17/02/2005

ESPERANÇA VESTIDA DE VERMELHO

Hoje a esperança veste de vermelho e tem nome de equipa de futebol. A distância não apaga a expectativa, nem atemoriza a esperança que, sabemo-lo do berço, é sempre a última coisa a morrer. Mesmo que seja já uma esperança desesperada.
A propósito do futebol do calcio e do estilo de jogo de Trapattoni, fica a citação:
"Majestade, acabei de chegar de Itália, e descobri ali um jogo extraordinário a que chamam calcio. É praticado com os pés e com as mãos, mas não tem nada a ver com o futebol que um édito real de 1349 considerou desonroso. E os homens que o praticam estão longe de serem o desprezível jogador de futebol que William Shakespeare fala no seu Rei Lear. O calcio tem regras muito estritas que lhe dão força e o tornam popular"
Conde de Albemarle ao Rei Carlos II de Inglaterra, em Le football, de Jean-Philippe Rethacker

OS CARTAZES, A VERGONHA E O RESTO

Ontem, os telejornais passaram o "sound-byte" do Presidente do PS/Açores, em campanha na Horta, no qual ele afirmava que o PSD tinha vergonha do seu candidato a Primeiro-Ministro e por isso não o trazia aos Açores.
A declaração merece três observações.
Primeira - Para um partido tão seguro das qualidades do seu próprio candidato a Primeiro-Ministro, que até gostará de o mostrar - argumento "a contrario", como os juristas gostam de dizer - então como se explica que a sua passagem pelos Açores se tenha ficado por um discreto jantar no Royal Garden, em Ponta Delgada, numa sala que, com vontade levará umas duzentas e cincquenta pessoas?
Segunda - Nã há razões para ter vergonha do candidato do PSD, cujo governo, conjuntamente com o governo de Durão Barroso, resolveu um conjunto assinalável de questões em contencioso com a República.
Terceira - Finalmente quanto a quem está envergonhado: o PSD colocou na rua cartazes com a cara do seu cabeça-de-lista, uma carta do Dr. Mota Amaral dirigida ao eleitorado. Do lado do PS, apenas recebemos em casa um folheto com Carlos César e José Sócrates em grande destaque, com o Dr. Ricardo Rodrigues remetido para uma mais do que discreta fotografia igual à dos outros candidatos, no interior do "infomail". Na rua, apenas cartazes de José Sócrates. Afinal, quem esconde o quê? Apesar de tudo, continuamos a escolher candidatos a Deputados. Ou não será assim?

14/02/2005

LÚCIA

A Fé é acreditar sem ver. A Irmã Lúcia teve um privilégio raro: viu. A sua morte encerra um capítulo da nossa história e da nossa identidade, mesmo para aqueles que não são crentes. Fátima não é um dogma de Fé. Acreditam apenas os que querem acreditar, sem que isso possa beliscar ou incomodar a sua Fé (direi, Fé particular). Fiquei comovido com a morte da Irmã Lúcia, sem que isso me impeça de cumprir as minhas obrigações. Sou daqueles que acreditam que, em Fátima, três crianças foram tocadas por um sinal de Deus. Sem mais!

REDUZIR O NÚMERO DE DEPUTADOS NA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

No anjo mudo, coloco o texto da minha comunicação na conferência organizada pelo Açoriano Oriental e pela Universidade dos Açores, sobre a revisão do sistema eleitoral para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.
Defendo a redução de nove Deputados na ALRA (retirando um por ilha/círculo eleitoral do contingente territorial).
Para uma rápida compreensão, recordo que o actual sistema eleitoral nos Açores está assim construído: atribuem-se dois Deputados por cada círculo eleitoral e mais um por cada 6.000 eleitores ou fracção superior a 1.000, em cada círculo eleitoral.
A sustentação política e jurídica da opção fica no anjo mudo, para os mais interessados neste debate. Apesar de ser um texto longo, a sua colocação no blogue justifica-se como mais um contributo para o debate público sobre a revisão do sistema eleitoral.

12/02/2005

CONFERÊNCIA SOBRE A REVISÃO DO SISTEMA ELEITORAL

O Açoriano Oriental promove hoje, dia 12, pelas 15.00 horas, no anfiteatro C da Universidade dos Açores (Ponta Delgada) uma conferência sobre a revisão do sistema eleitoral dos Açores, que tem como oradores os Professores Jorge Miranda e Carlos Amaral, para além deste anjo (passe a publicidade).

À NOITE

Apenas pressinto o mar lá em baixo. A janela aberta para a noite. Um cão ladra, de vez em quando, na vizinhança. O silêncio é dono da casa. Na minha secretária, ao lado do portátil, uma Constituição, o Estatuto, mapas com resultados eleitorais, jurisprudência constitucional portuguesa e espanhola, leis eleitorais de outras regiões, um montão de documentos vários sobre a revisão do sistema eleitoral. Olho para a poesia do Al Berto mesmo ali ao lado, tentadora. Fica para depois. Paciência!

10/02/2005

AS SONDAGENS NAS BOCAS DO MUNDO

Para uma compreensão crítica das sondagens que agitam a campanha eleitoral ver o margens de erro, de Pedro Magalhães.

O HERDEIRO DE GUTERRES

Entrevistado pela TSF, José Sócrates não foi capaz de dar um resposta clara, quando perguntado se era um "herdeiro do guterrismo".
Refugiando-se nos lugares-comuns habituais, o mais que José Sócrates disse foi o óbvio: que ele e Guterres não eram a mesma pessoa e que cada um tinha o seu estilo. Assumiu como qualquer líder faz - o património global das lideranças anteriores (de Soares a Ferro Rodrigues). Porém, aquele que se auto-designou como um "animal feroz" não soube o que responder. Há perguntas fatais e respostas comprometedoras!

A CAMPANHA E O RESTO

Em jeito de balanço de campanha eleitoral, a 10 dias das eleições. Como sempre, aqui ao lado, no anjo mudo.

09/02/2005

A LARANJA COMO METÁFORA

O PSD e a política do retrovisor do PS no plano regional. Uma reflexão sobre a estratégia do PSD, enquanto maior partido da oposição nos Açores. Texto publicado na edição de Fevereiro da revista SABER-AÇORES, aqui ao lado, no anjo mudo.

08/02/2005

DEPOIS DO BAILE

Madrugada fria, quase desconfortável, depois duma noite de baile, em época de Carnaval (no Coliseu, pois claro!). Seis e pouco, sem que a alba enconjurasse a noite. Um jovem casal - ele de smoking e ela de vestido de noite, ambos elegantes, cumprindo a tradição no rigor da vestimenta, muito embora as pérolas dela pudessem muito bem ser falsas, o que nem sequer é relevante, pois àquela hora, todos os colares são verdadeiros, tal como todos os gatos são pardos - de pé, junto da bagageira aberta dum pequeno automóvel utilitário, ceava, retirando das profundezas do veículo as vitualhas apaziguadoras de tão matinal fome. Indiferentes aos transeuntes, sob o olhar plácido de Hintze Ribeiro, os jovens transformaram - por um breve instante - a avenida no mais tranquilo parque para um piquenique urbano.
É carnaval e ninguém leva a mal!

06/02/2005

NO INÍCIO DA CAMPANHA...

"Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder... O poder não sai de uns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais - os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País.
Mas, coisa notável! - os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se , conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem - os verdadeiros liberais, e os interesses do País!"
Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre (Este excerto é de uma das "Farpas" e escrito em Junho de 1871)

01/02/2005

REFORMAR O SISTEMA ELEITORAL

Uma primeira abordagem à reforma do sistema eleitoral nos Açores, aqui ao lado, como sempre no anjo mudo.

URGÊNCIA...

A urgência dum hospital é um dos lugares mais tristes do mundo. As longas esperas fazem-se de dor, de confidências de dores alheias, das breves angústias, dos sobressaltos que enganam a demora.
O ritual branco e azul das urgência é monótono. Chega a ser entediante.
Ontem à noite, uns luminosos ténis cor-de-laranja nos pés duma médica fizeram-me sorrir.

31/01/2005

O COLISEU DO POVO

O Coliseu Micaelense voltou a pertencer ao povo.
Ontem, a reabertura do Coliseu Micaelense, restaurado na sua dignidade de maior casa de espectáculos dos Açores, ficou marcada pela simplicidade dos momentos que nos comovem e nos enchem de orgulho enquanto Açorianos.
O Coliseu é o símbolo da determinação de Açorianos que, há quase cem anos, quiseram contruir um sonho em São Miguel.
A nova vida do Coliseu é uma homenagem a esse espírito que nos identifica e singulariza enquanto povo.
A Câmara de Ponta Delgada está de parabéns! Os Açorianos estão de parabéns!

28/01/2005

BÉSAME MUCHO

A morte de Consuelo Velasquez, compositora mexicana e autora do bolero "Bésame Mucho" convoca a memória da música, da intimidade da dança, da sensualidade dos gestos...
"Como se fuera esta noche la ultima vez"... o verso dolente a antecipar o desejo que permanece...
A música também dança dentro de nós. Sacudimos a poeira dos dias vividos!

25/01/2005

ESTÁ ENGANADO, SENHOR PRESIDENTE!

O Presidente da República tem uma visão estreita da Autonomia. A minha Autonomia não é a Dr. Jorge Sampaio.
Como sempre, no anjo mudo, aqui ao lado.

A AUTONOMIA, SEGUNDO O DR. SAMPAIO

O Presidente da República veio a Ponta Delgada presidir à sessão inaugural do Congresso da Cidadania e ao mesmo tempo defender que os Açorianos e Madeirenses não deveriam aspirar a mais nenhuma evolução do sistema autonómico, sob pena de se colocar em causa a unidade do Estado.
O Presidente da República veio anunciar nos Açores que não gostou da última revisão constitucional.
O Dr. Jorge Sampaio esqueceu que uma Autonomia não reivindicativa é uma Autonomia morta. A Autonomia é, por essência, a afirmação das periferias contra o centro político, num processo dialéctico.
A Autonomia "cooperativa" contagiou o Presidente da República que, ao negar a evolução da autonomia constitucional acaba por colocar em crise um dos direitos dos cidadãos destas ilhas: o de escolherem o seu próprio caminho de auto-governo, fazendo jus à divisa do nosso brasão de armas: "antes morrer livres, que em paz sujeitos".
Amanhã colocarei um post mais desenvolvido sobre este discurso presidencial.

24/01/2005

A OLHAR O MAR


Um texto antigo, publicado na :Ilhas dedicada a Santa Maria.


o tempo vive enlatado na penumbra
dos dias

J. H. Borges Martins




Os ouvidos rente à ilha na escuta dos rumores das gentes. À procura, na minha ilha.

É estanho escrever a "minha ilha", como se as ilhas pudessem ter donos, ao contrário dos ensinamentos dos mapas!

Maria, nome de mulher e de santa, é invocação de ilha. De ilha que não dorme.

Olhos diligentes, em vigílias de azul atlântico, miram os céus, transformando aeronaves em psicadélicos insectos que pulsam nos ecrãs onde nunca é dia.

O aeroporto é sempre um lugar de gente apressada. Até as recordações se ajeitam ao "rush" de quem parte e de quem chega.

A pista, como língua de vaca preta, é a porta para outro lado.

Como escorre demorada a memória das coisas e dos lugares com gente da nossa vida.

Os princípios de tarde, sentado nas escadas do tanque, na Vila, à espera da biblioteca da Gulbenkian, quando inscrevi os meus irmãos como leitores, para poder levar mais alguns livros para casa, sob o olhar atento do Rosélio e do Vieira.

Os dias em que o Pepe - artista de circo, fotógrafo de meia-ilha - falava comigo e me contava de deambulações de saltimbaco e de amores de circo que me arregalavam os sentidos.

A magia estava mesmo ali, a saltar da sua loja de fotografias.

Os dias das sopas do Espírito Santo, em que a fé iguala todos, na copeira, com a carne, o pão e o vinho, em nome da partilha.

Sem convites, todos os que vierem são recebidos.

O negrume imaculado dos Anjos, lugar de Colombo e pátria emprestada da poesia do Padre Serafim de Chaves.

Os dias em que me tornei amanuense de empréstimo e aprendi a escrever à máquina, depois da escola, no serviço do meu pai. Martirizava uma velha máquina mecânica, atrás dum enorme balcão de madeira, com o dobro da minha altura.

Dias felizes, em que os papéis não tinham importância e o meu pai elogiava as minhas qualidades de dactilógrafo.

E eu, p'rá aqui, a olhar o mar!

23/01/2005

A TEOLOGIA DO CHOQUE

Depois do choque fiscal (importado por Miguel Frasquilho para o programa eleitoral de Durão Barroso), do choque tecnológico (de paternidade incerta, mas apresentado como novidade (?) no programa eleitoral de José Sócrates), temos agora o choque de gestão (como conceito matricial introduzido por António Mexia no programa eleitoral do PSD). Parece que há um novo mandamento na política portuguesa: "chocai-vos uns aos outros". Citando Eça, "só à bengalada"!