06/07/2005

O QUE DIZ JOSÉ SÓCRATES

A entrevista do Primeiro-Ministro à SIC constituiu um bom momento do género jornalístico "entrevista". Jornalistas bem preparados e um Primeiro-Ministro em forma, sem conseguir esconder o incómodo de explicar o aumento dos impostos e denotando uma inusitada crispação com as perguntas. Por outro lado, foi notória a contradição com o recente discurso do Governo de que não haveria recurso a receitas extraordinárias para equilibrar as contas públicas. O Engº Sócrates deixou escapar que o Governo recorreria a este tipo de receitas, mas de acordo com "critérios". Estamos perante o conceito de receitas extraordinárias virtuosas!
Apesar da tentativa, o Primeiro-Ministro não foi convincente quanto ao plano de investimentos de 25 mil milhões de euros, ontem mesmo anunciado, em particular quanto ao novo aeroporto da Ota e ao TGV, não tendo encontrado explicação para o facto do invetsimento público ser de 8.000 milhões de euros em quatro anos, o que representa 2.000 milhões por ano, valor inferior ao invetsimento público previsto no PIDAC (investimento do Estado inscrtito Orçamento de Estado). Da mesma fragilidade argumentativa padece a sustentação política das SCUT'S.

O MUNDO NESTA SEMANA

Sobre a cimeira G8, que hoje começa na Escócia e o papel da União Europeia, sob a presidência inglesa. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.

04/07/2005

DEEP IMPACT

Créditos fotográficos: NASA/JPL-Caltech/UMD
A imagem foi captada a partir da Deep Impact, "olhando" para o cometa Tempel 1. Uma imagem extraordinária, tirada num dia em que a realidade se aproxima da ficção. It's 4 July!
Boa-noite!

01/07/2005

O ATLÂNTICO NO ESTORIL

Neste hotel - Estoril Palácio - convivem os velhos fantasmas da espionagem da II Guerra Mundial, o espírito de James Bond, a tentação do dinheiro fácil do Casino ali ao lado, com a discussão sobre as relações transatlânticas num mundo global. A organização é da UCP e do seu Instituto de Estudos Políticos. A discussão é dominada por uma perspectiva generalizada de defesa da política da Administração Bush, segundo o evangelho neo-conservador. A doutrina da liberdade é flat...
Ainda assim, a reflexão é estimulante.
O retiro neste velho palácio, proporciona, ainda, encontros estimulantes e desafia-nos a levarmos para os Açores algumas das conversas e das reflexões.
Ao almoço encontrei-me com Carlos Coelho, chairman da Brandia que, hoje mesmo, escreve um interessante artigo no Diário Económico, sobre a educação, e que me diz que na área do marketing (a sua actividade profissional) o importante é ter ideias, muito embora o "ratio" no ramo seja duma boa ideia por cada cem.

AUTOCARRO PERIGOSO

Há pouco, o autocarro passou por mim, no Saldanha. Pude ler o singelo letreiro luminoso, sobranceiro ao enorme pára-brisas: "36 - Sr. Roubado".
Dei comigo a pensar como seria inseguro apanhar o "36". Instintivamente, levei a mão à carteira...
Boa-noite!

A FÁBULA DA MULHER QUE NÃO PRECISA DE MACHO

O PPM - que ainda sobrevevive, arrastando-se de eleição em eleição - vai apresentar a Senhora Elsa Raposo como candidata à Câmara Municipal de Cascais. Quem sugeriu o seu nome foi o Senhor Gonçalo da Câmara Pereira que com ela partilhou a Quinta das Celebridades e os ecrãs da TVI. Fascinado, talvez, pela propensão do programa para o mundo autárquico (lembremos o inefável Avelino Torres, da primeira edição), o Senhor Câmara Pereira investiu na descoberta dos dotes da Senhora Raposo. O próprio justifica assim a candidatura: "é uma mulher independente, que não precisa de macho". Se o ridículo matasse, o Senhor Câmara Pereira já estaria morto e o PPM seguiria o mesmo caminho!

29/06/2005

UM ORÇAMENTO RECTIFICATIVO HÁ 115 ANOS...

Em 28 de Junho de 1890, o circunspecto Diário de Notícias, noticiava na primeira página, na rubrica Boletim Parlamentar:
"Câmara dos Pares - (...) Entrando-se na ordem do dia, o Sr. Lencastre propoz que se prorogasse a sessão até se votarem o orçamento rectificado e a lei de meios . Annuindo a câmara a este requerimento foram votadas aquellas duas leis, depois de usarem da palavra os srs. Camara Leme, Barros Gomes, Moreira de Rey, Marçal Pacheco, Pereira Dias, José Luciano de Castro, Bernardino Machado e Coelho de carvalho. A sessão terminou às 7 horas e ¼. A seguinte é na segunda feira, entra em discussão o bill de indemnidade".
Cento e quinze anos depois, o parlamento prepara-se para discutir um orçamento rectificativo. Mudam-se os tempos, mas há coisas que nunca mudam!

28/06/2005

UM ATENTADO À AUTONOMIA - O CASO DO ANDEBOL

A discriminatória decisão da Federação Portuguesa de Andebol que impede equipas açorianas de participarem de pleno direito nas competições nacionais, violando os princípios da igualdade e da continuidade territorial, é um atentado aos mais elementares direitos de cidadania dos Açorianos e das equipas dos Açores. Há uma insuportável desigualdade de base territorial. Para ler, aqui ao lado, como sempre, no anjo mudo.

A LUXÚRIA DO TEMPO

A "Luxúria do Tempo", assim o designei. A pintura é do Mário Roberto.
Bom-dia!

EU RECTIFICO, TU...

Eu rectifico, tu rectificas... nós duvidamos que eles saibam o que fazem!
A competência da equipa do Ministério das Finanças deixa tudo a desejar numa prova de fogo sempre importante, como é a da apresentação dum orçamento, ainda que seja rectificativo.

24/06/2005

UM OLHAR EM MOVIMENTO

Olharam-se, sincronizados no breve instante em que as escadas rolantes fizeram com que se cruzassem. Ele sorriu, a subir. Ela retribuiu, descendo. Ainda olharam um para o outro, uma vez mais, como que a tentarem parar o movimento infindável da escadaria.

SUSPIRO EM VÉSPERA DE FIM-DE-SEMANA...

Uma das dezenas de pequenas praias em redor de Fort de France, a capital da Martinica,a fazer-nos suspirar por um mergulho nas águas tépidas das Caraíbas.
Foto tirada em Outubro de 2004, ao cair da tarde, depois do mergulho a cuja repetição aspiro.

A TERRA VISTA DE FORA



Sabemos que estamos aqui, algures...

23/06/2005

GREVE I - COMO DISSE?

A Ministra da Educação, ontem, na SIC-Notícias proferiu esta delirante declaração sobre a sentença do Tribunal Administrativo e Fiscal de Ponta Delgada, que suspendeu o Despacho do Secretário Regioonal da Educação que estabelecia serviços mínimos em dia de greve:
A Ministra não sabe do que fala e põe em causa a organização judiciária do país, roçando o desrespeito pelos Tribunais.
Com Ministros destes, o Governo de José Sócrates não vai longe!

22/06/2005

GUTERRES AINDA É PRIMEIRO-MINISTRO?

A pergunta poderá parecer capciosa... Mudou o Primeiro-Ministro, mas os erros dos governos do engenheiro do verbo fácil e da imagem dócil repetem-se. Agora o Ministro da Economia anuncia que o Governo vai subsidiar o preço da electricidade para fins industriais, a fim de tentar conter o impacto resultante do aumento dos impostos. Em 2006, os consumidores domésticos obterão idêntico tratamento. Lembram-se quando o Governo de António Guterres, tendo não aumentar os combustíveis quando os preços do petróleo disparavam no mercado, compensou as petrolíferas em largos milhões de euros? Só à bengalada, como diria o Eça!

O NÚMERO TAMBÉM CONTA

Um interessante artigo do Economist, colocando em evidência o facto da taxa de fertilidade ser de 2.1, enquanto na velha Europa ela se situa na casa do 1.4 (sendo inferior em Portugal, que creio rondará o 1.2). Perante este cenário, aquela revista estima que em 2040 os EUA terão 500 milhões de habitantes.
A demografia também condiciona a condução política e tem um incontornável reflexo na adopção das políticas sociais.
Se não existirem outras razões para que a Europa possa encontrar novos caminhos para o seu auto-governo, procurando mecanismos institucionais que lhe permitam adoptar as políticas que a sua dimensão geográfica e populacional lhe conferem hoje, a demografia de amanhã será uma forte argumento.
Por quanto tempo mais a Europa continuará a ser um conjunto de Estados, sem uma forte agregação política que a torne uma potência - no sentido tradicional da expressão - à escala planetária?

OSSOS DO MAR

Em jeito de resposta à provocação simpática da Mariana, ardemares:
os ossos
do mar têm curvas
seixos ancorados
na eternidade do corpo

QUANDO O ILUSIONISTA É A ILUSÃO

No anjo mudo, uma reflexão sobre a coesão regional, a ilusão do novo Fundo de Coesão e o ornitorrinco, como metáfora política.

16/06/2005

UM NOVO ÍCONE DO COMUNISMO EUROPEU

O funeral de Álvaro Cunhal, mediatizado pelos órgãos de comunicação social, em particular pelas televisões, revelou uma nova faceta do esplendor dos cerimoniais fúnebres, ao concitar o olhar ávido dos espectadores sobre a solidão e poder do líder comunista. Nasceu um novo ícone no comunismo europeu. Não tardarão os panegíricos, os bonés e as t-shirts. É o que resta!

O ELOGIO DO VAZIO

As candidaturas autárquicas do Partido Socialista nos Açores e a falta de vocação de José San-Bento para ser candidato a Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, aqui ao lado, como sempre no anjo mudo.

09/06/2005

DRESSED TO FLY...

A segurança dos Aeroportos dos Açores permite observar pormonerores caricatos. Enquanto uns, como o fogotabraze, anseiam por cintos com fivelas de plástico para evitarem o público embaraço de desapetarem as calças, outros permitem-se brincar com as regras. A segurança dos Aeroportos explorados pela ANA,SA nos Açores é efectuada agora por uma empresa privada.
Ontem, em viagem de Santa Maria para São Miguel, depois duma longa e saturante fila para o controlo de segurança, descobri - pela boca dum dos trabalhadores desta empresa de segurança privada - que o passageiro que transporte um canivete com uma lâmina de comprimento inferior a 6 cm - vou escrever por extenso: seis centímetros - poderá transpor calmamente a barrreira da segurança.
Uma lâmina de 4 cm não é suficiente para matar? Claro que a fivela metálica dum cinto é muito mais mortal do que um canivete suiço com uma lâmina de 5 cm! Gostava de conhecer o burocrata autor desta regra!

07/06/2005

A DIPLOMACIA, COMO CONCEITO PESSOAL

O Prof. Freitas do Amaral começou no Governo com pé esquerdo, salientando que apenas tinha aceite o convite para MNE, depois de saber quem eram os seus pares do Governo. Depois, inaugurou a diploamacia na imprensa: o Expresso tem revelado com abundância um conjunto de factos relativos à diplomacia - que se quer discreta, por definição - portuguesa. O último dos quais, o fac-simile de carta enviada pelo próprio Ministro à Sra. Rice, sustentando a candidatura de António Guterres ao lugar de Alto Comissário para os Refugiados. Por fim, o Prof. Freitas do Amaral exibe publicamente a sua posição pessoal sobre o novo tratado europeu, não se sabendo o que pensa oficialmente o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros.Posição pessoal? O dever dum Ministro é exibir solidadriedade ao chefe de Governo e guardar as suas posições pessoais para o recato do seu gabinete ou para as reuniões do Conselho de Ministros. Sendo um notável professro de Direito, Freitas do Amaral perdeu o jeito para ser ministro e está a tornar-se um embaraço para o Engenheiro Sócrates!

OLHARES DISTRAÍDOS

Ao lado, no anjo mudo, um texto sobre a reforma do Estado, a leveza da actual gestão política e o peso da contradição.

O TEMPO QUE VAI FALTANDO....

Vai faltando tempo para ter tempo... e assim os dias escorrem pelas páginas da agenda, deixando pequenos sulcos garatujados, como sinais na pele.

01/06/2005

E AGORA, EUROPA?

Uma reflexão sobre o "não" francês, como sempre aqui ao lado, no anjo mudo.

19/05/2005

A UNIDADE DOS AÇORES

Um texto pensado para o dia dos Açores e publicado ontem no "Açoriano Oriental", no qual se fala da unidade dos Açores, na relação com Lisboa. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.

17/05/2005

O DÉFICE

As declarações do Governador do Banco de Portugal sobre a dimensão do défice já não chegam a ser surpreendentes. O estado das contas públicas não é um problema do Orçamento de Estado para 2005 ou das receitas extraordinárias a que os sucessivos Ministros das Finanças foram recorrendo para diminuir o défice orçamental: Portugal tem um problema estrutural de controlo da despesa pública, que não se resolve com medidas avulsas apenas para um ano económico (é quase rídicula a "medida" que os jornais divulgam, quanto à possibilidade de pagamento de portagens nas SCUT'S do litoral do país, face à dimensão do défice). O problema não é apenas dos Governos do PSD ou do PS... O défice estrutural e permanente das contas públicas, resultante do facto do Estado estar "gordo" e ser despesista, coloca em causa a própria solvabilidade do Estado. O "monstro orçamental" de que falou Cavaco Silva há uns anos está aí em todo o seu esplendor!

11/05/2005

A LIMITAÇÃO DE MANDATOS

Coloquei ao lado, no anjo mudo, o texto duma Declaração Política que fiz, ontem, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, em nome do PSD, sobre a limitação ao exercício de mandato dos Presidentes Governo Regional, objecto de inicitiva legislativa por parte do Governo da República, pendente na Assembleia da República.
Defendo que se trata matéria da competência exclusiva de cada Região Autónoma, a inscrever apenas nos Estatutos Político-Administrativos.
Ao contrário, o PS entende que a Assembleia da República pode legislar sobre esta matéria.
Por mim, em caso de dúvida, a opção é sempre pró-autonomia. Sem mais!

08/05/2005

BENFICA

Assimilada a derrota de ontem, frente a um Penafiel que apresentou um futebol tacticamente organizado e capaz de impedir a progressão do Benfica em direcção à baliza do adversário, resta o sofrimento em silêncio. Nem tudo está perdido, mas nada está ganho. Não sei se o "bater de asas da borboleta em Tóquio" provoca uma agitação nas redes da baliza. Sei apenas que espírito ganhador que o Benfica tem de exibir, não se compadece com a pressão psicológica que os comentadores da bola assinalam como elemento decisivo para a derrota de ontem.
Um treinador é, acima de tudo, um líder, um condutor de homens, a quem compete fazê-los acreditar, não nas imprevisíveis fraquezas dos outros ou nos golpes da sorte, mas nas capacidades, no talento de cada um, ao serviço da equipa.

UM BLOCO COMO OS OUTROS

O Bloco de Esquerda está cada vez mais convencional, no plano partidário. A IV Convenção, que decorre em Lisboa demonstra que o BE engravidou com o poder, que o último resultado eleitoral lhe proporcionou: entronizou um líder, admitiu tendências internas ( a Política XXI de Miguel Portas declara-se à direita da esquerda), os estatutos são reformados e prevêm normas semelhantes às de outros partidos.
As eleições de 20 de Feveiro institucionalizaram o BE. O peso do resultado eleitoral empurrará o BE para um comportamento idêntico aos dos outros partidos parlamentares, o que fará o PS sorrir, já que o BE insiste em acossá-lo à esquerda.
Apesar de continuar a apresentar-se de camisa aberta, o Dr. Louça, a partir deste fim-de-semana, usa já uma gravata virtual!

03/05/2005

ENTRE O CÉU E NÓS

Recupero um texto, com dois anos, sobre o culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que nos identifica e singulariza como povo (também povo à procura de Deus).

Entre o céu e nós, estamos nós próprios. Neste fim-de-semana, no Campo do Senhor, independentemente das crenças pessoais de cada um, voltamos a convergir na aceitação de que há algo de diferente na mensagem cristã para o mundo.

Fazemo-lo por educação, por tradição, mas, sobretudo por convicção.

No respeito que exteriorizamos ao culto do Senhor Santo Cristo queremos significar a nossa condição humana, finita e efémera. É verdade que, muitas vezes, misturamos tudo: o divino com o pagão, o imaterial com o transcendente, o que vale a pena com o que não tem importância. A nossa natureza é mesmo assim. Por isso mesmo, os momentos de recolhimento que esta manifestação religiosa proporcionam têm um significado maior num tempo de espiritualidade conturbada, como aqueles que atravessamos.

Para os meus avós a religião assentava num balanço simplesmente maniqueísta entre o bem e o mal, feito de listas de deve e haver de pecados e de não-pecados. Era o tempo dum Deus inacessível, intransponível e a Sua igreja um repositório de proibições e restrições.

A minha geração procura uma igreja compreensiva, atenta, com amor, capaz de acolher, não apenas aqueles que são sempre facilmente recebidos em qualquer lugar, mas os outros - os que nunca são lembrados e que não têm sequer dinheiro para gastar na festa pagã deste fim-de-semana. Mas não só: o Senhor que vai sair hoje à tarde percebe bem o que quero dizer. Perceber os "sinais dos tempos" conciliares é também entender que a igreja tem de comungar as apreensões, as angústias de homens que vivem num tempo complicado, no qual a ritualização da fé não é suficiente, nem sequer o mais importante.

"Vimos o Senhor!", como escreve João. A frase dos Apóstolos que viram Cristo ressuscitado significa que O viram de modo diferente. Quando dizemos "vimos o Senhor" queremos sentir a intimidade de quem conhece, de quem acredita que vale a pena conhecer. Isto é, o código do catolicismo não é um cânone, uma regra, mas uma pessoa - Jesus Cristo - que sempre deu respostas e amor a pessoas concretas, de carne e osso.

Bernard Shaw escreveu: "libertei-me do suborno do céu. Cumpramos a obra de Deus por si mesma, porque a obra para cuja realização nos criou só pode ser executada pelos homens e mulheres vivas. Quando eu morrer, que o devedor seja Deus e não eu".

Gosto de pensar que naquele instante em que a imagem sai do Convento da Esperança, o Senhor está a olhar para mim e eu para ele. Sem que nenhum de nós esteja a pensar no céu!

O PRESIDENTE E O REFERENDO

O Presidente da República, sem sobressaltos e sem surpresas, comunicou à Assembleia da República que não convocaria um referendo sobre a despenalização do aborto. Jorge Sampaio decidiu de maneira politicamente acertada, refreando a vertigem socialista, dominada pela agenda do Bloco de Esquerda.
O futuro ditará uma nova proposta de referendo para submeter a um novo Presidente da República.

30/04/2005

ISCAS..

O lado pagão das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em São Miguel, tem destas coisas: as tasquinhas de comes e bebes multiplicam-se, aviando os petiscos que fazem a sua - digamos, com generosidade - fama.
Em frente ao renovado Coliseu Micaelense, destoando do mar de bancas que vendem o último grito da moda cigana - calça de ganga de indizível marca e sapatos cor-de-rosa, de salto alto - o rés-do-chão da Melo Abreu serve umas iscas competentes. Ali encontrei o António José, azafamado,à hora do almoço, a atender pedidos, com outros amigos. Elogiei-lhe o jeito para a coisa, mas acho que o talento dele para escrever supera o de servir à mesa!
A propósito de iscas,com os agradecimentos ao glória fácil, Albino Forjaz de Carvalho, em 1940, escrevia na "Volúpia (a nona arte: a gastronomia)", Editorial Notícias:
"Ia-se às iscas. Ah!, mas não se julgue que as iscas eram o que são hoje. Não. Perdeu-se a poesia das iscas. (...) O cozinheiro era sempre galego, conhecido em calão por frege-moscas, e o segredo da sua preparação culinária, quanto a nós, devia-se a dois factores especialmente: primeiro, à espessura quase inverosímil da isca. Espessura negativa, que exigia na sua confecção adestramento e faca; segundo, a que nunca se lavava a frigideira a não ser de anos em anos, quando os cozinheiros iam à terra, para deixar malparados os créditos do substituto.(...) Com banha de porco e baço raspado, as iscas saídas do alguidar onde estão de molho em vinagre, sal, pimenta, louro e alho, saltam na ponta do garfo e espalham-se na frigideira. O fígado penetra-se do gosto dos condimentos e abre num cheiro maravilhoso.(...)Com as iscas comia-se uma conserva que os galegos denominavam conserva à portuguesa, composta de tiras muito finas de cenoura e pimentos verdes, que era um verdadeiro achado a junção dos dois petiscos. Isso tudo se perdeu."

29/04/2005

NOITE COM A CIDADE NOS SENTIDOS

Numa pequena sala de Ponta Delgada, Aníbal Raposo cantou, naquele seu jeito tímido de quem está em paz com o mundo. Um destes dias, a cidade foi o pretexto das palavras e da música. A cidade dos que nela nasceram e dos que a adoptaram e agora lhe chamam sua. Verdadeiramente não escolhemos as nossas cidades: são elas que convocam os sentidos. "São as cidades que fazem os homens", escreveu Cabrera Infante. As cidades são as sereias urbanas dos novos tempos.Ficamos enfeitiçados, para além de qualquer explicação racional.
A pergunta do questionário de Proust - dentro de dias voltará a povoar as páginas dos jornais, magros de tanto Verão - "que cidade escolheria para viver?" é sempre embaraçosa e quase impossível de responder.Como escolher uma cidade? Movemo-nos pelos impulsos momentâneos: Nova Iorque, pela cidade em si. Atenas, pela memória da pedra. Lisboa, pela luz.
Ponta Delgada, na sua altivez de basalto é a minha cidade. A relação com a cidade nem sempre foi pacífica. Tal como uma relação de amor, precisou de tempo para atingir a sua maturidade.
Ponta Delgada começou por ser sinónimo de doença. As férias eram passadas no Pico ou no Continente, satisfazendo os dois lados da família.Só vinha a Ponta Delgada, de avião, por razões clínicas, em que a ida ao médico se impunha. Recordo um episódio na Clínica do Bom Jesus, em que o Dr. Furtado Lima me foi mostrar uma das salas com equipamento médico - talvez a radiografia - e me perguntou, com um natural orgulho, o que me parecia aquilo. Do fundo da memória, arranquei de imediato a comparação que me pareceu mais evidente: "Parece uma central eléctrica!", exclamei, cioso dos meus vastos conhecimentos.
O alojamento era ali na Rua Hintze Ribeiro, na Pensão Puga, já desaparecida. O dono, reverencialmente tratado por Sr. Horácio, era a abelha-mestra do estabelecimento.Desse tempo, sobrou a lembrança dumas fatias de pão que o Sr. Horácio, com método e preceito, cortava na hora do pequeno-almoço que, de tão finas, quase pareciam laminadas. Tantas vezes assisti ao ritual que passei a designar uma fatia de pão mais fina como uma "fatia à Horácio". Ainda hoje o faço, por vezes.
Depois, foi o tempo do "exílio" estudantil, para completar o 12º ano, feito de rituais de cantinas, de quartos arrendados, das lutas políticas na Associação de Estudantes do Liceu, das sessões duplas de cinema no Coliseu,das tertúlias de café e jornais na Tabacaria Açoriana - "o mais democrático parlamento do mundo" - dos tostões contados, dos almoços de Domingo em casa do Capitão Bettencourt, em que o Pico era uma referência constante.
Mais tarde, o regresso. Não exactamente "regresso", porque nunca daqui saí. Acho que já pertenço aqui. De algum modo, a cidade escolheu-me. Sem eu saber!
Não sei o que Margarida Dulmo Clark - a de Nemésio - pensaria da sua cidade. Fica o "Tema para Margarida" composto pelo Aníbal para a versão televisiva de "Mau tempo no Canal", um (pre)texto para falar da cidade. Fica bonita cidade!

TEMA PARA MARGARIDA
Ai quem me dera partir
Na canoa da esperança
E ir ancorar noutras praias
Noutros varadouros
Ai quem me dera voltar
A gozar dos tesouros
Da felicidade que eu tinha
Quando era criança


Ai quem me dera ser garça
E voar no canal
Só entre o Pico e o Faial
Me quedar dividida
Ai quem me dera mão firme
No leme da vida
Ai este amor que me mirra
Me mata e faz mal


Ai quem me dera de novo
As certezas e os medos
Ai quem me dera ter credos
E não ser indiferente
Ai o amor passa ao largo
Da vida da gente...
Ai já o tempo se escoa
Como areia entre os dedos...
Aníbal Raposo


AMOR E CROCODILOS

Diz um anúncio publicitário: "o amor é como um crocodilo a nadar num rio". Saberá o publicitário que os crocodilos não mordem debaixo de água?
Bom-dia!

26/04/2005

DEMOCRACIA E AUTONOMIA

Trinta e um anos depois do 25 de Abril, uma reflexão sobre a democracia e a liberdade que, nos Açores, têm a expressão de autonomia, no anjo mudo, aqui ao lado, como sempre.

O PODER DO KETCHUP

Vejo-os sem os poder ouvir. Num vulgar centro comercial, numa dessas zonas impessoais a que chamam pomposamente "praça da comida", estão os dois sentados frente-a-frente, a comer, com um olhar ausente, o hamburguer que publicidade incisiva nos compele a consumir. O rapaz e rapariga - um casal? - estão obviamente zangados um com o outro. Adivinho a intensidade das palavras pela rudeza dos gestos e pelos olhares que se desviam. Sobretudo, pelos olhos que fogem do contacto, refugiando-se nas pessoas ao lado, na cúpula do centro comercial e no interesse desmedido pelas batatas fritas. Há um gesto dela mais irado, a que ele responde de modo rápido. Ficam os dois silenciosos. Frente a frente, cada um inventa uma estratégia para resistir ao momento. De súbito, ele pega num pequeno pacote de ketchup (daqueles que acompanham as batatas fritas do fast-food) e começa a ler, longamente, as instruções no verso. O rapaz construiu, ali mesmo, uma intransponível barreira vermelha contra o insuportável silêncio num local público.

21/04/2005

O QUE PERGUNTA O PS?

A Assembleia da República aprovou a realização dum referendo à descriminalização do aborto, de acordo com uma proposta de Resolução do PS. A pergunta propõe a descriminalização do aborto realizado até às 10 semanas de gravidez: "Concorda que deixe de constituir crime o aborto realizado nas primeiras dez semanas de gravidez, com o consentimento da mulher, em estabelecimento legal de saúde?".
Porém, o projecto do PS que está na base da resolução aprovada, fala em 16 semanas. Tal facto levou a que 40 Deputados do PS apresentassem uma declaração de voto.
Em que é que ficamos? O que quer afinal o PS? Qual é a sua prioridade? O referendo à Constituição europeia ou o referendo ao aborto? Pelo andar da carruagem, o PS apenas quer fazer política.

20/04/2005

O AMIGO DE LISBOA OU DA INCONSTITUCIONALIDADE DA LIMITAÇÃO DOS MANDATOS DOS PRESIDENTES DOS GOVERNOS REGIONAIS

No anjo mudo, publico um texto, sobre as relações dos Açores com Lisboa, no qual assinalo que a proposta de Lei que o Governo de José Sócrates aprovou para a limitação dos mandatos políticos é inconstitucional na parte em que impõe um limite ao mandato dos Presidentes dos Governos Regionais, por violação do artigo 231º, nº 7 da Constituição.Sendo esta uma matéria compreendida no estatuto dos titulares dos órgãos regionais, é por essa via, objecto de reserva de inicitiva por parte das Assembleias Legislativas, em sede de Estatuto Político-Administrativo. Aqui ao lado, como sempre.

19/04/2005

TRADIÇÃO E CONTINUIDADE

A Igreja Católica tem, desde há poucos momentos, um novo pastor. Bento XVI representa a tradição e a continuidade. O Cardeal Joseph Ratzinger encarnará, talvez, um papado de transição, com um forte sinal de conservadorismo. Acho que a Igreja decidiu fazer um compasso de espera com a história. Oxalá me engane!

18/04/2005

O nome convoca o centenário e mítico hotel de Nova Iorque - Waldorf Astoria - na Park Avenue, bem no coração da cidade que não dorme, local de eleição para princípes - da realeza ou mais das mais plebeias profissões. Porém, o post é sobre o bem mais modesto Astoria de Coimbra, a espreitar o Mondego.
Os acasos levaram-me, após 20 anos, a este hotel. Ao entrarmos no Astoria, sentimos que o tempo parou: a porta com gradeamento de ferro, os veludos pesados, a acusarem a marca sofrida do tempo, a recepção em exercício de resistência à modernização, as velhas fotografias nas paredes, dum tempo que não volta, o elevador que nos faz hesitar por um imperceptível segundo, ao transpormos as suas pesadas portas de ferro forjado.
Num local de passagem como é, por definição, um hotel, sentimos que no Astoria o tempo teima em não passar. O conforto do mundo fica lá fora, num quarteirão que não resistiu à mudança: uma loja da Zara, uma agência bancária...
A suspensão do tempo lá dentro: a sala de estar com pequenas secretárias de leitura, com separadores de vidro fosco fez-me lembrar da biblioteca do Clube Asas do Atlântico (em Santa Maria) da minha infância, na qual havia umas iguazinhas (a memória é traiçoeira, mas juro que eram iguais, iguais) e para a qual me escapulia vezes sem conta.
A memória do (des)encontro aqui fica!

15/04/2005

AS TAXAS, A SATA E A DISPLICÊNCIA DOS GOVERNANTES

O Secretário Regional da Economia afirmou ontem, perante a Comissão de Economia - na qual prestou esclarecimentos a requerimento do PSD - que as taxas que todos pagamos pela emissão de bilhetes na SATA AIR AÇORES e na SATA INTERNACIONAL (se ainda não repararam, prestem atenção da próxima vez que viajarem)são uma forma de compensar a transportadora área regional do acréscimo de custos decorrente do aumento do preço de petróleo.
Lembro, por exemplo, que a taxa de emissão dum bilhete para Lisboa é de ? 16 (cerca de 8%) do custo da viagem!
Uma taxa é, por definição, a contraprestação pecuniária por um serviço prestado. Se assim é, não pode ser confundiada com o preço que pagámos por um serviço de transporte aéreo que o passageiro contrata, quando adquire o seu bilhete (título de transporte).
Sendo conceitos distintos, distinto também é o seu tratamento contabilístico.
A SATA - com a autorização da tutela (pelos vistos) - aumentou encapotadamente o preço das passagens aéreas, por meio dum subterfúgio de duvidosa legalidade.O que pensará a Comissão Europeia deste aasunto, já que as condições de transporte aéreo (entre as quais se encontra o preço das viagens) obedecem às regras do concusro público aberto para o efeito?

O PERFIL E O RESTO

A notícia é do Diário Insular e é, no mínimo, surpreendente. Aqui fica, sem comentários:


Um anúncio de emprego para empregado de mesa/assistente de bar no Top of the Rock Club (Clube de Oficiais Americanos) na Base das Lajes está a gerar polémica entre os funcionários do destacamento norte-americano. Em causa estão alguns dos requisitos necessários para ocupar as sete vagas abertas.O anúncio refere que "não é necessária qualquer experiência anterior ou formação", salientando, contudo, que "o candidato deve estar apto a seguir simples instruções orais ou a preparar notas de pedidos".Mas vai mais longe e exige mesmo que o candidato seja "fisicamente capaz de levantar-se, parar, baixar-se e andar por longos períodos de tempo". O empregado de mesa/assistente de bar deve também ?ser capaz de levantar e carregar frequentemente objectos com mais de cinco quilos". Outro dos requisitos do mesmo anúncio são "ter a idade mínima exigida para servir bebidas alcoólicas (18 anos)" e "estar apto a completar com sucesso o curso Food Handlers Training". Para ocupar o lugar, o candidato deve ainda "estar apto a comunicar com os clientes e possuir empatia nas relações com o público".DI tentou, sem sucesso, obter a opinião da Inspecção Regional do Trabalho e da direcção regional do Emprego, Juventude e Formação Profissional, assim como dos comandos Português e Americano sobre esta matéria.

13/04/2005

O VELUDO DO TEMPO

Depois do congresso social democrata, uma reflexão sobre o momento actual do PSD e sobre a natureza dos congressos partidários, aqui ao lado, como sempre no anjo mudo.

06/04/2005

BOM HUMOR PARLAMENTAR (II)

Mais um conjunto de frases, observações ou apartes regimentais do debate das últimas horas.

"Isto não é desagregação orçamental. É desorientação" - Um Deputado da oposição

"O PS tem muito tempo, mas não tem nada para dizer" - Um Deputado da oposição


"Também nas cortes havia um personagem que fazia o papel que o Senhor Deputado acabou de fazer agora" - Um Deputado da oposição dirigindo-se a um Deputado da maioria

"O ócio é mãe de todas as literaturas e de toda a magia" - Um Deputado da maioria

"O José Manuel que amava Clélio
que amava Pedro
que amava Victor
que amava Berta
que não amava ninguém"

Um Deputado da maioria, que assumiu a inspiração de Carlos Drummond de Andrade
"O senhor Deputado tem jeito para letras de fados vadios" - Um Deputado da oposição, em aparte após o poema

A GIOCONDA, DE NOVO

A Gioconda volta a sorrir para todos. A mulher do florentino Francesco del Giocondo, donatária do sorriso mais célebre do mundo, renasce para os olhares curisosos, depois de quatro longos anos de ausência.

BOM HUMOR PARLAMENTAR

Frases ouvidas durante o debate do plano e orçamento para 2005 e orientações para 2005-2008, na Assembleia Legislativa dos Açores:
"Vamos ter tempo para esgatanhar o orçamento" - Um Deputado da oposição
"Sr. Presidente: agradecia que acalmasse o Sr. Vice-Presidente" - Um Deputado da oposição
"As receitas do orçamento contam com o ovo numa certa parte do corpo da galinha" - Um Deputado da oposição
"Orgulhamo-nos de pintar edifícios públicos" - Um Deputado da maioria
"Secretário Regional diz; Deputado da maioria lê o mesmo papel" - Um Deputado da oposição
"As receitas são modestas... e não digo isto por existir um Governo em Lisboa e ter medo de o espremer" - Um Deputado da oposição

05/04/2005

CHUVA NO CORPO

Chove. Voltou aquele cheiro familiar a terra molhada.Estou aqui,apenas a ver chover! Acho que o relógio anda mais devagar, mas não tenho a certeza.

O PROJECTO DE LEI ELEITORAL

O projecto de lei eleitoral da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores foi hoje aprovado com os votos do PS e do CDS/PP e pode ser visto, bem como o relatório final da Comissão para a revisão do sistema eleitoral, no site da ALRA.
O PS e o CDS/PP aprovaram uma revisão modesta nos objectivos, pouco ambiciosa nos propósitos e pouco reivindicativa em matéria de Direito eleitoral, no que respeita aos Açores. Não me revejo nesta solução.
Contas feitas ao processo, o PS impôs - no sentido literal da expressão - a sua vontade neste domínio, tendo ganho a boleia política dos pequenos partidos que olham para a solução encontrada como os náufragos costumam olhar para as tábuas de salvação.
Nos próximos dias, com mais tempo, colocarei um post mais desenvolvido sobre o assunto.

VERDADE E MENTIRA NO ORÇAMENTO

A Assembleia Legislativa começou hoje a discutir o plano e o orçamento para 2005 e as orientação de médio prazo para 2005-2008. Aqui ao lado, lanço um olhar crítico sobre estes documentos, quando o Governo finge ter um plano e orçamento que, verdadeiramente, não tem. Como sempre, para ler no anjo mudo.

ESPERANÇA E RESPEITO

De João Paulo II recordo a frase que proferiu na sua primeira visita à Argentina: " I hope against all hope". A força e a determinação da esperança marcaram o seu pontificado. Nada ficou igual na Igreja, com este Papa. Nada ficará igual depois deste Papa.
"Comovidos a oeste", recordamos um Papa que marcou o seu pontificado pela brutal - por vezes chocante - humanidade no desempenho de pastor de milhões de católicos, à roda do mundo. Convivemos com a sua energia, a sua determinação, a sua vontade de mostrar uma Igreja de rosto humano e sentido divino. Mergulhámos na sua dor pessoal, na inexorável decadência física, que foi um sinal - que acredito que João Paulo II quis transmitir aos homens - de que o sofrimento tem um sentido redentor, fazendo parte da nossa condição humana. Num tempo de facilidades vários, de hedonismos dispersos, convertidos num quase-credo da vida moderna, convivemos mal com o sofrimento, com a decadência da parte mortal de nós - o corpo. O exemplo de João Paulo II, é, ao mesmo tempo, redentor e um uma advertência para todos aqueles que deixam de acreditar na santidade da vida. Pelos media, hora a hora, minuto a minuto vimos - vivemos, mesmo - a dor, o sofrimento dum Papa que se tornou familiar para nós. E isto dá que pensar!
Comovido, inclino respeitosamente a cabeça por um homem bom.
Acredito que os Cardeais da Igreja saibam encontrar um sucessor à altura dos novos desafios dum mundo em mudança. Acredito que a eleição dum novo Papa não é apenas um simples acto eleitoral, no sentido convencional do conceito. Acredito que o Espiríto Santo inspirará os Cardeais eleitores.

01/04/2005

AS TIME GOES BY

Na madruga em que as notícias sobre a saúde de João Paulo II são contraditórias e os sentidos estão suspensos do éter, recupero um post de Outubro de 2003:

As últimas aparições públicas de João Paulo II revelam um homem de corpo alquebrado e um rosto, quase sempre, atormentado por um "rictus" de dor. O Papa é a marca do sofrimento físico e ao mesmo da anulação desse sofrimento, entendido apenas como mais um sinal de provação do corpo. Este Papa peregrino já está para lá das limitações do que é apenas "corpore". A sua força interior, a sua determinação, ultrapassam as contingências que a idade não perdoa. Talvez por isso, seja tão amado pelos mais jovens. Carismático, afirmativo, combativo, de uma lucidez política impressionante, renovador e conservador, popular e introspectivo, contraditório quantas vezes, abriu a Igreja Católica ao mundo. Sem ter convocado um Concílio, como o Papa João, provocou um novo "aggiornamento" na Igreja do século XX. Muitas das consequências desta mudança apenas serão perceptíveis ao longo deste novo século que está a começar. O seu longo papado foi exercido sob o signo duma Igreja no meio dos homens. O exemplo pessoal de coragem e de sacrifício do Papa fazem mais pela Igreja e pela fé no homem em comunhão com Deus do que uma nova encíclica - perdoe-se-me a quase heresia. Olho para a foto que o
DN publica e fico impressionado. Penso que ninguém fica indiferente!

31/03/2005

AS PROPOSTAS DE REVISÃO DA LEI ELEITORAL QUE A MAIORIA SOCIALISTA NÃO QUIS DISCUTIR

No anjo mudo, como sempre, aqui ao lado, coloquei as propostas que apresentei na reunião de 11 de Março da Comissão Eventual para a Revisão da Lei Eleitoral (CERLE), destinadas a ampliar a revisão da lei eleitoral, para além das constantes dos ante-projectos apresentados pelos partidos políticos e da revisão minimalista que a maioria do PS impôs.
Das propostas por mim apresentadas, destaco três:
a) A criação dum círculo eleitoral que designei por "fora dos Açores", destinado àqueles que têm dupla residência - nos Açores e fora dos Açores - permitindo assim ultrapassar a limitação constitucional do velho círculo dos emigrantes.
b) A possibilidade de grupos de cidadãos apresentarem candidaturas à Assembleia Legislativa, acabando com o monopólio partidário nesta matéria;
c) A atribuição de competências à Região em matéria de consolidação técnica dos cadernos eleitorais, conhecida que é a sua manifesta desactualização.
As propostas que apresentei não "passaram do papel", por falta de vontade política do PS.
A revisão da lei eleitoral é muito pouco ambiciosa e restrinige-se, no essencial, ao mecanismo de criação dum décimo círculo regional de compensação, proposto pelo PS e pelo PP.
Os Açores perderam uma boa oportunidade de alterar - com profundo sentido político - a lei eleitoral, assumindo um conjunto de opções no domínio do direito eleitoral claramente ambiciosas.
Nem sempre as maiorias decidem bem!

A TRISTEZA DAS ÁGUAS

Dificilmente me lembro de coisa tão triste, como um barco a morrer. Humanizamos os barcos com nome de gente. Invocamos lugares, santos de especial devoção. Bazptizamos os barcos com emoção e ditreito a madrinha. Fazemos dos barcos extensões de nós, na vontade de enganar o mar. Umas vezes humildes, os barcos são apenas pobres embarcações quase de brindeira (como se fosse possível brincar com o mar). Outras vezes altaneiros, não resistimos à titaniquização.
Os barcos morrem sempre da mesma maneira: sozinhos! Resta apenas a fé: confundida com desejo, olhamos para um barco moribundo e pensamos que ainda é possível pô-lo a navegar.


A Mariana ardemar escreveu, a 19 de Março ( no dia do Pai), que os "barcos morrem enxutos", assinando uma fotografia de barco chamado "Felicidade dos Anjos". Assim, num texto sentido:

Os barcos jazem postos nos portos, varados, arrumados
de passado a tiracolo,trespassados por cinco balas de terra junto ao colo:
os barcos morrem enxutos.

ANDANDO POR AÍ...

Um velho poema de 1969 de Vitorino Nemésio. Enquanto escrevo, ouço o Requiem, de Mozart, pela Orquestra Filarmónica de Viena, dirigida por Von Karajan. A soprano é Anna Tomowa-Sintow. Velhos pecados de viajeiro!
A CAMINHO DO CORVO
A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede de verdade,
A moça que o Canal trocou nos seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe,
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada
Contra a vida esmagada
Abençoemso o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.

23/03/2005

O REFERENDO AO ABORTO

O PS entregou já na Assembleia da República um projecto de resolução para a realização dum referendo sobre a despenalização do aborto.
A pergunta é a mesma de 1998: "Concorda com a despenalização da IVG até às 10 semanas, realizada em estabelecimento legal de saúde?"
Pressionado pela tenaz política do PCP e do BE, à sua esquerda, que pretendem a alteração do Código Penal sem realização do referendo, o PS avança para o referendo sobre o aborto, quando a prioridade política deveria ser o referendo sobre a "Constituição Europeia".
De modo apressado, o PS abraça o voluntarismo mediático, na esperança de agradar ao eleitorado mais à esquerda. Para um partido de poder e no poder, o PS, aparentemente, tem as prioridades invertidas.
Não se pense que não concordo com a realização dum novo referendo sobre esta matéria. Concordo,porque entendo que, passados seis anos, é tempo de consultar de novo os portugueses sobre uma matéria de consciência. Tal como fiz em 1998, farei campanha contra a despenalização.

O AINDA LÍDER DO PSD

Santana Lopes participou já numa cerimónia pública na qualidade de recém-regressado ao cargo de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Muito embora esteja no seu direito legal de reocupar aquele cargo, uma leitura atenta dos resultados eleitorais e das circunstâncias pessoais e políticas do desempenho do cargo de Primeiro-Ministro recomendavam contenção e abstenção. Valerá a pena lembrar Heraclito, segundo o qual não podemso tomar banho duas vezes na água do mesmo rio?

O NOVO GOVERNO

Formalmente investido, após a apreciação do programa na Assembleia da República, o novo Governo pode começar a Governo. Já temos Governo; é tempo de Portugal começar a ter oposição de alternativa política.

17/03/2005

NOTÍCIA DO CANAL AUSENTE


Não vejo o canal de Nemésio, de Genuíno Madruga, das lanchas que desafiam a insularidade. Adivinho a montanha do Pico abraçada ao nevoeiro, lá em baixo, muito longe. Sinto o mar ao pé de mim. Apenas.

PASSA A BOLA, SÉRGIO!

Final da tarde, ontem, na Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores. O hemiciclo esvazia-se lentamente, depois dum acalorado debate sobre política de saúde provocado pelo PSD. Fico para trás, a conversar com um membro da mesa. A conversa decorre com a calma e a tranquilidade dum plenário sem Deputados. De súbito, ouve-se um sonoro "apanha Osório". Olho e vejo o Vice-Presidente do Governo Regional, Sérgio Ávila, a pontapear - com um olhar travesso e divertido - uma bola, não de trapos, mas de papel, em direcção a Osório Silva que acabava de entrar na sala do plenário.
A indiscrição futebolísitica do Dr. Ávila será um dos traços da sua personalidade ou o efeito secundário do tão propalado "superavit"?
Em todo o caso, o plenário do parlamento não é o melhor lugar para demonstar habilidades futebolísticas!

16/03/2005

AS PATOLOGIAS DO SERVIÇO REGIONAL DE SAÚDE

As patologias do Serviço Regional de Saúde: o insucesso da governação socialista dos Açores numa área fundamental para a vida de todos nós, aqui ao lado, como sempre, no anjo mudo.

NOTÍCIAS NÃO JORNALÍSTICAS DO PARLAMENTO

De novo na Horta, na Assembleia Legislativa. O PS impõe o argumento da força dos seus 31 Deputados. Agora foi a propósito duma proposta de resolução do PSD que propunha que o parlamento acompanhasse o processo de alteração ao POSEIMA (matéria fundamentral para a Região).A intervenção do parlamento regional morre na praia, por força dos votos da maioria. A maioria é nova - diz o PS - mas os tiques são antigos.
Temo que esta postura não pressagie nada de bom para a reforma do sistema eleitoral ou para a revisão do Estatuto.
O PS anuncia o diálogo, mas à sua maneira: o diálogo é feito com base na adesão às propostas socialistas.

CHAMPANHE, NOVO GOVERNO E O RESTO

A tomada de posse do governo de José Sócrates, o referendo, os medicamentos de venda de livre - a mistura de momento na política portuguesa, como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.

10/03/2005

UM PIJAMA PARA ...LER

Ela ofereceu-lhe um pijama, com uma frase nas costas, escrita na língua do amor. Ele veste o pijama. Então, ela replica: Agora, vou ler-te!
Bom-dia!

08/03/2005

OS FANTASMAS DA MAIORIA

O novo Governo, os seus ministros e as suas declarações públicas. O valor da confiança em política. Aqui ao lado, como sempre, no anjo mudo.

A CRATERA DE MIMAS


Mimas é uma das luas mais pequenas de Saturno. A foto é da Cassini que, por cima de nós, nos mostra o que está para além do olhar.

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(Créditos fotográficos da NASA)

Há sempre um lado da luz e outro da escuridão. A nossa posição em relação a eles pode variar. Porém, eles permanecem.

07/03/2005

OS IDOS DE MARÇO

1. A declaração de Freitas do Amaral ao Expresso, de acordo com a qual apenas aceitou ir para o Governo depois de conhecer a sua composição, é um dos primeiros sinais equívocos do novo Governo socialista. A contribuição de alguns de que fala o novo Ministro dos Negócios Estrangeiros é interpretada na primeira pessoa. Não sei o que pensará o Engº Sócarates da divulgação pública de que o seu Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros apenas aceitou integrar o Governo depois de fazer uma avaliação de todo o elenco. Quantas estrelas vão brilhar no firmamento cor-de-rosa?
2. O nóvel Ministro das Finanças admitiu um aumento de imposto a médio prazo. Para primeira declaração pública, ainda antes de ser empossado, é, no mínimo descuidada. Será este o novo estilo dos independentes no Governo?
3. O episódio da fotografia do fundador do CDS/PP é ridículo. Se o ridículo matasse, o Secretário-Geral do CDS/PP teria morrido em directo nos telejornais. A história, como sabemos - talvez o PP tenha optado por ignorá-lo - não se reescreve.
4. Dos confins de Luanda, Cavaco Silva deixou adivinhar a sua candidatura presidencial. As sondagens abrem-lhe uma avenida eleitoral. A teoria dos ovos e dos cestos terá geometria variável?

O NOVO GOVERNO

Um post pensado no dia do anúncio da composição do Governo e apenas publicado hoje.
A constituição do Governo merece uma observação prévia: José Sócrates fez aquilo que deveria ser a norma: a composição do Governo apenas foi conhecida quando foi oficialmente divulgada, sem que o habitual "diz-que-diz" alimentasse as páginas dos jornais. O facto tornou-se ainda mais evidente, quando as últimas alterações do Governo ainda em funções foram feitas nos jornais...
O novo Governo não surpreende nem emociona. A surpresa vem mais dos que ficam de fora, dos que agora sobem a ministros, se bem que a ida de Freitas do Amaral para Ministro dos Negócios Estrangeiros (depois das radicais posições públicas quanto às relações com os EUA) se arrisque a destoar no capítulo que tem sido uma constante política em Portugal, entre os dois partidos de alternância: a política externa.
Teremos de esperar pelo programa do Governo para perceber que tipo de opções e de políticas vai este Governo executar.
Com o tipo de Governo que escolheu formar, o Engº Sócrates também vai ter de provar a sua própria autoridade como Primeiro-Ministro. A escolha de independentes ( dos que apenas não são filiados aos aoutros) não é garantia de coisa nenhuma.
Os governos são como os melões: só sabemos como são depois de os abrirmos. Esperemos, então!

AVIÕES E BLOGUES

As viagens apenas ligam bem com a blogosfera quando os deuses da informática ajudam. Em trânsito pelos Açores, cheguei a suspeitar que o blogue se tinha ..."apagado", tal a sua inacessibilidade. Já vi que não. Pois então, volto já!

01/03/2005

A ARTE DO POSSÍVEL

A arte do possível no anjo mudo, como sempre aqui ao lado.

OS CENTROS E AS PERIFERIAS

Iniciei o dia com uma palestra a uma centena de alunos da Escola Secundária da Lagoa, sobre a "Constituição e os Cidadãos", no âmbito duma louvável iniciativa inscrita nos projectos associados ao Congresso da Cidadania.
Audiência atenta e um tema sugestivo, a propósito do qual reflectimos sobre a generalizada falta de consciência de cidadania e a, também generalizada, abstenção de exercício de direitos por parte dos cidadãos.
A propósito do tema, não deixei de falar da experiência autonómica pós-25 de Abril, do aprofundamemento das autonomias que as sucessivas revisões constitucionais foram selando e da natureza dialéctica do processo autonómico, lembrando o simbolismo da data, que o Carlos Riley assinala aqui.
Para os mais interessados, recomendo a leitura d' "Das luzes pombalinas às encruzilhadas liberais nos Açores: o caminho de São Miguel", do mesmo Carlos Riley, in Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004.

28/02/2005

HOW TO DISMANTLE...

How to dismantle a line? O concerto dos U2 provocou um clima de histeria entre os fãs do grupo, em especial entre os mais jovens. A iconografia do dia faz-se de longas filas de jovens embrulhados em mantas, abafados em cartões, plásticos e tudo o mais que houver à mão e que sirva para uma boa defesa contra o frio, à porta de bombas de gasolina na esperança de que a longa espera se converta num almejado bilhete para o concerto de Bono Vox.
O país de Bono está longe das crises do PSD e dos silêncios profundos e comedidos do Largo do Rato. "Epur si muove" ("e no entanto, ela move-se")!

CAFÉ DA MANHÃ

Apressadamente ao balcão, ela pede um descafeínado com adoçante. É o desconsolo absoluto!
Bom-dia!

25/02/2005

MARMELADA E OUTRAS TENTAÇÕES...

O comentário do Carlos Riley a propósito dum chá com torradas, remete-nos para o domínio do prazer gastronómico. Íntimo, indivisível (embora partilhável), que perdura nas mais recônditas memórias. Quantas vezes esquecemos um lugar, uma cara, um nome, mas lembramos aquele sabor, a que as partidas da memória conferem um dimensão inigualável. Reconhecemos lugares, gentes, circuntâncias através da memória gustativa...traiçoeira, como só a memória pode ser.
Vamos, então, à receita da marmelada!
Ingredientes - Marmelos e açúcar
Preparação - Escolhem-se os marmelos, com o cuidado de apenas as peças sem "toques". Devem utilizar-se alguns marmelos não totalmente maduros. Descasque os marmelos, corte-os em quartos e coza-os em água. Depois de cozidos reduza-os a puré.Se preferir a marmelada mais clara, deve passar os marmelos por uma peneira de crina; se, por outro lado, preferir a marmelada mais vermelha utilize um passador de metal. Pese o puré obtido e tome o mesmo peso de açúcar mais um quarto, isto é: para 1 Kg de puré de marmelos precisa de 1,250 Kg de açúcar. Leve ao lume e deixe cozer mais 5 minutos mexendo sempre, até obter consistência. Depois, é só colocar em tigelas e deixar secar.
Para guardar a marmelada, continuo a preferir tapá-la com um simples papel vegetal - já agora, recortado na forma da tigela.

A CRISE NO PDA - A DÚVIDA EXISTENCIAL NO ILHAS

A propósito do post do António José aqui sobre a "performance" eleitoral do PDA - o seu partido do coração? - deixo um excerto dum texto publicado em 2001 sobre a PDA, no fim-de-semana em que, entre outras originalidades, realizou um congresso na ausência de Joaquim Cabral, então líder regional.
"Com uma expressão eleitoral reduzida a escassas centenas de votos, com um punhado de militantes, sem quadros, sem capacidade de sedução do eleitorado mais jovem e sem meios económicos, o PDA é, hoje, mais um clube ou uma associação cívica do que um partido. Aliás, as erráticas lideranças do PDA nos últimos anos, têm acentuado um fosso cada vez mais profundo entre as ambições do partido e os desejos do eleitorado, conduzindo-o a votações eleitorais cada vez menores e a um discurso, não raras vezes, quase boçal, sustentado numa actuação algo "folclórica", bastando invocar a audiência pedida ao Presidente da República, para discutir o problema ... do queijo.

Tendo oportunidade de ser um partido de elites e com representação parlamentar, o PDA limita-se a ser um partido auto-marginalizado, de gente conformada, sem chama nem ambição. A quase-morte do PDA empobrece a democracia dos Açores.

A propósito, relembre-se o impedimento constitucional à constituição de partidos de âmbito ou índole regional resultante do artigo 51º, nº 4 da Constituição. Esta restrição constitucional não faz qualquer sentido num Estado unitário regional como o nosso - isto é, com duas regiões autónomas - e que assume o princípio da descentralização democrática da administração pública como traço genético da matriz estadual."

MARQUES MENDES NA RTP

A entrevista de Marques Mendes à RTP demonstrou as suas inegáveis qualidades políticas. Foi duma transparência cristalina na avaliação do passado recente do PSD, com a autoridade de quem - no congresso de Barcelos - fez um discurso já de alternativa. Demonstrou serenidade na avaliação dos sentimentos dominantes nas bases sociais-democratas. Não foi equívoco em relação às eleições autárquicas e presidenciais. Exibiu um pensamento consolidado sobre o papel que cabe a um partido de oposição. Foi menos assertivo quanto à revisão do programa do PSD.
Não sei o que vai acontecer no próximo congresso do PSD. Porém, a entrevista de Marques Mendes anuncia uma atitude diferente, essencial para construir uma alternativa política de quatro anos, com serenidade e bom-senso.

24/02/2005

OS DIAS NA HORTA

Tomo chá com um amigo, num dos mais emblemáticos cafés dos Açores: o Internacional, na Horta, ali mesmo, debruçado sobre o canal.
Trocamos lembranças gastronómicas de infância. Falamos dos Açores no mundo, sem conversarmos sobre os resultados eleitorais. À beira do Atlântico, partilhamos a ideia de que falta ousadia à sociedade açoriana.

22/02/2005

AS ELEIÇÕES E O DIA SEGUINTE

O tempo mudou, tal como as marés e os ventos! O dia seguinte não pode ser igual ao tempo que já passou.
A minha leitura dos resultados eleitorais, como sempre, aqui ao lado no anjo mudo.

20/02/2005

O DIA PARA ESCOLHER...

Em todos os processos de decisão é sempre assim: podemos pensar, analisar, sopesar os argumentos, explorar as contradições, alimentar ou eliminar as dúvidas, fazer apreciações comparativas, ficar perplexos com as conclusões ou mais tranquilos com as intuições, mas chega o momento em que é preciso decidir.
Sem mais rodeios ou floreados retóricos, o dever de cidadania convoca-nos para junto duma urna de voto...
Hoje está um dia bonito para votar!

18/02/2005

ÚLTIMO DIA, ANTES DO RESTO


Uma velha canção de Frank Sinatra.

FOOLS RUSH IN

Fools rush in
Where angels fear to tread
And so I come to you my love
My heart above my head

Though I see
The danger there
If there's a chance for me
Then I don't care

Fools rush in
Where wise men never go
But wise men never fall in love
So how are they to know

When we met
I felt my life begin
So open up your heart and let
This fool rush in

17/02/2005

ESPERANÇA VESTIDA DE VERMELHO

Hoje a esperança veste de vermelho e tem nome de equipa de futebol. A distância não apaga a expectativa, nem atemoriza a esperança que, sabemo-lo do berço, é sempre a última coisa a morrer. Mesmo que seja já uma esperança desesperada.
A propósito do futebol do calcio e do estilo de jogo de Trapattoni, fica a citação:
"Majestade, acabei de chegar de Itália, e descobri ali um jogo extraordinário a que chamam calcio. É praticado com os pés e com as mãos, mas não tem nada a ver com o futebol que um édito real de 1349 considerou desonroso. E os homens que o praticam estão longe de serem o desprezível jogador de futebol que William Shakespeare fala no seu Rei Lear. O calcio tem regras muito estritas que lhe dão força e o tornam popular"
Conde de Albemarle ao Rei Carlos II de Inglaterra, em Le football, de Jean-Philippe Rethacker

OS CARTAZES, A VERGONHA E O RESTO

Ontem, os telejornais passaram o "sound-byte" do Presidente do PS/Açores, em campanha na Horta, no qual ele afirmava que o PSD tinha vergonha do seu candidato a Primeiro-Ministro e por isso não o trazia aos Açores.
A declaração merece três observações.
Primeira - Para um partido tão seguro das qualidades do seu próprio candidato a Primeiro-Ministro, que até gostará de o mostrar - argumento "a contrario", como os juristas gostam de dizer - então como se explica que a sua passagem pelos Açores se tenha ficado por um discreto jantar no Royal Garden, em Ponta Delgada, numa sala que, com vontade levará umas duzentas e cincquenta pessoas?
Segunda - Nã há razões para ter vergonha do candidato do PSD, cujo governo, conjuntamente com o governo de Durão Barroso, resolveu um conjunto assinalável de questões em contencioso com a República.
Terceira - Finalmente quanto a quem está envergonhado: o PSD colocou na rua cartazes com a cara do seu cabeça-de-lista, uma carta do Dr. Mota Amaral dirigida ao eleitorado. Do lado do PS, apenas recebemos em casa um folheto com Carlos César e José Sócrates em grande destaque, com o Dr. Ricardo Rodrigues remetido para uma mais do que discreta fotografia igual à dos outros candidatos, no interior do "infomail". Na rua, apenas cartazes de José Sócrates. Afinal, quem esconde o quê? Apesar de tudo, continuamos a escolher candidatos a Deputados. Ou não será assim?

14/02/2005

LÚCIA

A Fé é acreditar sem ver. A Irmã Lúcia teve um privilégio raro: viu. A sua morte encerra um capítulo da nossa história e da nossa identidade, mesmo para aqueles que não são crentes. Fátima não é um dogma de Fé. Acreditam apenas os que querem acreditar, sem que isso possa beliscar ou incomodar a sua Fé (direi, Fé particular). Fiquei comovido com a morte da Irmã Lúcia, sem que isso me impeça de cumprir as minhas obrigações. Sou daqueles que acreditam que, em Fátima, três crianças foram tocadas por um sinal de Deus. Sem mais!

REDUZIR O NÚMERO DE DEPUTADOS NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

No anjo mudo, coloco o texto da minha comunicação na conferência organizada pelo Açoriano Oriental e pela Universidade dos Açores, sobre a revisão do sistema eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.
Defendo a redução de nove Deputados na ALRA (retirando um por ilha/círculo eleitoral do contingente territorial).
Para uma rápida compreensão, recordo que o actual sistema eleitoral nos Açores está assim construído: atribuem-se dois Deputados por cada círculo eleitoral e mais um por cada 6.000 eleitores ou fracção superior a 1.000, em cada círculo eleitoral.
A sustentação política e jurídica da opção fica no anjo mudo, para os mais interessados neste debate. Apesar de ser um texto longo, a sua colocação no blogue justifica-se como mais um contributo para o debate público sobre a revisão do sistema eleitoral.

12/02/2005

CONFERÊNCIA SOBRE A REVISÃO DO SISTEMA ELEITORAL

O Açoriano Oriental promove hoje, dia 12, pelas 15.00 horas, no anfiteatro C da Universidade dos Açores (Ponta Delgada) uma conferência sobre a revisão do sistema eleitoral dos Açores, que tem como oradores os Professores Jorge Miranda e Carlos Amaral, para além deste anjo (passe a publicidade).

À NOITE

Apenas pressinto o mar lá em baixo. A janela aberta para a noite. Um cão ladra, de vez em quando, na vizinhança. O silêncio é dono da casa. Na minha secretária, ao lado do portátil, uma Constituição, o Estatuto, mapas com resultados eleitorais, jurisprudência constitucional portuguesa e espanhola, leis eleitorais de outras regiões, um montão de documentos vários sobre a revisão do sistema eleitoral. Olho para a poesia do Al Berto mesmo ali ao lado, tentadora. Fica para depois. Paciência!

10/02/2005

AS SONDAGENS NAS BOCAS DO MUNDO

Para uma compreensão crítica das sondagens que agitam a campanha eleitoral ver o margens de erro, de Pedro Magalhães.

O HERDEIRO DE GUTERRES

Entrevistado pela TSF, José Sócrates não foi capaz de dar um resposta clara, quando perguntado se era um "herdeiro do guterrismo".
Refugiando-se nos lugares-comuns habituais, o mais que José Sócrates disse foi o óbvio: que ele e Guterres não eram a mesma pessoa e que cada um tinha o seu estilo. Assumiu como qualquer líder faz - o património global das lideranças anteriores (de Soares a Ferro Rodrigues). Porém, aquele que se auto-designou como um "animal feroz" não soube o que responder. Há perguntas fatais e respostas comprometedoras!

A CAMPANHA E O RESTO

Em jeito de balanço de campanha eleitoral, a 10 dias das eleições. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.

09/02/2005

A LARANJA COMO METÁFORA

O PSD e a política do retrovisor do PS no plano regional. Uma reflexão sobre a estratégia do PSD, enquanto maior partido da oposição nos Açores. Texto publicado na edição de Fevereiro da revista SABER-AÇORES, aqui ao lado, no anjo mudo.

08/02/2005

DEPOIS DO BAILE

Madrugada fria, quase desconfortável, depois duma noite de baile, em época de Carnaval (no Coliseu, pois claro!). Seis e pouco, sem que a alba enconjurasse a noite. Um jovem casal - ele de smoking e ela de vestido de noite, ambos elegantes, cumprindo a tradição no rigor da vestimenta, muito embora as pérolas dela pudessem muito bem ser falsas, o que nem sequer é relevante, pois àquela hora, todos os colares são verdadeiros, tal como todos os gatos são pardos - de pé, junto da bagageira aberta dum pequeno automóvel utilitário, ceava, retirando das profundezas do veículo as vitualhas apaziguadoras de tão matinal fome. Indiferentes aos transeuntes, sob o olhar plácido de Hintze Ribeiro, os jovens transformaram - por um breve instante - a avenida no mais tranquilo parque para um piquenique urbano.
É carnaval e ninguém leva a mal!

06/02/2005

NO INÍCIO DA CAMPANHA...

"Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais - os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País.
Mas, coisa notável! - os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se , conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem - os verdadeiros liberais, e os interesses do País!"
Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (Este excerto é de uma das "Farpas" e escrito em Junho de 1871)

01/02/2005

REFORMAR O SISTEMA ELEITORAL

Uma primeira abordagem à reforma do sistema eleitoral nos Açores, aqui ao lado, como sempre no anjo mudo.

URGÊNCIA...

A urgência dum hospital é um dos lugares mais tristes do mundo. As longas esperas fazem-se de dor, de confidências de dores alheias, das breves angústias, dos sobressaltos que enganam a demora.
O ritual branco e azul das urgência é monótono. Chega a ser entediante.
Ontem à noite, uns luminosos ténis cor-de-laranja nos pés duma médica fizeram-me sorrir.

31/01/2005

O COLISEU DO POVO

O Coliseu Micaelense voltou a pertencer ao povo.
Ontem, a reabertura do Coliseu Micaelense, restaurado na sua dignidade de maior casa de espectáculos dos Açores, ficou marcada pela simplicidade dos momentos que nos comovem e nos enchem de orgulho enquanto Açorianos.
O Coliseu é o símbolo da determinação de Açorianos que, há quase cem anos, quiseram contruir um sonho em São Miguel.
A nova vida do Coliseu é uma homenagem a esse espírito que nos identifica e singulariza enquanto povo.
A Câmara de Ponta Delgada está de parabéns! Os Açorianos estão de parabéns!

28/01/2005

BÉSAME MUCHO

A morte de Consuelo Velasquez, compositora mexicana e autora do bolero "Bésame Mucho" convoca a memória da música, da intimidade da dança, da sensualidade dos gestos...
"Como se fuera esta noche la ultima vez"... o verso dolente a antecipar o desejo que permanece...
A música também dança dentro de nós. Sacudimos a poeira dos dias vividos!

25/01/2005

ESTÁ ENGANADO, SENHOR PRESIDENTE!

O Presidente da República tem uma visão estreita da Autonomia. A minha Autonomia não é a Dr. Jorge Sampaio.
Como sempre, no anjo mudo, aqui ao lado.