são grandes, e no seu interior pequenos): porque necessita de inumeráveis coisas para o adquirir, e conservar: antes nessas mesmas coisas consiste o tal estado.
Frei Manuel Bernardes, in "Luz e Calor" (1696)
TERRORISMO GLOBAL
Breves notas sobre a democracia, os media e o combate ao terrorismo global, aqui ao lado, como sempre, no anjo mudo.
07/07/2005
HORROR EM LONDRES (II) - O REGRESSO DA ALQAEDA
A AlQaeda reivindicou já a autoria do atentado em Londres, provando mais uma vez o seu estatuto de inimigo invisível e ultrapassando a barreira dos serviços de informação europeus. Depois deste novo atentado, o terrorismo - um ano após Madrid - volta à agenda política europeia.
HORROR EM LONDRES
Esta manhã, sete explosões abalaram o centro de Londres, atingindo estações de metro e alguns autocarros.
O Primeiro-Ministro, Tony Blair, acaba de admitir que poderá ter-se tratado dum ataque terrorista, confirmando uma primeira informação prestada pelo chefe da Polícia Metropolitana de Londres.
O terrorismo global volta a fazer vítimas, duma maneira cega e brutal, marcando o início da cimeira do G8, o que não pode ser considerado como uma simples coincidência.
A essência do moderno terrorismo é mesmo esta: provar que um atentado pode acontecer em qualquer lugar, em qualquer momento. O novo terrorismo alimenta-se da insegurança global e da forte mediatização à escala planetária, atingindo inocentes cidadãos. Em Nova Iorque, em Bali, em Madrid ou em Londres, ninguém está seguro.
Lamento, como todos lamentamos, esta perda inútil de vidas humanas. Inclino respeitosamente a cabeça pelas vidas perdidas....
06/07/2005
O QUE DIZ JOSÉ SÓCRATES
A entrevista do Primeiro-Ministro à SIC constituiu um bom momento do género jornalístico "entrevista". Jornalistas bem preparados e um Primeiro-Ministro em forma, sem conseguir esconder o incómodo de explicar o aumento dos impostos e denotando uma inusitada crispação com as perguntas. Por outro lado, foi notória a contradição com o recente discurso do Governo de que não haveria recurso a receitas extraordinárias para equilibrar as contas públicas. O Engº Sócrates deixou escapar que o Governo recorreria a este tipo de receitas, mas de acordo com "critérios". Estamos perante o conceito de receitas extraordinárias virtuosas!
Apesar da tentativa, o Primeiro-Ministro não foi convincente quanto ao plano de investimentos de 25 mil milhões de euros, ontem mesmo anunciado, em particular quanto ao novo aeroporto da Ota e ao TGV, não tendo encontrado explicação para o facto do invetsimento público ser de 8.000 milhões de euros em quatro anos, o que representa 2.000 milhões por ano, valor inferior ao invetsimento público previsto no PIDAC (investimento do Estado inscrtito Orçamento de Estado). Da mesma fragilidade argumentativa padece a sustentação política das SCUT'S.
O MUNDO NESTA SEMANA
Sobre a cimeira G8, que hoje começa na Escócia e o papel da União Europeia, sob a presidência inglesa. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
04/07/2005
DEEP IMPACT
A imagem foi captada a partir da Deep Impact, "olhando" para o cometa Tempel 1. Uma imagem extraordinária, tirada num dia em que a realidade se aproxima da ficção. It's 4 July!
Boa-noite!
01/07/2005
O ATLÂNTICO NO ESTORIL
Neste hotel - Estoril Palácio - convivem os velhos fantasmas da espionagem da II Guerra Mundial, o espírito de James Bond, a tentação do dinheiro fácil do Casino ali ao lado, com a discussão sobre as relações transatlânticas num mundo global. A organização é da UCP e do seu Instituto de Estudos Políticos. A discussão é dominada por uma perspectiva generalizada de defesa da política da Administração Bush, segundo o evangelho neo-conservador. A doutrina da liberdade é flat...
Ainda assim, a reflexão é estimulante.
O retiro neste velho palácio, proporciona, ainda, encontros estimulantes e desafia-nos a levarmos para os Açores algumas das conversas e das reflexões.
Ao almoço encontrei-me com Carlos Coelho, chairman da Brandia que, hoje mesmo, escreve um interessante artigo no Diário Económico, sobre a educação, e que me diz que na área do marketing (a sua actividade profissional) o importante é ter ideias, muito embora o "ratio" no ramo seja duma boa ideia por cada cem.
AUTOCARRO PERIGOSO
Há pouco, o autocarro passou por mim, no Saldanha. Pude ler o singelo letreiro luminoso, sobranceiro ao enorme pára-brisas: "36 - Sr. Roubado".
Dei comigo a pensar como seria inseguro apanhar o "36". Instintivamente, levei a mão à carteira...
Boa-noite!
A FÁBULA DA MULHER QUE NÃO PRECISA DE MACHO
O PPM - que ainda sobrevevive, arrastando-se de eleição em eleição - vai apresentar a Senhora Elsa Raposo como candidata à Câmara Municipal de Cascais. Quem sugeriu o seu nome foi o Senhor Gonçalo da Câmara Pereira que com ela partilhou a Quinta das Celebridades e os ecrãs da TVI. Fascinado, talvez, pela propensão do programa para o mundo autárquico (lembremos o inefável Avelino Torres, da primeira edição), o Senhor Câmara Pereira investiu na descoberta dos dotes da Senhora Raposo. O próprio justifica assim a candidatura: "é uma mulher independente, que não precisa de macho". Se o ridículo matasse, o Senhor Câmara Pereira já estaria morto e o PPM seguiria o mesmo caminho!
29/06/2005
UM ORÇAMENTO RECTIFICATIVO HÁ 115 ANOS...
Em 28 de Junho de 1890, o circunspecto Diário de Notícias, noticiava na primeira página, na rubrica Boletim Parlamentar:
"Câmara dos Pares - (...) Entrando-se na ordem do dia, o Sr. Lencastre propoz que se prorogasse a sessão até se votarem o orçamento rectificado e a lei de meios . Annuindo a câmara a este requerimento foram votadas aquellas duas leis, depois de usarem da palavra os srs. Camara Leme, Barros Gomes, Moreira de Rey, Marçal Pacheco, Pereira Dias, José Luciano de Castro, Bernardino Machado e Coelho de carvalho. A sessão terminou às 7 horas e ¼. A seguinte é na segunda feira, entra em discussão o bill de indemnidade".
Cento e quinze anos depois, o parlamento prepara-se para discutir um orçamento rectificativo. Mudam-se os tempos, mas há coisas que nunca mudam!
Cento e quinze anos depois, o parlamento prepara-se para discutir um orçamento rectificativo. Mudam-se os tempos, mas há coisas que nunca mudam!
28/06/2005
UM ATENTADO À AUTONOMIA - O CASO DO ANDEBOL
A discriminatória decisão da Federação Portuguesa de Andebol que impede equipas açorianas de participarem de pleno direito nas competições nacionais, violando os princípios da igualdade e da continuidade territorial, é um atentado aos mais elementares direitos de cidadania dos Açorianos e das equipas dos Açores. Há uma insuportável desigualdade de base territorial. Para ler, aqui ao lado, como sempre, no anjo mudo.
EU RECTIFICO, TU...
Eu rectifico, tu rectificas... nós duvidamos que eles saibam o que fazem!
A competência da equipa do Ministério das Finanças deixa tudo a desejar numa prova de fogo sempre importante, como é a da apresentação dum orçamento, ainda que seja rectificativo.
24/06/2005
UM OLHAR EM MOVIMENTO
Olharam-se, sincronizados no breve instante em que as escadas rolantes fizeram com que se cruzassem. Ele sorriu, a subir. Ela retribuiu, descendo. Ainda olharam um para o outro, uma vez mais, como que a tentarem parar o movimento infindável da escadaria.
SUSPIRO EM VÉSPERA DE FIM-DE-SEMANA...
23/06/2005
GREVE I - COMO DISSE?
A Ministra da Educação, ontem, na SIC-Notícias proferiu esta delirante declaração sobre a sentença do Tribunal Administrativo e Fiscal de Ponta Delgada, que suspendeu o Despacho do Secretário Regioonal da Educação que estabelecia serviços mínimos em dia de greve:
A Ministra não sabe do que fala e põe em causa a organização judiciária do país, roçando o desrespeito pelos Tribunais.
Com Ministros destes, o Governo de José Sócrates não vai longe!
22/06/2005
GUTERRES AINDA É PRIMEIRO-MINISTRO?
A pergunta poderá parecer capciosa... Mudou o Primeiro-Ministro, mas os erros dos governos do engenheiro do verbo fácil e da imagem dócil repetem-se. Agora o Ministro da Economia anuncia que o Governo vai subsidiar o preço da electricidade para fins industriais, a fim de tentar conter o impacto resultante do aumento dos impostos. Em 2006, os consumidores domésticos obterão idêntico tratamento. Lembram-se quando o Governo de António Guterres, tendo não aumentar os combustíveis quando os preços do petróleo disparavam no mercado, compensou as petrolíferas em largos milhões de euros? Só à bengalada, como diria o Eça!
O NÚMERO TAMBÉM CONTA
Um interessante artigo do Economist, colocando em evidência o facto da taxa de fertilidade ser de 2.1, enquanto na velha Europa ela se situa na casa do 1.4 (sendo inferior em Portugal, que creio rondará o 1.2). Perante este cenário, aquela revista estima que em 2040 os EUA terão 500 milhões de habitantes.
A demografia também condiciona a condução política e tem um incontornável reflexo na adopção das políticas sociais.
Se não existirem outras razões para que a Europa possa encontrar novos caminhos para o seu auto-governo, procurando mecanismos institucionais que lhe permitam adoptar as políticas que a sua dimensão geográfica e populacional lhe conferem hoje, a demografia de amanhã será uma forte argumento.
Por quanto tempo mais a Europa continuará a ser um conjunto de Estados, sem uma forte agregação política que a torne uma potência - no sentido tradicional da expressão - à escala planetária?
OSSOS DO MAR
Em jeito de resposta à provocação simpática da Mariana, ardemares:
os ossos
do mar têm curvas
seixos ancorados
na eternidade do corpo
QUANDO O ILUSIONISTA É A ILUSÃO
No anjo mudo, uma reflexão sobre a coesão regional, a ilusão do novo Fundo de Coesão e o ornitorrinco, como metáfora política.
16/06/2005
UM NOVO ÍCONE DO COMUNISMO EUROPEU
O funeral de Álvaro Cunhal, mediatizado pelos órgãos de comunicação social, em particular pelas televisões, revelou uma nova faceta do esplendor dos cerimoniais fúnebres, ao concitar o olhar ávido dos espectadores sobre a solidão e poder do líder comunista. Nasceu um novo ícone no comunismo europeu. Não tardarão os panegíricos, os bonés e as t-shirts. É o que resta!
09/06/2005
DRESSED TO FLY...
A segurança dos Aeroportos dos Açores permite observar pormonerores caricatos. Enquanto uns, como o fogotabraze, anseiam por cintos com fivelas de plástico para evitarem o público embaraço de desapetarem as calças, outros permitem-se brincar com as regras. A segurança dos Aeroportos explorados pela ANA,SA nos Açores é efectuada agora por uma empresa privada.
Ontem, em viagem de Santa Maria para São Miguel, depois duma longa e saturante fila para o controlo de segurança, descobri - pela boca dum dos trabalhadores desta empresa de segurança privada - que o passageiro que transporte um canivete com uma lâmina de comprimento inferior a 6 cm - vou escrever por extenso: seis centímetros - poderá transpor calmamente a barrreira da segurança.
Uma lâmina de 4 cm não é suficiente para matar? Claro que a fivela metálica dum cinto é muito mais mortal do que um canivete suiço com uma lâmina de 5 cm! Gostava de conhecer o burocrata autor desta regra!
07/06/2005
A DIPLOMACIA, COMO CONCEITO PESSOAL
O Prof. Freitas do Amaral começou no Governo com pé esquerdo, salientando que apenas tinha aceite o convite para MNE, depois de saber quem eram os seus pares do Governo. Depois, inaugurou a diploamacia na imprensa: o Expresso tem revelado com abundância um conjunto de factos relativos à diplomacia - que se quer discreta, por definição - portuguesa. O último dos quais, o fac-simile de carta enviada pelo próprio Ministro à Sra. Rice, sustentando a candidatura de António Guterres ao lugar de Alto Comissário para os Refugiados. Por fim, o Prof. Freitas do Amaral exibe publicamente a sua posição pessoal sobre o novo tratado europeu, não se sabendo o que pensa oficialmente o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros.Posição pessoal? O dever dum Ministro é exibir solidadriedade ao chefe de Governo e guardar as suas posições pessoais para o recato do seu gabinete ou para as reuniões do Conselho de Ministros. Sendo um notável professro de Direito, Freitas do Amaral perdeu o jeito para ser ministro e está a tornar-se um embaraço para o Engenheiro Sócrates!
OLHARES DISTRAÍDOS
Ao lado, no anjo mudo, um texto sobre a reforma do Estado, a leveza da actual gestão política e o peso da contradição.
O TEMPO QUE VAI FALTANDO....
Vai faltando tempo para ter tempo... e assim os dias escorrem pelas páginas da agenda, deixando pequenos sulcos garatujados, como sinais na pele.
01/06/2005
19/05/2005
A UNIDADE DOS AÇORES
Um texto pensado para o dia dos Açores e publicado ontem no "Açoriano Oriental", no qual se fala da unidade dos Açores, na relação com Lisboa. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.
17/05/2005
O DÉFICE
As declarações do Governador do Banco de Portugal sobre a dimensão do défice já não chegam a ser surpreendentes. O estado das contas públicas não é um problema do Orçamento de Estado para 2005 ou das receitas extraordinárias a que os sucessivos Ministros das Finanças foram recorrendo para diminuir o défice orçamental: Portugal tem um problema estrutural de controlo da despesa pública, que não se resolve com medidas avulsas apenas para um ano económico (é quase rídicula a "medida" que os jornais divulgam, quanto à possibilidade de pagamento de portagens nas SCUT'S do litoral do país, face à dimensão do défice). O problema não é apenas dos Governos do PSD ou do PS... O défice estrutural e permanente das contas públicas, resultante do facto do Estado estar "gordo" e ser despesista, coloca em causa a própria solvabilidade do Estado. O "monstro orçamental" de que falou Cavaco Silva há uns anos está aí em todo o seu esplendor!
11/05/2005
A LIMITAÇÃO DE MANDATOS
Coloquei ao lado, no anjo mudo, o texto duma Declaração Política que fiz, ontem, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, em nome do PSD, sobre a limitação ao exercício de mandato dos Presidentes Governo Regional, objecto de inicitiva legislativa por parte do Governo da República, pendente na Assembleia da República.
Defendo que se trata matéria da competência exclusiva de cada Região Autónoma, a inscrever apenas nos Estatutos Político-Administrativos.
Ao contrário, o PS entende que a Assembleia da República pode legislar sobre esta matéria.
Por mim, em caso de dúvida, a opção é sempre pró-autonomia. Sem mais!
08/05/2005
BENFICA
Assimilada a derrota de ontem, frente a um Penafiel que apresentou um futebol tacticamente organizado e capaz de impedir a progressão do Benfica em direcção à baliza do adversário, resta o sofrimento em silêncio. Nem tudo está perdido, mas nada está ganho. Não sei se o "bater de asas da borboleta em Tóquio" provoca uma agitação nas redes da baliza. Sei apenas que espírito ganhador que o Benfica tem de exibir, não se compadece com a pressão psicológica que os comentadores da bola assinalam como elemento decisivo para a derrota de ontem.
Um treinador é, acima de tudo, um líder, um condutor de homens, a quem compete fazê-los acreditar, não nas imprevisíveis fraquezas dos outros ou nos golpes da sorte, mas nas capacidades, no talento de cada um, ao serviço da equipa.
UM BLOCO COMO OS OUTROS
O Bloco de Esquerda está cada vez mais convencional, no plano partidário. A IV Convenção, que decorre em Lisboa demonstra que o BE engravidou com o poder, que o último resultado eleitoral lhe proporcionou: entronizou um líder, admitiu tendências internas ( a Política XXI de Miguel Portas declara-se à direita da esquerda), os estatutos são reformados e prevêm normas semelhantes às de outros partidos.
As eleições de 20 de Feveiro institucionalizaram o BE. O peso do resultado eleitoral empurrará o BE para um comportamento idêntico aos dos outros partidos parlamentares, o que fará o PS sorrir, já que o BE insiste em acossá-lo à esquerda.
Apesar de continuar a apresentar-se de camisa aberta, o Dr. Louça, a partir deste fim-de-semana, usa já uma gravata virtual!
03/05/2005
ENTRE O CÉU E NÓS
Recupero um texto, com dois anos, sobre o culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que nos identifica e singulariza como povo (também povo à procura de Deus).
Entre o céu e nós, estamos nós próprios. Neste fim-de-semana, no Campo do Senhor, independentemente das crenças pessoais de cada um, voltamos a convergir na aceitação de que há algo de diferente na mensagem cristã para o mundo.
Fazemo-lo por educação, por tradição, mas, sobretudo por convicção.
No respeito que exteriorizamos ao culto do Senhor Santo Cristo queremos significar a nossa condição humana, finita e efémera. É verdade que, muitas vezes, misturamos tudo: o divino com o pagão, o imaterial com o transcendente, o que vale a pena com o que não tem importância. A nossa natureza é mesmo assim. Por isso mesmo, os momentos de recolhimento que esta manifestação religiosa proporcionam têm um significado maior num tempo de espiritualidade conturbada, como aqueles que atravessamos.
Para os meus avós a religião assentava num balanço simplesmente maniqueísta entre o bem e o mal, feito de listas de deve e haver de pecados e de não-pecados. Era o tempo dum Deus inacessível, intransponível e a Sua igreja um repositório de proibições e restrições.
A minha geração procura uma igreja compreensiva, atenta, com amor, capaz de acolher, não apenas aqueles que são sempre facilmente recebidos em qualquer lugar, mas os outros - os que nunca são lembrados e que não têm sequer dinheiro para gastar na festa pagã deste fim-de-semana. Mas não só: o Senhor que vai sair hoje à tarde percebe bem o que quero dizer. Perceber os "sinais dos tempos" conciliares é também entender que a igreja tem de comungar as apreensões, as angústias de homens que vivem num tempo complicado, no qual a ritualização da fé não é suficiente, nem sequer o mais importante.
"Vimos o Senhor!", como escreve João. A frase dos Apóstolos que viram Cristo ressuscitado significa que O viram de modo diferente. Quando dizemos "vimos o Senhor" queremos sentir a intimidade de quem conhece, de quem acredita que vale a pena conhecer. Isto é, o código do catolicismo não é um cânone, uma regra, mas uma pessoa - Jesus Cristo - que sempre deu respostas e amor a pessoas concretas, de carne e osso.
Bernard Shaw escreveu: "libertei-me do suborno do céu. Cumpramos a obra de Deus por si mesma, porque a obra para cuja realização nos criou só pode ser executada pelos homens e mulheres vivas. Quando eu morrer, que o devedor seja Deus e não eu".
Gosto de pensar que naquele instante em que a imagem sai do Convento da Esperança, o Senhor está a olhar para mim e eu para ele. Sem que nenhum de nós esteja a pensar no céu!
Entre o céu e nós, estamos nós próprios. Neste fim-de-semana, no Campo do Senhor, independentemente das crenças pessoais de cada um, voltamos a convergir na aceitação de que há algo de diferente na mensagem cristã para o mundo.
Fazemo-lo por educação, por tradição, mas, sobretudo por convicção.
No respeito que exteriorizamos ao culto do Senhor Santo Cristo queremos significar a nossa condição humana, finita e efémera. É verdade que, muitas vezes, misturamos tudo: o divino com o pagão, o imaterial com o transcendente, o que vale a pena com o que não tem importância. A nossa natureza é mesmo assim. Por isso mesmo, os momentos de recolhimento que esta manifestação religiosa proporcionam têm um significado maior num tempo de espiritualidade conturbada, como aqueles que atravessamos.
Para os meus avós a religião assentava num balanço simplesmente maniqueísta entre o bem e o mal, feito de listas de deve e haver de pecados e de não-pecados. Era o tempo dum Deus inacessível, intransponível e a Sua igreja um repositório de proibições e restrições.
A minha geração procura uma igreja compreensiva, atenta, com amor, capaz de acolher, não apenas aqueles que são sempre facilmente recebidos em qualquer lugar, mas os outros - os que nunca são lembrados e que não têm sequer dinheiro para gastar na festa pagã deste fim-de-semana. Mas não só: o Senhor que vai sair hoje à tarde percebe bem o que quero dizer. Perceber os "sinais dos tempos" conciliares é também entender que a igreja tem de comungar as apreensões, as angústias de homens que vivem num tempo complicado, no qual a ritualização da fé não é suficiente, nem sequer o mais importante.
"Vimos o Senhor!", como escreve João. A frase dos Apóstolos que viram Cristo ressuscitado significa que O viram de modo diferente. Quando dizemos "vimos o Senhor" queremos sentir a intimidade de quem conhece, de quem acredita que vale a pena conhecer. Isto é, o código do catolicismo não é um cânone, uma regra, mas uma pessoa - Jesus Cristo - que sempre deu respostas e amor a pessoas concretas, de carne e osso.
Bernard Shaw escreveu: "libertei-me do suborno do céu. Cumpramos a obra de Deus por si mesma, porque a obra para cuja realização nos criou só pode ser executada pelos homens e mulheres vivas. Quando eu morrer, que o devedor seja Deus e não eu".
Gosto de pensar que naquele instante em que a imagem sai do Convento da Esperança, o Senhor está a olhar para mim e eu para ele. Sem que nenhum de nós esteja a pensar no céu!
O PRESIDENTE E O REFERENDO
O Presidente da República, sem sobressaltos e sem surpresas, comunicou à Assembleia da República que não convocaria um referendo sobre a despenalização do aborto. Jorge Sampaio decidiu de maneira politicamente acertada, refreando a vertigem socialista, dominada pela agenda do Bloco de Esquerda.
O futuro ditará uma nova proposta de referendo para submeter a um novo Presidente da República.
30/04/2005
ISCAS..
O lado pagão das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em São Miguel, tem destas coisas: as tasquinhas de comes e bebes multiplicam-se, aviando os petiscos que fazem a sua - digamos, com generosidade - fama.
Em frente ao renovado Coliseu Micaelense, destoando do mar de bancas que vendem o último grito da moda cigana - calça de ganga de indizível marca e sapatos cor-de-rosa, de salto alto - o rés-do-chão da Melo Abreu serve umas iscas competentes. Ali encontrei o António José, azafamado,à hora do almoço, a atender pedidos, com outros amigos. Elogiei-lhe o jeito para a coisa, mas acho que o talento dele para escrever supera o de servir à mesa!
A propósito de iscas,com os agradecimentos ao glória fácil, Albino Forjaz de Carvalho, em 1940, escrevia na "Volúpia (a nona arte: a gastronomia)", Editorial Notícias:
"Ia-se às iscas. Ah!, mas não se julgue que as iscas eram o que são hoje. Não. Perdeu-se a poesia das iscas. (...) O cozinheiro era sempre galego, conhecido em calão por frege-moscas, e o segredo da sua preparação culinária, quanto a nós, devia-se a dois factores especialmente: primeiro, à espessura quase inverosímil da isca. Espessura negativa, que exigia na sua confecção adestramento e faca; segundo, a que nunca se lavava a frigideira a não ser de anos em anos, quando os cozinheiros iam à terra, para deixar malparados os créditos do substituto.(...) Com banha de porco e baço raspado, as iscas saídas do alguidar onde estão de molho em vinagre, sal, pimenta, louro e alho, saltam na ponta do garfo e espalham-se na frigideira. O fígado penetra-se do gosto dos condimentos e abre num cheiro maravilhoso.(...)Com as iscas comia-se uma conserva que os galegos denominavam conserva à portuguesa, composta de tiras muito finas de cenoura e pimentos verdes, que era um verdadeiro achado a junção dos dois petiscos. Isso tudo se perdeu."
29/04/2005
NOITE COM A CIDADE NOS SENTIDOS
Numa pequena sala de Ponta Delgada, Aníbal Raposo cantou, naquele seu jeito tímido de quem está em paz com o mundo. Um destes dias, a cidade foi o pretexto das palavras e da música. A cidade dos que nela nasceram e dos que a adoptaram e agora lhe chamam sua. Verdadeiramente não escolhemos as nossas cidades: são elas que convocam os sentidos. "São as cidades que fazem os homens", escreveu Cabrera Infante. As cidades são as sereias urbanas dos novos tempos.Ficamos enfeitiçados, para além de qualquer explicação racional.
A pergunta do questionário de Proust - dentro de dias voltará a povoar as páginas dos jornais, magros de tanto Verão - "que cidade escolheria para viver?" é sempre embaraçosa e quase impossível de responder.Como escolher uma cidade? Movemo-nos pelos impulsos momentâneos: Nova Iorque, pela cidade em si. Atenas, pela memória da pedra. Lisboa, pela luz.
Ponta Delgada, na sua altivez de basalto é a minha cidade. A relação com a cidade nem sempre foi pacífica. Tal como uma relação de amor, precisou de tempo para atingir a sua maturidade.
Ponta Delgada começou por ser sinónimo de doença. As férias eram passadas no Pico ou no Continente, satisfazendo os dois lados da família.Só vinha a Ponta Delgada, de avião, por razões clínicas, em que a ida ao médico se impunha. Recordo um episódio na Clínica do Bom Jesus, em que o Dr. Furtado Lima me foi mostrar uma das salas com equipamento médico - talvez a radiografia - e me perguntou, com um natural orgulho, o que me parecia aquilo. Do fundo da memória, arranquei de imediato a comparação que me pareceu mais evidente: "Parece uma central eléctrica!", exclamei, cioso dos meus vastos conhecimentos.
O alojamento era ali na Rua Hintze Ribeiro, na Pensão Puga, já desaparecida. O dono, reverencialmente tratado por Sr. Horácio, era a abelha-mestra do estabelecimento.Desse tempo, sobrou a lembrança dumas fatias de pão que o Sr. Horácio, com método e preceito, cortava na hora do pequeno-almoço que, de tão finas, quase pareciam laminadas. Tantas vezes assisti ao ritual que passei a designar uma fatia de pão mais fina como uma "fatia à Horácio". Ainda hoje o faço, por vezes.
Depois, foi o tempo do "exílio" estudantil, para completar o 12º ano, feito de rituais de cantinas, de quartos arrendados, das lutas políticas na Associação de Estudantes do Liceu, das sessões duplas de cinema no Coliseu,das tertúlias de café e jornais na Tabacaria Açoriana - "o mais democrático parlamento do mundo" - dos tostões contados, dos almoços de Domingo em casa do Capitão Bettencourt, em que o Pico era uma referência constante.
Mais tarde, o regresso. Não exactamente "regresso", porque nunca daqui saí. Acho que já pertenço aqui. De algum modo, a cidade escolheu-me. Sem eu saber!
Não sei o que Margarida Dulmo Clark - a de Nemésio - pensaria da sua cidade. Fica o "Tema para Margarida" composto pelo Aníbal para a versão televisiva de "Mau tempo no Canal", um (pre)texto para falar da cidade. Fica bonita cidade!
TEMA PARA MARGARIDA
Ai quem me dera partir
Na canoa da esperança
E ir ancorar noutras praias
Noutros varadouros
Ai quem me dera voltar
A gozar dos tesouros
Da felicidade que eu tinha
Quando era criança
Ai quem me dera ser garça
E voar no canal
Só entre o Pico e o Faial
Me quedar dividida
Ai quem me dera mão firme
No leme da vida
Ai este amor que me mirra
Me mata e faz mal
Ai quem me dera de novo
As certezas e os medos
Ai quem me dera ter credos
E não ser indiferente
Ai o amor passa ao largo
Da vida da gente...
Ai já o tempo se escoa
Como areia entre os dedos...
Aníbal Raposo
AMOR E CROCODILOS
Diz um anúncio publicitário: "o amor é como um crocodilo a nadar num rio". Saberá o publicitário que os crocodilos não mordem debaixo de água?
Bom-dia!
26/04/2005
DEMOCRACIA E AUTONOMIA
Trinta e um anos depois do 25 de Abril, uma reflexão sobre a democracia e a liberdade que, nos Açores, têm a expressão de autonomia, no anjo mudo, aqui ao lado, como sempre.
O PODER DO KETCHUP
Vejo-os sem os poder ouvir. Num vulgar centro comercial, numa dessas zonas impessoais a que chamam pomposamente "praça da comida", estão os dois sentados frente-a-frente, a comer, com um olhar ausente, o hamburguer que publicidade incisiva nos compele a consumir. O rapaz e rapariga - um casal? - estão obviamente zangados um com o outro. Adivinho a intensidade das palavras pela rudeza dos gestos e pelos olhares que se desviam. Sobretudo, pelos olhos que fogem do contacto, refugiando-se nas pessoas ao lado, na cúpula do centro comercial e no interesse desmedido pelas batatas fritas. Há um gesto dela mais irado, a que ele responde de modo rápido. Ficam os dois silenciosos. Frente a frente, cada um inventa uma estratégia para resistir ao momento. De súbito, ele pega num pequeno pacote de ketchup (daqueles que acompanham as batatas fritas do fast-food) e começa a ler, longamente, as instruções no verso. O rapaz construiu, ali mesmo, uma intransponível barreira vermelha contra o insuportável silêncio num local público.
21/04/2005
O QUE PERGUNTA O PS?
A Assembleia da República aprovou a realização dum referendo à descriminalização do aborto, de acordo com uma proposta de Resolução do PS. A pergunta propõe a descriminalização do aborto realizado até às 10 semanas de gravidez: "Concorda que deixe de constituir crime o aborto realizado nas primeiras dez semanas de gravidez, com o consentimento da mulher, em estabelecimento legal de saúde?".
Porém, o projecto do PS que está na base da resolução aprovada, fala em 16 semanas. Tal facto levou a que 40 Deputados do PS apresentassem uma declaração de voto.
Em que é que ficamos? O que quer afinal o PS? Qual é a sua prioridade? O referendo à Constituição europeia ou o referendo ao aborto? Pelo andar da carruagem, o PS apenas quer fazer política.
20/04/2005
O AMIGO DE LISBOA OU DA INCONSTITUCIONALIDADE DA LIMITAÇÃO DOS MANDATOS DOS PRESIDENTES DOS GOVERNOS REGIONAIS
No anjo mudo, publico um texto, sobre as relações dos Açores com Lisboa, no qual assinalo que a proposta de Lei que o Governo de José Sócrates aprovou para a limitação dos mandatos políticos é inconstitucional na parte em que impõe um limite ao mandato dos Presidentes dos Governos Regionais, por violação do artigo 231º, nº 7 da Constituição.Sendo esta uma matéria compreendida no estatuto dos titulares dos órgãos regionais, é por essa via, objecto de reserva de inicitiva por parte das Assembleias Legislativas, em sede de Estatuto Político-Administrativo. Aqui ao lado, como sempre.
19/04/2005
TRADIÇÃO E CONTINUIDADE
A Igreja Católica tem, desde há poucos momentos, um novo pastor. Bento XVI representa a tradição e a continuidade. O Cardeal Joseph Ratzinger encarnará, talvez, um papado de transição, com um forte sinal de conservadorismo. Acho que a Igreja decidiu fazer um compasso de espera com a história. Oxalá me engane!
18/04/2005
O nome convoca o centenário e mítico hotel de Nova Iorque - Waldorf Astoria - na Park Avenue, bem no coração da cidade que não dorme, local de eleição para princípes - da realeza ou mais das mais plebeias profissões. Porém, o post é sobre o bem mais modesto Astoria de Coimbra, a espreitar o Mondego.
Os acasos levaram-me, após 20 anos, a este hotel. Ao entrarmos no Astoria, sentimos que o tempo parou: a porta com gradeamento de ferro, os veludos pesados, a acusarem a marca sofrida do tempo, a recepção em exercício de resistência à modernização, as velhas fotografias nas paredes, dum tempo que não volta, o elevador que nos faz hesitar por um imperceptível segundo, ao transpormos as suas pesadas portas de ferro forjado.
Num local de passagem como é, por definição, um hotel, sentimos que no Astoria o tempo teima em não passar. O conforto do mundo fica lá fora, num quarteirão que não resistiu à mudança: uma loja da Zara, uma agência bancária...
A suspensão do tempo lá dentro: a sala de estar com pequenas secretárias de leitura, com separadores de vidro fosco fez-me lembrar da biblioteca do Clube Asas do Atlântico (em Santa Maria) da minha infância, na qual havia umas iguazinhas (a memória é traiçoeira, mas juro que eram iguais, iguais) e para a qual me escapulia vezes sem conta.
A memória do (des)encontro aqui fica!
15/04/2005
AS TAXAS, A SATA E A DISPLICÊNCIA DOS GOVERNANTES
O Secretário Regional da Economia afirmou ontem, perante a Comissão de Economia - na qual prestou esclarecimentos a requerimento do PSD - que as taxas que todos pagamos pela emissão de bilhetes na SATA AIR AÇORES e na SATA INTERNACIONAL (se ainda não repararam, prestem atenção da próxima vez que viajarem)são uma forma de compensar a transportadora área regional do acréscimo de custos decorrente do aumento do preço de petróleo.
Lembro, por exemplo, que a taxa de emissão dum bilhete para Lisboa é de ? 16 (cerca de 8%) do custo da viagem!
Uma taxa é, por definição, a contraprestação pecuniária por um serviço prestado. Se assim é, não pode ser confundiada com o preço que pagámos por um serviço de transporte aéreo que o passageiro contrata, quando adquire o seu bilhete (título de transporte).
Sendo conceitos distintos, distinto também é o seu tratamento contabilístico.
A SATA - com a autorização da tutela (pelos vistos) - aumentou encapotadamente o preço das passagens aéreas, por meio dum subterfúgio de duvidosa legalidade.O que pensará a Comissão Europeia deste aasunto, já que as condições de transporte aéreo (entre as quais se encontra o preço das viagens) obedecem às regras do concusro público aberto para o efeito?
O PERFIL E O RESTO
A notícia é do Diário Insular e é, no mínimo, surpreendente. Aqui fica, sem comentários:
Um anúncio de emprego para empregado de mesa/assistente de bar no Top of the Rock Club (Clube de Oficiais Americanos) na Base das Lajes está a gerar polémica entre os funcionários do destacamento norte-americano. Em causa estão alguns dos requisitos necessários para ocupar as sete vagas abertas.O anúncio refere que "não é necessária qualquer experiência anterior ou formação", salientando, contudo, que "o candidato deve estar apto a seguir simples instruções orais ou a preparar notas de pedidos".Mas vai mais longe e exige mesmo que o candidato seja "fisicamente capaz de levantar-se, parar, baixar-se e andar por longos períodos de tempo". O empregado de mesa/assistente de bar deve também ?ser capaz de levantar e carregar frequentemente objectos com mais de cinco quilos". Outro dos requisitos do mesmo anúncio são "ter a idade mínima exigida para servir bebidas alcoólicas (18 anos)" e "estar apto a completar com sucesso o curso Food Handlers Training". Para ocupar o lugar, o candidato deve ainda "estar apto a comunicar com os clientes e possuir empatia nas relações com o público".DI tentou, sem sucesso, obter a opinião da Inspecção Regional do Trabalho e da direcção regional do Emprego, Juventude e Formação Profissional, assim como dos comandos Português e Americano sobre esta matéria.
13/04/2005
O VELUDO DO TEMPO
Depois do congresso social democrata, uma reflexão sobre o momento actual do PSD e sobre a natureza dos congressos partidários, aqui ao lado, como sempre no anjo mudo.
06/04/2005
BOM HUMOR PARLAMENTAR (II)
Mais um conjunto de frases, observações ou apartes regimentais do debate das últimas horas.
"Isto não é desagregação orçamental. É desorientação" - Um Deputado da oposição
"Isto não é desagregação orçamental. É desorientação" - Um Deputado da oposição
"O PS tem muito tempo, mas não tem nada para dizer" - Um Deputado da oposição
"Também nas cortes havia um personagem que fazia o papel que o Senhor Deputado acabou de fazer agora" - Um Deputado da oposição dirigindo-se a um Deputado da maioria
"O ócio é mãe de todas as literaturas e de toda a magia" - Um Deputado da maioria
"O José Manuel que amava Clélio
que amava Pedro
que amava Victor
que amava Berta
que não amava ninguém"
Um Deputado da maioria, que assumiu a inspiração de Carlos Drummond de Andrade
"O senhor Deputado tem jeito para letras de fados vadios" - Um Deputado da oposição, em aparte após o poema
A GIOCONDA, DE NOVO
A Gioconda volta a sorrir para todos. A mulher do florentino Francesco del Giocondo, donatária do sorriso mais célebre do mundo, renasce para os olhares curisosos, depois de quatro longos anos de ausência.
BOM HUMOR PARLAMENTAR
Frases ouvidas durante o debate do plano e orçamento para 2005 e orientações para 2005-2008, na Assembleia Legislativa dos Açores:
"Vamos ter tempo para esgatanhar o orçamento" - Um Deputado da oposição
"Sr. Presidente: agradecia que acalmasse o Sr. Vice-Presidente" - Um Deputado da oposição
"As receitas do orçamento contam com o ovo numa certa parte do corpo da galinha" - Um Deputado da oposição
"Orgulhamo-nos de pintar edifícios públicos" - Um Deputado da maioria
"Secretário Regional diz; Deputado da maioria lê o mesmo papel" - Um Deputado da oposição
"As receitas são modestas... e não digo isto por existir um Governo em Lisboa e ter medo de o espremer" - Um Deputado da oposição
05/04/2005
CHUVA NO CORPO
Chove. Voltou aquele cheiro familiar a terra molhada.Estou aqui,apenas a ver chover! Acho que o relógio anda mais devagar, mas não tenho a certeza.
O PROJECTO DE LEI ELEITORAL
O projecto de lei eleitoral da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores foi hoje aprovado com os votos do PS e do CDS/PP e pode ser visto, bem como o relatório final da Comissão para a revisão do sistema eleitoral, no site da ALRA.
O PS e o CDS/PP aprovaram uma revisão modesta nos objectivos, pouco ambiciosa nos propósitos e pouco reivindicativa em matéria de Direito eleitoral, no que respeita aos Açores. Não me revejo nesta solução.
Contas feitas ao processo, o PS impôs - no sentido literal da expressão - a sua vontade neste domínio, tendo ganho a boleia política dos pequenos partidos que olham para a solução encontrada como os náufragos costumam olhar para as tábuas de salvação.
Nos próximos dias, com mais tempo, colocarei um post mais desenvolvido sobre o assunto.
VERDADE E MENTIRA NO ORÇAMENTO
A Assembleia Legislativa começou hoje a discutir o plano e o orçamento para 2005 e as orientação de médio prazo para 2005-2008. Aqui ao lado, lanço um olhar crítico sobre estes documentos, quando o Governo finge ter um plano e orçamento que, verdadeiramente, não tem. Como sempre, para ler no anjo mudo.
ESPERANÇA E RESPEITO
De João Paulo II recordo a frase que proferiu na sua primeira visita à Argentina: " I hope against all hope". A força e a determinação da esperança marcaram o seu pontificado. Nada ficou igual na Igreja, com este Papa. Nada ficará igual depois deste Papa.
"Comovidos a oeste", recordamos um Papa que marcou o seu pontificado pela brutal - por vezes chocante - humanidade no desempenho de pastor de milhões de católicos, à roda do mundo. Convivemos com a sua energia, a sua determinação, a sua vontade de mostrar uma Igreja de rosto humano e sentido divino. Mergulhámos na sua dor pessoal, na inexorável decadência física, que foi um sinal - que acredito que João Paulo II quis transmitir aos homens - de que o sofrimento tem um sentido redentor, fazendo parte da nossa condição humana. Num tempo de facilidades vários, de hedonismos dispersos, convertidos num quase-credo da vida moderna, convivemos mal com o sofrimento, com a decadência da parte mortal de nós - o corpo. O exemplo de João Paulo II, é, ao mesmo tempo, redentor e um uma advertência para todos aqueles que deixam de acreditar na santidade da vida. Pelos media, hora a hora, minuto a minuto vimos - vivemos, mesmo - a dor, o sofrimento dum Papa que se tornou familiar para nós. E isto dá que pensar!
Comovido, inclino respeitosamente a cabeça por um homem bom.
Acredito que os Cardeais da Igreja saibam encontrar um sucessor à altura dos novos desafios dum mundo em mudança. Acredito que a eleição dum novo Papa não é apenas um simples acto eleitoral, no sentido convencional do conceito. Acredito que o Espiríto Santo inspirará os Cardeais eleitores.
01/04/2005
AS TIME GOES BY
Na madruga em que as notícias sobre a saúde de João Paulo II são contraditórias e os sentidos estão suspensos do éter, recupero um post de Outubro de 2003:
As últimas aparições públicas de João Paulo II revelam um homem de corpo alquebrado e um rosto, quase sempre, atormentado por um "rictus" de dor. O Papa é a marca do sofrimento físico e ao mesmo da anulação desse sofrimento, entendido apenas como mais um sinal de provação do corpo. Este Papa peregrino já está para lá das limitações do que é apenas "corpore". A sua força interior, a sua determinação, ultrapassam as contingências que a idade não perdoa. Talvez por isso, seja tão amado pelos mais jovens. Carismático, afirmativo, combativo, de uma lucidez política impressionante, renovador e conservador, popular e introspectivo, contraditório quantas vezes, abriu a Igreja Católica ao mundo. Sem ter convocado um Concílio, como o Papa João, provocou um novo "aggiornamento" na Igreja do século XX. Muitas das consequências desta mudança apenas serão perceptíveis ao longo deste novo século que está a começar. O seu longo papado foi exercido sob o signo duma Igreja no meio dos homens. O exemplo pessoal de coragem e de sacrifício do Papa fazem mais pela Igreja e pela fé no homem em comunhão com Deus do que uma nova encíclica - perdoe-se-me a quase heresia. Olho para a foto que o DN publica e fico impressionado. Penso que ninguém fica indiferente!
31/03/2005
AS PROPOSTAS DE REVISÃO DA LEI ELEITORAL QUE A MAIORIA SOCIALISTA NÃO QUIS DISCUTIR
No anjo mudo, como sempre, aqui ao lado, coloquei as propostas que apresentei na reunião de 11 de Março da Comissão Eventual para a Revisão da Lei Eleitoral (CERLE), destinadas a ampliar a revisão da lei eleitoral, para além das constantes dos ante-projectos apresentados pelos partidos políticos e da revisão minimalista que a maioria do PS impôs.
Das propostas por mim apresentadas, destaco três:
a) A criação dum círculo eleitoral que designei por "fora dos Açores", destinado àqueles que têm dupla residência - nos Açores e fora dos Açores - permitindo assim ultrapassar a limitação constitucional do velho círculo dos emigrantes.
b) A possibilidade de grupos de cidadãos apresentarem candidaturas à Assembleia Legislativa, acabando com o monopólio partidário nesta matéria;
c) A atribuição de competências à Região em matéria de consolidação técnica dos cadernos eleitorais, conhecida que é a sua manifesta desactualização.
As propostas que apresentei não "passaram do papel", por falta de vontade política do PS.
A revisão da lei eleitoral é muito pouco ambiciosa e restrinige-se, no essencial, ao mecanismo de criação dum décimo círculo regional de compensação, proposto pelo PS e pelo PP.
Os Açores perderam uma boa oportunidade de alterar - com profundo sentido político - a lei eleitoral, assumindo um conjunto de opções no domínio do direito eleitoral claramente ambiciosas.
Nem sempre as maiorias decidem bem!
A TRISTEZA DAS ÁGUAS
Dificilmente me lembro de coisa tão triste, como um barco a morrer. Humanizamos os barcos com nome de gente. Invocamos lugares, santos de especial devoção. Bazptizamos os barcos com emoção e ditreito a madrinha. Fazemos dos barcos extensões de nós, na vontade de enganar o mar. Umas vezes humildes, os barcos são apenas pobres embarcações quase de brindeira (como se fosse possível brincar com o mar). Outras vezes altaneiros, não resistimos à titaniquização.
Os barcos morrem sempre da mesma maneira: sozinhos! Resta apenas a fé: confundida com desejo, olhamos para um barco moribundo e pensamos que ainda é possível pô-lo a navegar.
A Mariana ardemar escreveu, a 19 de Março ( no dia do Pai), que os "barcos morrem enxutos", assinando uma fotografia de barco chamado "Felicidade dos Anjos". Assim, num texto sentido:
Os barcos jazem postos nos portos, varados, arrumados
de passado a tiracolo,trespassados por cinco balas de terra junto ao colo:
os barcos morrem enxutos.
ANDANDO POR AÍ...
Um velho poema de 1969 de Vitorino Nemésio. Enquanto escrevo, ouço o Requiem, de Mozart, pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Von Karajan. A soprano é Anna Tomowa-Sintow. Velhos pecados de viajeiro!
A CAMINHO DO CORVO
A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede de verdade,
A moça que o Canal trocou nos seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe,
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada
Contra a vida esmagada
Abençoemso o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.
23/03/2005
O REFERENDO AO ABORTO
O PS entregou já na Assembleia da República um projecto de resolução para a realização dum referendo sobre a despenalização do aborto.
A pergunta é a mesma de 1998: "Concorda com a despenalização da IVG até às 10 semanas, realizada em estabelecimento legal de saúde?"
Pressionado pela tenaz política do PCP e do BE, à sua esquerda, que pretendem a alteração do Código Penal sem realização do referendo, o PS avança para o referendo sobre o aborto, quando a prioridade política deveria ser o referendo sobre a "Constituição Europeia".
De modo apressado, o PS abraça o voluntarismo mediático, na esperança de agradar ao eleitorado mais à esquerda. Para um partido de poder e no poder, o PS, aparentemente, tem as prioridades invertidas.
Não se pense que não concordo com a realização dum novo referendo sobre esta matéria. Concordo,porque entendo que, passados seis anos, é tempo de consultar de novo os portugueses sobre uma matéria de consciência. Tal como fiz em 1998, farei campanha contra a despenalização.
O AINDA LÍDER DO PSD
Santana Lopes participou já numa cerimónia pública na qualidade de recém-regressado ao cargo de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Muito embora esteja no seu direito legal de reocupar aquele cargo, uma leitura atenta dos resultados eleitorais e das circunstâncias pessoais e políticas do desempenho do cargo de Primeiro-Ministro recomendavam contenção e abstenção. Valerá a pena lembrar Heraclito, segundo o qual não podemso tomar banho duas vezes na água do mesmo rio?
O NOVO GOVERNO
Formalmente investido, após a apreciação do programa na Assembleia da República, o novo Governo pode começar a Governo. Já temos Governo; é tempo de Portugal começar a ter oposição de alternativa política.
17/03/2005
NOTÍCIA DO CANAL AUSENTE
Não vejo o canal de Nemésio, de Genuíno Madruga, das lanchas que desafiam a insularidade. Adivinho a montanha do Pico abraçada ao nevoeiro, lá em baixo, muito longe. Sinto o mar ao pé de mim. Apenas.
PASSA A BOLA, SÉRGIO!
Final da tarde, ontem, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. O hemiciclo esvazia-se lentamente, depois dum acalorado debate sobre política de saúde provocado pelo PSD. Fico para trás, a conversar com um membro da mesa. A conversa decorre com a calma e a tranquilidade dum plenário sem Deputados. De súbito, ouve-se um sonoro "apanha Osório". Olho e vejo o Vice-Presidente do Governo Regional, Sérgio Ávila, a pontapear - com um olhar travesso e divertido - uma bola, não de trapos, mas de papel, em direcção a Osório Silva que acabava de entrar na sala do plenário.
A indiscrição futebolísitica do Dr. Ávila será um dos traços da sua personalidade ou o efeito secundário do tão propalado "superavit"?
Em todo o caso, o plenário do parlamento não é o melhor lugar para demonstar habilidades futebolísticas!
16/03/2005
NOTÍCIAS NÃO JORNALÍSTICAS DO PARLAMENTO
De novo na Horta, na Assembleia Legislativa. O PS impõe o argumento da força dos seus 31 Deputados. Agora foi a propósito duma proposta de resolução do PSD que propunha que o parlamento acompanhasse o processo de alteração ao POSEIMA (matéria fundamentral para a Região).A intervenção do parlamento regional morre na praia, por força dos votos da maioria. A maioria é nova - diz o PS - mas os tiques são antigos.
Temo que esta postura não pressagie nada de bom para a reforma do sistema eleitoral ou para a revisão do Estatuto.
O PS anuncia o diálogo, mas à sua maneira: o diálogo é feito com base na adesão às propostas socialistas.
10/03/2005
UM PIJAMA PARA ...LER
Ela ofereceu-lhe um pijama, com uma frase nas costas, escrita na língua do amor. Ele veste o pijama. Então, ela replica: Agora, vou ler-te!
Bom-dia!
08/03/2005
A CRATERA DE MIMAS
Mimas é uma das luas mais pequenas de Saturno. A foto é da Cassini que, por cima de nós, nos mostra o que está para além do olhar.
(Créditos fotográficos da NASA)
Há sempre um lado da luz e outro da escuridão. A nossa posição em relação a eles pode variar. Porém, eles permanecem.
07/03/2005
OS IDOS DE MARÇO
1. A declaração de Freitas do Amaral ao Expresso, de acordo com a qual apenas aceitou ir para o Governo depois de conhecer a sua composição, é um dos primeiros sinais equívocos do novo Governo socialista. A contribuição de alguns de que fala o novo Ministro dos Negócios Estrangeiros é interpretada na primeira pessoa. Não sei o que pensará o Engº Sócarates da divulgação pública de que o seu Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros apenas aceitou integrar o Governo depois de fazer uma avaliação de todo o elenco. Quantas estrelas vão brilhar no firmamento cor-de-rosa?
2. O nóvel Ministro das Finanças admitiu um aumento de imposto a médio prazo. Para primeira declaração pública, ainda antes de ser empossado, é, no mínimo descuidada. Será este o novo estilo dos independentes no Governo?
3. O episódio da fotografia do fundador do CDS/PP é ridículo. Se o ridículo matasse, o Secretário-Geral do CDS/PP teria morrido em directo nos telejornais. A história, como sabemos - talvez o PP tenha optado por ignorá-lo - não se reescreve.
4. Dos confins de Luanda, Cavaco Silva deixou adivinhar a sua candidatura presidencial. As sondagens abrem-lhe uma avenida eleitoral. A teoria dos ovos e dos cestos terá geometria variável?
Subscrever:
Mensagens (Atom)









