16/12/2004

PEDRO GOMES - NOME DE CIDADE
Já imaginaram que o vosso nome pode ser o nome duma cidade? Não será motivo de exaltação do ego, mas de simples e breve curiosidade. Cidade "Pedro Gomes"? Não é um nome elegante para uma cidade, ainda que a mim me assente como uma luva. Força do hábito, dirão alguns. A rotina de conviver com o próprio nome, leva o seu portador a não questioná-lo, mesmo que se possa chamar Lizandro ou Esménio...
Cidade "Pedro Gomes"? Ainda se fosse uma marca de perfume, sempre poderia invocar o talento criador da fragância e associar o nome a um certo "glamour"!
Cidade "Pedro Gomes"? De nome de rua a designação de cidade? Bem sei que as urbes se compõem de ruas e que nem todas as ruas, organizadas numa apertada malha, merecem a designação de cidade, muito embora a bondade do legislador tenha multiplicado as cidades, como um nove exame, urbano, claro! Cidades que são apenas ruas e mais ruas, aquários de gente...
Tropecei, por acaso, na cidade Pedro Gomes, no Mato Grosso do Sul, Brasil. Pequena cidade, com pouco mais de 8.000 habitantes. No início foi apenas um povoado, com a sugestiva designação de "Amarra-cabelo". Expressão que sugere deliciosas metáforas políticas, embora a sua origem tenha a ver com a mais terrena indumentária e com a ancestral vaidade humana.
Ainda não descobri como lhe dei o nome. Ou melhor, como me tomaram o nome de empréstimo e com ele ungiram a cidade.
Há um misterioso homónimo que mereceu tamanha distinção, porque a vaidade (um pequeno pecado que, espero, seja facilmente perdoável, sem penosa penitência) no meu nome me impede ded pensar que a cidade assim se chama para público opróbio dum certo Pedro Gomes.
Sem nada saber dela, poderei chamar-lhe "a minha cidade", apurando aquele sentimento de posse instantânea que desenvolvemos em relação às coisasa e, por vezes, em relação aos outros?
Pensando melhor, a ideia duma cidade "Pedro Gomes" é mais atraente do que o perfume. Não poderei ser derrotado pela moda, nem pelo banal gesto de entornar umas gotas de perfume diariamente.... Bem sei que os mais sofisticados argumentarão que já entrámos na era dos vaporizadores...
Em todo o caso, as móleculas de perfume nunca regressam ao frasco!
Bom dia!


15/12/2004


PARÁBOLA QUASE PERFEITA
Os robot's Spirit e Opportunity deixam um rasto solitário nas areias, crateras e rochas de Marte, o planeta vermelho.
Espírito e oportunidade. Qualidades de robot. Qualidades para políticos...



14/12/2004

TEMPOS DIFÍCEIS NO ANJO MUDO

Defendo que, independentemente do que decidirem o PSD e o CDS/PP a nível nacional, o PSD deverá apresentar-se sozinho nos Açores, nas próximas eleições nacionais. Aqui ao lado, no anjo mudo.

A GOVERNAÇÃO GELATINA
Cor-de-rosa, claro! Flexível e agradável à vista. O "toutch" do Presidente do Governo vai remediando a inabilidade política dos Secretários Regionais. A usura do tempo cobrará o seu preço mais depressa do que parece.
VOLTAR A LER SUN TZU
"A ordem e a desordem dependem da organização; a coragem e a cobardia das circunstâncias; a força e a fraqueza, das disposições."
(A arte da guerra)

13/12/2004

PESCAS E CONSTITUIÇÃO EUROPEIA


No anjo mudo reproduzo um artigo publicado no Açoriano Oriental no passado mês sobre a questão das pescas e o novo tratado da União Europeia, na semana em que o Parlamento Europeu vota a proibição de utilização das redes de arrasto nos mares do Açores.
DIZER O QUE PENSO
No anjo mudo passam a ser colocados os textos que pela sua dimensão não devam ser colocados neste blogue. O anjo mudo passa a ser um blogue associado deste.
O sentido da reflexão é o mesmo.
O primeiro texto é uma intervenção parlamentar no debate do programa do IX Governo Regional.

11/12/2004

A INVISIBLIDADE DO PARLAMENTO AÇORIANO
A Assembleia Legislativa dos Açores debate, desde quarta-feira, o programa do IX Governo Regional. Sobre os trabalhos parlamentares paira uma estranha invisibilidade pública.
Apesar dos trabalhos parlamentares serem acompanhados por jornalistas, a verdade é que as notícias sobre o parlamento não reflectem o debate paralamentar, sendo, quase sempre apressadas, descontextualizadas e referencialmente centradas no Governo. Veja-se o site da Assembleia, no qual estão disponíveis as intervenções realizadas e faça-se a comparação com os jornais e noticiários de quinta e sexta-feira. É um exercício elucidativo!
A COMUNICAÇÃO IRRELEVANTE
A novidade da comunicação ao país feita pelo Dr. Jorge Sampaio ficou-se apenas pela data das eleições. A gestão do tempo e o comportamento do Presidente da República tornaram a sua comunicação sobre a dissolução absolutamente irrelevante. Disse apenas o que já se pressentia e não fundamentou com consistência jurídica - que as circunstâncias impunham - o acto constitucional de dissolução.

08/12/2004

O PRESIDENTE REGULADOR
O Dr. Jorge Sampaio defendeu que as entidades reguladoras passem a ser nomeadas pelo Presidente da República (v. Público).
O Presidente da República não tem razão na sua pretensão, por cinco razões essenciais:
1. Em primeiro lugar, estas entidades (ERSE, ANACOM, CMVM, por exemplo) têm a natureza de entidades administrativas, praticando no exercício das suas funções actos administrativos de regulação dos sectores sujeitos à sua intervenção. Atribuir ao Presidente da República o poder de nomear entidades administrativas destas natureza é atribuir-lhe uma competência estranha em relação ao seu acervo de competências.
2. A nomeação de entidades desta natureza é, por definição, competência do orgão que detém o poder executivo - o Governo, no ordenamento jurídico português.
3. A atribuição desta competência ao Presidente da República significaria provocar um entorse no equilíbrio de poderes constitucionais existente entre o Governo e o Presidente da República. Creio mesmo que seria de difícil compatibilização com o actual texto constitucional.
4. É, contudo defensável, por exemplo, sujeitar a nomeação das entidades reguladoras a controlo do Parlamento, bem como à sua fiscalização regular.
5. Esta nova pretensão do Dr. Jorge Sampaio é mais uma deriva comportamental que, em tempos, o levou mesmo a ensaiar um protagonismo mais activo na representação externa de Portugal. Lembram-se?

07/12/2004

QUANDO AS MANHÃS NÃO SÃO IGUAIS


Amanheci no cais da minha ilha de sempre. Arrogantes sobre o mar, a espreitar a baía, os silenciosos canhões do Forte de S. Braz fingem a segurança do mar oceano que agora é de todos. Simplesmente!
A DISSOLUÇÃO EM CÂMARA LENTA


Oito dias após o início da crise política em que o país está mergulhado, já é quase um lugar comum dizer-se que serão quase irrelevantes os argumentos que o Presidente da República usará para justificar o seu acto discricionário de dissolução da Assembleia da República.

Os portugueses já perceberam que não foi apenas a demissão do Dr. Chaves, o discurso da "incubadora" ou qualquer um dos desacertos da governação de Santana Lopes que, por si só, justificaram a dissolução: o comportamento do Dr. Jorge Sampaio revela que ele teve a percepção de que a maioria política no parlamento e no governo já não se identificaria com o sentimento dominante da sociedade portuguesa e que a melhor forma de apurar se a maioria política corresponderia à maioria sociológica conjuntural era através do voto.

Tomando como bom este argumento, então não se compreende que o Presidente da República tenha adiado a assinatura do decreto da dissolução da Assembleia da República para data posterior à da aprovação do orçamento de estado. A atitude do Dr. Jorge Sampaio é mesmo contraditória: se a actual maioria precisa de relegitimação por meio de sufrágio popular, então, o orçamento de estado que é uma das expressões mais evidentes das opções de governação está ferido de morte.

A dissolução da Assembleia da República em "slow motion" encetada pelo Presidente da República é um acto que pretende agradar a "Deus e ao diabo". Ao dissolver o Presidente reconcilia-se com a sua família política, agarrando um pretexto útil fornecido por um Governo que não soube acautelar a sua estabilidade interna como contra-peso às condições estabelecidas pelo Presidente da República em Julho, quando nomeou o Dr. Santana Lopes como Primeiro-Ministro. Aos olhos dos portugueses, o Presidente da República pretende assumir uma atitude responsável, ao dissolver, permitindo que o orçamento seja aprovado.

Nesta crise, o Dr. Jorge Sampaio revelou ? uma vez mais ? que a gestão do tempo político não é a sua especialidade. A sua comunicação ao país sobre as razões da dissolução é quase irrelevante e a consulta ao Conselho de Estado e aos partidos foi transformada numa trivialidade, despida de sentido institucional.

Com esta dissolução ? com a qual não concordo, embora possa entender as razões do Presidente da República ? ocorreu uma reinterpretação do poder presidencial de dissolução do parlamento, agora lido à luz da teoria das catástrofes: um bater de asas no governo, provoca, não uma tempestade em New York, mas a dissolução do parlamento, ainda que a maioria seja absoluta e sólida.

Em todo este episódio, o PSD tem de queixar, maioritariamente, de si próprio, pela maneira atabalhoada como a governação foi exercida nos últimos quatro meses. Nem todos os episódios da governação serão relevantes para determinar o carácter do executivo, mas a verdade é que o exercício do poder bem poderia ter sido mais eficaz, equilibrado e consentâneo com o que se esperaria dum Governo na segunda metade da legislatura.

O PS parte para as próximas eleições com a tarefa facilitada pelo facto da dissolução lhe ter caído ao colo: há eleições, muito embora o unido mérito do Engº Sócrates seja apenas o de existir. Escorado no seguro-caução de António Vitorino, o Engº Sócrates apresenta-se aos portugueses como o sucedâneo de outro engenheiro, do qual, aliás, é filho político dilecto. Apesar do momento, o PS ainda não ganhou as eleições e muito menos com maioria absoluta.

Os próximos dias são cruciais para os portugueses perceberem a espessura política de José Sócrates.

30/11/2004

A DISSOLUÇÃO E OS COMENTÁRIOS IGNORANTES
Ao contrário do que alguns "comentadores" vão dizendo, o Presidente da República não demitiu o Governo, que continua na plenitude das suas funções constitucionais. O Presidente da República apenas decidiu dissolver o parlamento; isto é, antecipar as eleições, no exercício dum poder discrionário e dum juízo também discricionário que pode assentar em actos de governação, em avaliação social, em falta de legitimidade parlamentar ou social.... Para dissolver o parlamento, o Presidente da República não precisa de aquilatar do "regular funcionamento" das instituições - do ponto de vista estritamente constitucional.
Já agora, acrescente-se que as eleições deverão realizar-se no prazo de 55 dias após a dissolução e que, com o acto eleitoral, se iniciará uma nova legislatura, o que significa que se elegerá um parlamento com um mandato de quatro anos e não apenas para completar a actual legislatura.
ONCE UPON A TIME...
O Presidente da República decidiu-se pela dissolução da Assembleia da República. Não concordo com os pressupostos, mas respeito a decisão.
A demissão do Dr. Chaves foi apenas o pretexto útil. De uma assentada, o Presidente da República reconcilia-se com a sua família política e coloca fim a um inusitado período de pendor mais presidencialista no nosso sistema político. não me parece que o Governo deva ter muitas queixas, a não ser de si próprio. Agora é tempo de jogo novo!
Interessa recordar que, agora, a alternativa ao PSD de Santana Lopes é o PS do Engº Sócrates, o herdeiro do guterrismo.
Sem tempo para afirmar a sua liderança, o Engº Sócrates anunciou já ao país que o coodenador da elaboração do programa eleitoral socialista é o Dr. António Vitorino, o seguro-caução da liderança da sua liderança.
O tempo trocou as voltas aos políticos.

29/11/2004

CHAVES DA TORMENTA
Não partilho da visão catastrofista dos que, à demissão dum Ministro, se apressam a gritar - tal como na história do rapaz e do lobo - "eleições antecipadas, já!".
Em nome da sua autoridade pessoal, Santana Lopes deve uma explicação ao país sobre o episódio - lamentável - da demissão do Ministro Henrique Chaves. Não sobre as suas relações pessoais com o Dr. Chaves - que essas são de outro foro - mas sobre a questão política que ela envolve.
Caso o governo tente passar pelo assunto como "gato por brasas" a sua credibilidade ficará seriamente danificada.
Anoto que o líder da oposição, ao contrário do seu antecessor, não se apressou a pedir eleições antecipadas. Apenas calculismo?


O BÉBÉ E A ÁGUA DO BANHO...
Não gostei de ver o Primeiro-Ministro, Santana Lopes, em sessão oficial, a referir-se a questões de natureza partidária que, por definição, apenas o devem ocupar na função estritamente partidária.
A CONTINUIDADE COMUNISTA
Apesar das mudanças no mundo, o PCP cumpriu à risca a doutrina das "folhas secas" depurando o partido, assim acreditando que o comunismo se solidifica e resiste à voragem que atingiu os outros partidos comunistas por essa Europa fora.
O discurso de Jerónimo de Sousa não podia ter sido mais claro: o PCP permanece imutável e fiel aos princípios marxistas-leninistas. A renovação etária, de âmbito limitado no Comité Central não encontrou paralelo ao nível do discurso e da postura comunista: até a abertura à convergência da esquerda, limitada ao PS ( ignorando olimpicamente o BE) obedede à condição de que os PS deve abandonar "políticas de direita"...
Este congresso representou o acentuar do fechamento do PCP sobre si próprio.

28/11/2004

O CONGRESSO E JERÓNIMO (II) : A PERGUNTA E A JORNALISTA DISTRAÍDA
No fim do discurso de hoje, a jornalista da SIC pergunta ao Secretário-Geral do PCP se a coragem "física" a que este aludira no discurso significava confrontos nas ruas. Creio mesmo que a jornalista pretenderia perguntar se os militantes comunistas sacariam da famosa moca de Rio Maior pelas ruas do país.
Não há paciência!
O CONGRESSO E JERÓNIMO (I)
Depois de escutados com atenção os discursos de Jerónimo de Sousa, creio que, nas suas novas funções, nunca virá a gritar "Gerónimo!".
UCRÂNIA - A TÉNUE LINHA DE DEMARCAÇÃO ENTRE A DEMOCRACIA E O CAOS
De um modo raro, a UE, a NATO e os EUA coincidiram não validação das eleições presidenciais da Ucrânia, facto que o parlamento de Kiev confirmou ontem - numa votação que, embora tenha um elevado significado político, não vincula o Supremo Tribunal de Justiça, órgão a quem cabe tomar uma decisão final sobre o processo eleitoral.
As eleições ucranianas não são indiferentes para a Europa, nem para o ocidente, em geral: de modo imediato joga-se o modelo de sociedade, com Moscovo a apostar na continuidade e no estreitamento de relações com Kiev, apoiando Ianukoviych, o candidato do sistema. Moscovo pretende constituir uma comunidade económica, englobando a Ucrância, Bielorrússia, Cazaquistão e a Rússia, com o objectivo de consolidar a sua influência na zona e estreitar a sua "longa manus" sobre uma ex-república soviética.
A médio e a longo prazo, joga-se nestas eleições o papel estratégico da Ucrânia, entre a Rússia e a UE. Uma Ucrânia membor da NATO e candidata à adesão à UE limita a consituição dum "império europeu" por parte da Rússia e constitui um importante travão à sua influência na região do Cáucaso, duma importância geo-estratégica vital.
Por tudo isto, a vitória de Victor Iuschenko não é irrelevante.
O povo está na rua, em nome da democracia.
A PALAVRA DE JOÃO XXIII

"O homem prudente é o que sabe calar uma parte da verdade que seria inoportuna manifestar e que, calada, não prejudica a verdade porque não a falsifica; aquele que sabe atingir os bons fins que se propõe, escolhendo os meios mais eficazes de querer e de agir; que em relação a cada caso sabe prever e avaliar as dificuldades e sabe escolher o caminho em que os perigos e as dificuldades são menores; aquele que, tendo-se proposto um fim bom e nobre e grande, não o perde nunca de vista, consegue superar todos os obstáculos e leva-o a bom termo; aquele que em qulquer assunto distingue a substância e não se deixar enredar pelos acidentes; une as suas forças e fá-las convergir para o bom fim (...)"
Diário Íntimo, 1964
Bom dia!

26/11/2004

A CONFUSÃO DOS SENTIDOS - RESPOSTA A PEDRO DE MENDOZA
Pedro de Mendoza publicou a Ditadura dos Interesses, a propósito de notícia do Açoriano Oriental, segundo a qual a Câmara Municipal de Ponta Delgada estudava a hipótese de constituir uma Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) para a requalificação das zonas de S. Pedro e de S. Roque, em Ponta Delgada.
Este "post", tal como anotei em comentário breve merece um comentário mais detalhado.
Por vezes, quando se quer provar uma tese à partida, faz-se como o Pedro fez: misturam-se os argumentos (com a elegância da escrita que o Pedro sabe cultivar), confundem-se os fins com os instrumentos, salpicam-se as "provas" com um certo ecologismo bom-tom e retira-se a conclusão óbvia: as intervenções urbanísticas são sempre o palco para a satisfação de obscuros interesses, ora dos políticos, ora de privados.
Utilizando uma linguagem de plasticina, molda-se a linha argumentativa a uma certa igenuidade que, por vezes, perpassa na blogosfera: o que escrevemos é para ser lido, debatido e comentado. Escrevemos num espaço público, sujeito ao escrutínio de quem acede ao blog ou ao comentário.
As Sociedades de Reabilitação Urbana são apenas instrumentos da política de urbanismo, sujeitas a regras de direito público, com finalidades determinadas. Podendo ter alguns defeitos genéticos - e têm-nos - não são, contudo as novas hidras do urbanismo.
Elas visam - genericamente falando, porque esta não é uma discussão jurídica - possibilitar a intervenção urbanística em certas zonas, associando a esfera pública com a esfera privada, obedecendo a escolha dos privados aos princípios da publicidade e transparência. As SRU poderão exercer competências de natureza pública - expropriações, licenciamentos - sujeitas às mesmas regras de direito público que vinculam, por exemplo as Câmaras Municipais.
O Pedro pode ter a sua visão sobre o desenvolvimento urbanístico em São Miguel ( e tem-na,certamente. Não pode e não deve assacar intenções (primeiras ou segundas) à CMPDL a partir da simples hipótese de constituição duma SRU, sem se ter dado ao trabalho de saber, em concreto, as hipóteses em cima da mesa.
O Pedro não tem culpa: este é o tipo de raciocínio apressado que a blogosfera permite. Na ânsia de comentar a actualidade, esquecemo-nos do que está atrás da aparente simplicidade da notícia do jornal.
Parece-me injusta a qualificação de Ponta Delgada como uma "nova Quarteira", construida a partir do prolongamento da Avenida. Penso que a visão romântica do Pedro soçobrará se aceitar fazer uma visita comigo às traseiras do casario de S.Roque, entrando pela Canada da Shell - que o Pedro apenas deve conhecer porque entronca com a Rua do Terreiro - a apreciar as construções de madeira, de costaneiras, as construções ilgegais, o lixo acumulado e pressentir o mar a entrar pelas casas dentro. Esta realidade não tem nada "brick" e está muito longe do ambiente sofisticado dum blog...
Depois da vista a pé, convido o Pedro - com bom tempo, para evitar mal-estar mareiro - a uma visita de barco à mesma zona.
Veremos, então, se a "especulação" e a "trapalhada" se mantêm como argumentos.
Porque o post já vai demasiado longo, concluo, dizendo que o Pedro tem o que escolheu em matéria de políticos: eu em 17 de Outubro não fiz a mesma escolha do Pedro.

25/11/2004

A JUSTIÇA E OS GIRASSÓIS



No dia em que se inicia o julgamento do processo "Casa Pia", a imprensa re-descobre um filão mediático. O DN
faz manchete com o tema, com um título de dupla leitura."O dia do juízo" leva de imediato o leitor a uma associação com o cristão dia do "juízo final" em que os justos serão premidados e os prevaricadores castigados. O título surge sobre uma foto, em cujo primeiro palno se vê uma câmara de filmar, num plano elevadíssimo sobre a rua, convocando o leitor a um "voyeurismo" cúmplice. Com as limitações impostas à comunicação social pelo Colectivo, o novo espaço mediático está circunscrito à rua e à opinião pública, a partir dos comunicados diários que o Tribunal irá emitir.

A imagem da câmara é também metafórica: o jornal diz aos seus leitores que a verdade está ali, porque o senso comum diz-nos que as câmaras não mentem. Porém, como todos sabemos, issojá não é verdade!

Como revela a mesma edição, em estudo realizado pela Marktest, a maioria dos portugueses não acredita num resultado justo neste processo. É a ideia recorrente de que "os ricos e poderosos se safam e os pobres se lixam".

Para que conste, devo dizer que acredito na Justiça portuguesa.

Deixo abaixo extracto dum texto com dois anos, sobre a relação da justiça com os "media", que continua actual.

Ao longo do último ano, os media descobriram a justiça como um filão - umas vezes da informação, outras apenas do "info-entretainment" - e a sociedade portuguesa constatou que nenhuma classe social - por mais influente ou poderosa que seja - está acima da justiça.

Com gente da política, do espectáculo, de classes sociais prestigiadas como arguidos em processos de grande impacto, a tentação de discutir os "contornos" de cada caso na hora do jantar ou no cabeleireiro tornou-se num novo passatempo dos portugueses.

Comenta-se o que não se conhece e julga-se, absolvendo ou condenando na praça pública, o que se ignora em absoluto.

Advogados, jornalistas, arguidos - através de interpostos porta-vozes - alimentam a corrente de opinião, umas vezes pública, outras apenas publicada, fazendo do segredo de justiça uma figura de retórica legislativa.

A discussão mais séria sobre a natureza da prisão preventiva ou da aplicação de determinadas medidas de coacção, em geral, sobre o estatuto dos arguidos e a relação de forças processual entre estes e o Ministério Público, titular do inquérito, sai sempre prejudicada quando é feita - como tem sido quase sempre - por acalorados "protagonistas" dos casos judiciais mais mediáticos, que persistem em confundir "culpa formada" com "indícios de actividade criminosa".


A pulsão da "court tv" está definitivamente instalada em Portugal, numa evidente contradição do uso do tempo: o tempo das decisões da justiça - de política legislativa ou de decisões jurisdicionais - é mais lento do que o tempo mediático que atravessamos.


A justiça não pode ser como os girassóis, que se voltam todos os dias à procura do sol.

ANGEL BLOGS (XXI) - ANJOS PELO MUNDO

De braços abertos inventamos o futuro.

Bom dia!


24/11/2004

A REVISÃO DO ESTATUTO E DAS LEIS ELEITORAIS DOS AÇORES
O PS já apresentou na Assembleia Legislativa - ver aqui - duas propostas de Resolução para que o parlamento constitua duas comissões eventuais para a revisão do Estatuto Político-Administrativo da Região e para a alteração da lei eleitoral. Até aqui nada de novo. O que é curioso é o PS não querer que os trabalhos destas comissões parlamentares sejam abertos ao público e à comunicação social. De que tem medo o Partido Socialista?
Não só os trabalhos destas comissões eventuais devem ser abertos ao públicos, como os os trabalhos de todas as comissões parlamentares, em nome da transparência do parlamento e da publicidade da actividade dos Deputados.
JORNALISMO, MEMÓRIA E FACTOS DISPERSOS
No dia 22 de Novembro, o Presidente do Governo Regional, na inauguração do Marina Atlântico - um hotel elegante, debruçado sobre o Atlântico, em Ponta Delgada - anunciou, entre outras medidas para a área do turismo, a redução de 50% nas tarifas da SATA, em vôos inter-ilhas e em pacotes turísticos. Não contesto a opção. Apenas a considero tardia e limitada no seu âmbito.
Lembram-se? Durante a camanha eleitoral, quando o líder do PSD anunciou uma redução gerenalizada de 20% nas mesmas tarifas, durante o ano inteiro. Qual a foi a reacção do líder do PS? Num discurso violento, no Pinhal da Paz pediu para perguntarem "a esse homem onde vai arranjar o dinheiro para mentir assim aos açorianos" (embora citado de memória, creio que reproduzo com fidelidade a expressão).
Pois bem, nenhum jornalista se lembrou de confrontar o Presidente do Governo com esta questão.
Afinal, a frase de Pimenta Machado, não se aplica apenas ao futebol: o que foi mentira ontem, pode tornar-se uma verdade hoje.
O mesmo se aplica à lavoura: o telejornal da RTP/A abriu com a crise da lavoura, como bem assinala e comenta o JNAS. Afinal há crise? Os lavradores perderam poder de compra? O custo dos factores de produção afecta a solvabilidade das lavouras? Parece que não, a avaliar pelo discurso oficial que o novo Secretário da Agricultura reproduziu na sua primeira entrevista a um órgão de comunicação social. Como se diz na gíria forense, "aos costumes disse nada".
Na região-maravilha não se passa nada!
ANGEL BLOGS (XXI) - VIAJANTE


Viajo por um tempo que não me pertence. De sandálias e bornal, faço-me de peregrino da jornada.

Bom dia!

23/11/2004

CHUVA NA ALMA
A ilha amanheceu cerzida de aguaceiros.
Bom dia!

22/11/2004

AS MÃOS E A PALAVRA
No "rush" do dia-a-dia, há um punhado de mãos com tempo para (re)escrever a palavra antiga. Um pouco por todo o país, gente do nosso tempo mergulhou na sabedoria da palavra do Senhor, num gesto ecuménico de partilha daquilo que afinal une milhões de pessoas por todo o mundo: chamando-lhe Deus, Javé ou qualquer dos nomes pelos quais é conhecido entre todos os cristãos, os portugueses uniram-se durante as últimas semanas para escreverem à mão a Bíblia, regressando de modo simbólico ao tempo pré-gutenbergiano.
Na era da cibernética, a palavra voltou a ter o peso ancestral, laboriosamente escrita à mão: a palavra medida, certa para caber no espaço, letra bonita e uniforme para ser legível, idêntica para não trair as emoções. Por alguns dias, graças à Sociedade Bíblica, os portugueses - e também os açorianos - voltaram a ser copistas. Um dos exemplares do labor copista destina-se à Biblioteca de Alexandria
Lembro aqui o princípio norteador das ordens mendicantes do século XIII "Aquilo que diz respeito a todos deve ser tratado por todos".
Como eu gostava de ter podido escrever aquele versículo do Eclesiástico que diz que há um momento para tudo e um tempo para cada coisa, sob o Céu.

19/11/2004

O REFERENDO, A PERGUNTA E A INCERTEZA SHAKESPEARIANA (II)
A formulação controversa da pergunta referendária lançou um debate frenético sobre a ilegitimidade da convocação do referendo ou da aprovação do Tratado, com lancinantes apelos ao boicote à sua realização vindos dos partidos e forças políticas mais à esquerda do espectro partidário.
Como já ficou claro, preferiria outra pergunta. Cabe agora ao Presidente da República suscitar junto do Tribunal Constitucional a apreciação da pergunta e esperar o seu julgamento quanto à objectividade e clareza da fórmula utilizada.
O que está em causa neste referendo é uma aprovação global do processo de construção europeia, de modo a habilitar a Assembleia da República à ratificação do Tratado.
O REFERENDO, A PERGUNTA E A INCERTEZA SHAKESPEARIANA
Os dois maiores partidos aprovaram, na Assembleia da República, a pergunta que será formulada aos portugueses no referendo sobre a União Europeia:
"Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?"
A pergunta não é clara nem feliz na sua formulação. Primeiro, porque confunde os eleitores. Em segundo lugar, porque os seus termos são vagamente contraditórios: a regra da maioria qualificada (maioria de Estados e maioria de população) é um dos elementos do novo quadro institucional. A utilização da copulativa "e" induz em erro os eleitores.
Por outro lado, a pergunta trata apenas aspectos parcelares do Tratado, centrando-se na Carta dos Direitos Fundamentais e no quadro institucional. Teria sido mais avisado formular uma pergunta de conteúdo mais genérico sobre o processo de aprofundamento da União, de modo a que os portugueses pudessem expressar a sua posição de modo global.
A pergunta, tal como está formulada, autoriza a adensar os receios sobre a participação dos portugueses no referendo.

O ESPLENDOR DE MARTE

Phobos, uma das duas luas do planeta vermelho, com nome de deus guerreiro. Olhamos e pressentimos que não estamos sós no universo.

Bom dia!



17/11/2004


AS PALAVRAS QUE NUNCA DIRIA

As palavras são de Fernando Menezes, na tomada de posse do IX Governo Regional dos Açores, perante a Assembleia Legislativa:

"Quero ainda dizer-lhe, Senhor Presidente, que à frente desta Assembleia Legislativa está também um socialista que, sem prejuízo do respeito pela isenção institucional a que este elevado cargo obriga, lhe expressa neste momento tão significativo para todos nós, a sua solidariedade e o seu empenhamento para os desafios que haveremos de enfrentar nos próximos quatro anos."

No momento em que, pela primeira vez, o Governo toma posse perante o parlamento, as palavras que cito reflectem uma ideia errada sobre o papel do parlaemnto no nosso sistema constuticional autonómico.

As palavras de Fernando Menezes não são um bom augúrio.

ANGEL BLOGS (XX) - O MAR RENTE AOS OLHOS

O mar da montanha rente aos olhos a espantar os sentidos.

A montanha acordou no meu quarto. Assim!

Bom dia!



UM CHAPÉU PARA DOIS PERSONAGENS
O discurso de Carlos César na tomada de posse do IX Governo Regional, surpreende pelo tom e pelo conteúdo. Mais do que o "nosso presidente" como proclamou a propaganda socialista, os Açorianos escutaram um líder partidário, que optou por não assumir o papel institucional que o cargo lhe confere. O ataque à oposição e as críticas ao Governo da República marcaram o discurso, num tom inusitado e desnecessário face à recente vitória do PS nas eleições regionais. Com o seu discurso, o Presidente do Governo marcou o estilo da intervenção do Governo, na linha do que o próprio definiu em recente entrevista à RTP/Açores: o Governo quer ajudar o PS a ganhar as próximas eleições. Carlos César, ao seu melhor estilo - e sem direito a réplica - ignorou o seu outro chapéu!
A PASTA DENTÍFRICA QUE NÃO VOLTA AO TUBO


1. A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA - O novo parlamento regional iniciou funções, num quadro de renovação dos Deputados dos vários partidos com assento parlamentar, podendo augurar um novo tipo de postura no debate parlamentar. Com excepção do líder do PP, os Deputados da geração dos "founding father's" já não estão no parlamento regional, marcando-se, deste modo, uma transição de gerações - natural, pelas leis da vida - no terreno parlamentar. A Assembleia Legislativa padece de velhos vícios - nas rotinas, no funcionamento, no afastamento dos cidadãos, na excessiva permissividade das regras de substituição dos Deputados, que confundem os eleitores e penalizam o trabalho parlamentar, na reduzida eficácia como órgão de fiscalização política e na reduzida produção legislativa - a corrigir ou eliminar com urgência, em nome da credibilização do parlamento.

O desafio é lançado à robusta maioria parlamentar do PS para que aceite reformar o parlamento, ao invés de efectuar meras operações de cosmética, como sucedeu com as alterações ao regimento por si aprovadas, há bem pouco tempo. As reformas não se concretizam com piedosas proclamações, mas com atitudes decididas.

2. A ELEIÇÃO DE FERNANDO MENEZES - A eleição do Presidente do Parlamento com menos votos do que qualquer um dos outros membros da mesa é um sinal inequívoco de que os Deputados não se revêem na sua actuação no cargo e, sobretudo, na subalternização do Parlamento à maioria do PS. O Dr. Fernando Menezes não pretende modificar nada no Parlamento, em consonância com a posição do seu partido, como ficou claro nas tíbias palavras que ontem proferiu, depois da eleição. Fernando Menezes não ambiciona nada e contenta-se com muito pouco!

3. O NOVO GOVERNO - O novo governo é uma espécie de "quinta das celebridades" do socialismo açoriano, combinando a boa tradição de promoção do aparelho socialista, com a tentativa de refrescamento com personalidades cujos percursos não demonstram qualidades para o exercício das funções. O tempo dirá se tenho razão ou não, mas estou convencido que neste governo há vários erros de "casting".

A novidade mais notória é a criação do lugar de Vice-Presidente do Governo, para Sérgio Ávila, uma das estrelas socialistas. Depois do Presidente do Governo ter afastado publicamente - em entrevista à RTP/Açores - a possibilidade do Vice-Presidente poder vir a ser o seu sucessor na liderança socialista, o que faz correr Sérgio Ávila?

O Dr. Ávila fará no Governo aquilo que de melhor sabe fazer: administrar as ambições dos outros e utilizar os lugares que ocupa para consolidar a sua posição política. O Dr. Ávila ganhou um presente envenenado: na formação do governo ajustou as suas contas políticas com os adversários internos da Terceira, pagando o elevado preço de ser arredado publicamente pelo Presidente do PS da lista dos potenciais sucessores. Porém, como sabemos, na política nada é eterno ou imutável?

Apesar de Vasco Cordeiro poder ter sorrido, a verdade é que no equilíbrio das posições relativas, saiu a perder para o Dr. Ávila. Acantonado nas relações com o Parlamento e tendo de gerir a truculência de Francisco Coelho, a posição do ex-Secretário da Agricultura é delicada.

Carlos César baralhou o jogo da sucessão, inevitavelmente aberto pelas suas próprias declarações, apresentando um governo renovado, mas modesto.

Quanto ao resto, todos sabemos muito bem que a pasta dentífrica nunca volta a entrar no tubo.

11/11/2004

ANGEL BLOGS (XIX) - INCENSO NA NOITE

O frio cortante da noite é surpreendido por um intenso cheiro a incenso, a lembrar que pisamos chão sagrado. Isaías e Jeremias, na sua imobilidade de pedra, guardam silenciosamente a noite estrelada, vigiando os passos peregrinos que se aventuram na tranquilidade da memória ancestral da fé. Majestoso, abandonado no repouso que só a noite dá, o Bom Jesus de Braga debruça-se sobre o presépio da cidade, lá em baixo.

Boa noite!
NA MORTE DE ARAFAT

Independentemente dos juízos políticos ou morais sobre os seus comportamentos, o tempo e a sua persistência pessoal tornaram Arafat num personagem incontornável num processo que há-de levar à criação dum estado palestiniano. A sua morte poderá representar um nova - talvez derradeira -oportunidade para a paz. "Give peace a chance", como na canção!

09/11/2004

A MEMÓRIA CONTRA O ESQUECIMENTO


(Muro de Berlin - Julho de 1974)

O símbolo da "cortina de ferro" - na expressão de Winston Churchill - foi derrubado há quinze anos. Nessa noite todos sentimos berlinenses, cidadãos livres. A memória do dia convoca a expressão de John Keneddy, em 1963 - "Ich bin ein Berliner", o desafio de Ronald Reagan a Gorbatchov para que derrube o muro ou a visão persistente de Helmut Kohol. Mas, a memória deve também convocar o papel de João Paulo II, na mudança global na Europa de Leste, de que o derrube do muro é o sinal mais eloquente.
Transcrevo um texto que publiquei há 3 anos:
Os meus filhos apenas saberão que existiu um muro em Berlim através dos livros de história. Para eles, à distância dos anos, parecerá um absurdo. Para mim e para as gerações pós segunda guerra mundial, o muro de Berlim, cuja construção começou há quarenta anos, foi sempre uma ferida no coração da Europa e no coração da democracia.

Faz sentido, hoje, doze anos depois do seu derrube, lembrar o muro de Berlim? Faz tanto sentido como lembrar o holocausto e as suas vítimas, o Cambodja, Beirute, Mostar ou a ilusão Cubana, na semana em que Fidel fez setenta e cinco anos.

Em nome de uma ideologia, perante a avaliação equívoca das outras potências vencedoras da guerra, os soviéticos muraram um sector de uma cidade, pensando aprisionar os homens e as suas consciências.

Em nome dum marxismo igualitário, os soviéticos esmagaram as liberdades individuais em favor do ?bem-estar colectivo?. A realização do ?socialismo real? era a mola utópica que determinava tais actos.

Da utopia do ?socialismo real? pouco há a dizer, pois pouco resta nos dias de hoje. Contudo, é essencial que a nossa memória não se apague, sobretudo quando alguns, em nome deste socialismo, procuram fazer re-leituras da história, legitimando discursiva e intelectualmente alguns dos fundamentos que levaram à construção do ?muro da vergonha?.

A construção do muro foi um braço de ferro com a democracia. Com a democracia que hoje vivemos, com as suas virtudes, com os seus defeitos, com as suas imperfeições. Uma democracia contraditória, é certo, que não é o fim da história, no sentido que lhe deu Francis Fukuyama, mas que não precisou de construir muros para se impôr.

Milan Kundera dizia que a luta contra o poder (totalitário) era a luta da memória contra o esquecimento. Uma das viagens que mais contribuiu para a minha formação cívica e política, foi uma viagem a Berlim Ocidental e depois a Berlim-Leste, no início dos anos 80, ainda estudante de Direito. Impressionou-me muito sentir a cidade dividida, o contraste entre a vida junto ao muro, do lado ocidental, e o silêncio sepulcral na terra de ninguém, minada, vedada e vigiada, junto ao mesmo muro, do lado de lá, as tarjas pretas nas bandeiras dos Land de leste, no interior do Parlamento de Berlim. Para já não falar no choque brutal que era atravessar a fronteira e mergulhar em Berlim-Leste: um regresso ao passado, literalmente.

Tenho no escritório, dentro duma caixinha de vidro, um pedacinho desse muro. Para não esquecer!
ANGEL BLOGS (XVII) - UM PICO DE HONRA, PARA O OLHAR



O NOVO GOVERNO E AS LUAS DE SATURNO
A composição do novo Governo Regional tem suscitado múltiplos comentários (Pedro de Mendonza em ilhas) mais centrados na tentativa de previsão dos nomes dos futuros Secretários Regioniais, do que na discussão das opções políticas que os próximos quatro anos comportam, dentro do quadro de referência constituído pelo programa eleitoral que o PS apresentou e que os Açorianos maioritariamente sufragaram.
A especulação em torno da composição dum governo é sempre gratuita, cruzando a nossa percepção pessoal com as "dicas", as "informações", os "palpites" que os amigos ou conhecidos bem informados sempre gostam de exibir.
A formação dum governo é, quase sempre, um acto solitário do chefe do governo e, apenas, quando alguns convites se começam a fazer, é que as informações sobre a sua composição se tornam um pouco mais fiáveis.
Sobre a estrutura do Governo Regional fiquei já esclarecido, quando o Presidente Carlos César - em entrevista à RTP/A - demonstrou que , para além da Vice-Presidência, e de dois retoques cosméticos, pouco mudará na orgância governativa.
Já quanto à composição do futuro executivo, na mesma entrevista, ficou claro que a prometida "profunda renovação" (as palavras são de Carlos César) não passará da intenção. Foi, aliás, notória, a dificuldade do Presidente do Governo em responder à perguntava que o confrontou com a anterior declaração.
Posso enganar-me, mas nesta matéria, apenas os mais generosos crentes poderão esperar grandes novidades.
ANGEL BLOGS (XVI) - O PERFUME EVANESCENTE DO CAFÉ


Um grupo de consultores, em redor do café da manhã, discutia um intrincada questão económica, de papéis em punho e ideias estimuladas pela cafeína. Meio-café, ainda meditabundo e sonolento, acompanhava a discussão entre um olhar inquiridor e um bocejo distraído. Vestidos a preceito, de pastas pretas e portáteis, fato e gravata, a denunciar a suprema condição de conselheiros, os homens, quais princípes da errância moderna fizeram da modesta mesa do café - ali mesmo, debruçado sobre o mar - o escritório do momento. Será este um outro reflexo da globalização?
Bom dia!

07/11/2004

OS MINISTROS E AS DESVENTURAS DA OPINIÃO


O Ministro Álvaro Barreto, citado pelo PÚBLICO http://www.publico.pt, num tom que não deixa margens para dúvidas, critica de modo implícito o seu colega Rui Gomes da Silva. Não deixando de concordar com as palavras de Álvaro Barreto, creio que um Ministro em funções não pode dizer o que ele diz, sem essa declaração envolva uma quebra de solidariedade política, não apenas com o colega em causa, mas com o Primeiro-Ministro. Neste domínio, Álvaro Barreto não pode ter opinião como cidadão, já que não pode deixar de ser Ministro quando faz a afirmação que faz.

A declaração do Engº Barreto é surpreendente e bem reveladora dum certo modo de fazer política, assente na ideia as declarações ou atitudes "politicamente correctas" têm um condão salvífico e tal como o tide, podem lavar tudo. Muito pelo contrário, é com este tipo de atitudes que a classe política se descredibiliza aos olhos, cada vez mais argutos, dos cidadãos e dos eleitores.

O Engº Barreto disse o que não podia dizer, a menos que, com aquela declaração - o que não acredito - pretenda deixar o Governo.

ANGEL BLOGS (XV) - UM CERTO REGRESSO

Para Lázaro, o regresso é sempre um novo começo.
Recomeço, a partir de hoje, a escrita no blogue. Sacudo a poeira das palavras que não escrevi, a tentação de olhar os dias andados e não contados. Não falo do passado. Não penso no passado, porque não vivo para o passado. Com Heraclito aprendemos que a água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Assim é. Escrevo agora, muito depois das Trindades, a pensar no dia de amanhã. A pensar, sempre, no tempo que vem atrás do tempo. De nada me vale ficar, sorumbático, a mirar o relógio, na vã esperança de surpreender a marcha dos ponteiros...
Convoco a esperança que serve de mote ao blogue, para dizer que ela não é resignada, lembrando sempre a história dum certo coronel, contado por García Marquez, para quem esperar era a única forma de esperança.
Convoco, ainda, um dos meus poetas - Ary dos Santos - para recordar esse verso do Soneto Presente:

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Assim mesmo: não estou aqui. Sou daqui!
Boa noite

02/08/2004

ANGEL BLOGS (XIV) - OS CONFESSIONÁRIOS PÚBLICOS


As esplanadas dos cafés são os confessionários dos tempos modernos. Sem uma parede de madeira de permeio, sem a necessidade - quantas vezes dolorosa - de ficar de joelhos, as cadeiras das esplanadas cumprem a função do mítico divã do psiquiatra. A amiga chorosa, o marido enganado, o aspirante a enamorado, o cínico profissional... todos se reclinam nas cadeiras contando a sua vida, entre duas chamadas urgentes no telemóvel... Corre vida, corre!
Boa tarde.

01/08/2004

ANGEL BLOGS (XIII) - O SABOR DORMENTE DOS DOMINGOS

Os Domingos têm o sabor das amoras esmagadas no vidro da janela.
Boa noite.

SÓCRATES E A PALAVRA CAPRICHOSA

Regresso à escrita no blog. Já sinto saudades de escrever aqui. Diz-me o meu contabilista que o valor das acções deste blog na bolsa da blogosfera desceu a pique, em virtude da longa ausência. Paciência!

Tanscrevo abaixo a crónica que publiquei no Açoriano Oriental de ontem. Nesta época pré-eleitoral, a entrevista de José Sócrates ao Expresso permite um conjunto de reflexões mais alargadas sobre a política e os seus protagonistas que procurarei ir fazendo neste ANJO DO MUNDO.



Há em José Sócrates uma perturbante tentação para a voragem da frase solta, para uma espécie de ?fast-food? político, de bom-tom, mas vazio de conteúdo. Para um homem que, como candidato a líder socialista, se assume também como candidato a Primeiro-Ministro, a entrevista que deu ao ?Expresso? é uma desilusão.

Se a entrevista é o espelho do pensamento político do mais do que certo futuro líder socialista, então o PS deve preparar-se para permanecer na oposição por longos anos.

Sem fulgor e sem rasgo, José Sócrates deixa arrastar a entrevista, sem que o comum dos leitores consiga perceber o quer para Portugal o homem que ambiciona sentar-se na cadeira na qual se sentou um dia seu mentor António Guterres. Sabemos que José Sócrates leu muito, tal a profusão de citações ? de Miguel Torga a Karl Popper ? mas ignoramos que propostas políticas o distinguem, não só dos outros candidatos, como do PSD e do PP.

Sócrates fala bem, mas a política não vive apenas de palavras bonitas ou dos recursos oratórios. Esta entrevista é negação da ambição dum líder: para se chegar ao poder é preciso mostrar ideias ou propostas e, depois, convencer as pessoas de que se é capaz de as executar, uma vez conquistado o poder.

José Sócrates candidato parece ter predido o fulgor de José Sócrates ministro, que enfrentou dossiês sensíveis nas áreas do ambiente ou da defesa do consumidor.

Com um discurso estilizado pela exposição mediática na RTP, ao longo dos últimos anos, Sócrates esqueceu a máxima que enunciou na entrevista: ?a política vive da verdade. Quando é baseada apenas no ?marketing? percebe-se logo o vazio atrás?.

Ungido pelos ?media?, desejado pelas bases socialistas cansadas da liderança pardacenta de Ferro Rodrigues, o Engº Sócrates está predestinado a ganhar: ganhará o momento e a liderança do PS. Não é o desejado, mas apenas o possível, na roda da sorte dos sortilégios em que a política é fértil. Ganhará, desejando que o destino e a circunstância lhe não roubem o desejado estatuto de candidato a Primeiro-Ministro. Entre este engenheiro e um outro engenheiro, vai um mundo de diferenças. Pobre PS!

16/03/2004

ANGEL BLOGS (XII) - FÉNIX ANGELICAL


Sinto-me um anjo de pés descalços.

Depois dum impenitente silêncio, regresso - direi, angelicalmente - à blogosfera.

30/10/2003

ANGEL BLOGS (XI) SINAIS DO AMOR

Ao passar de carro reparo nas letras pretas, desajeitadas, marcadas na brancura do muro, a deitar para a rua: «Volta para mim, princesa». Sem desenho, sem assinatura, sem destinatário. Apenas a intensidade do desejo amoroso, do amador para a pessoa amada. Não posso deixar de sorrir ao pensar numa mulher misteriosa, objecto de tão pública declaração de amor. Se a intensidade dum amor se medir pela manifestação pública dos afectos, então este amor, feito no desejo do regresso, só pode ser um grande amor.

28/10/2003

O OLHAR DO FRANCISCO

O aviz comenta, se calhar com razão, a vertigem comunicacional que embrulhou a inauguração do estádio da Luz. Provavelmente Francisco José Viegas refere-se à comunicação que faz submergir a informação. Não vi rigorosamente nada, pois fui ao estádio com o Francisco, o meu filho mais velho.
O brilho do olhar do Francisco ao contemplar a imensidão dum estádio duma beleza serena, é inesquecível. Aquela noite ficará nas nossas memórias como um momento mágico. Não precisamos de mais palavras.
O TRIUNFO DE BART SIMPSON

Vejo a entrevista de Jorge Sampaio a uma pool de jornalistas na RTP e não percebo bem a maioria das suas posições: continua a faltar ao Presidente da República uma clareza essencial em questões importantes para o país. O dever de reserva que a função presidencial implica, não impõe um manto de silêncio retórico, quando, na mesma entrevista, por exemplo, o Dr. Jorge Sampaio não se inibiu de preconizar uma alteração ao regime legal das escutas telefónicas. Já quanto à reforma institucional da União Europeia, para dar um exemplo contrário, o Presidente da República evitou pronunciar-se claramente sobre o referendo.
A magistratura presidencial não é uma magistratura de silêncio.

Olho, com atenção, para o maior partido da oposição e detecto aquele movimento larvar de dilaceração interna que, nos partidos, acaba por conduzir à queda das direcções políticas. O PS é hoje, já, órfão dum líder em funções e consome as suas energias na oposição interna, em vez de as dirigir para os partidos do Governo.

Bart Simpson bem poderia deixar de ser uma personagem de banda desenhada!
ANGEL BLOGS (IX) ASAS PARA VOAR

Aeroportos. Aviões. O rush habitual. Gente apressada. Gente com destino. Gente à deriva. Os aeroportos são apenas lugares de passagem, excepto, talvez, para um emigrante ilegal que viveu cerca de um ano num aeroporto de Paris e cuja história correu o mundo informativo, perante a indiferença da burocracia que remeteu aquele homem para um limbo existencial, feito de gente que passa, corredores austeros e cadeiras de plástico de má qualidade.
Compramos um bilhete de avião como se fosse um passaporte para o azul do céu, povoado de anjos.
Bom dia!

27/10/2003

ANGEL BLOGS (IX) ? ANGELICAL LEVEZA

«Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as prumas.
Na leira rasa das aves, Tu, que redras
Terra, névoas e espumas,
- Deus, de teu nome! ? sabes
Que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No anjo e ergues o incensos»

Vitorino Nemésio, Anjos, in o «O Pão e a Culpa»

21/10/2003

UM LÍDER SITIADO (II)

O líder do maior partido da oposição é sempre, potencialmente, um futuro Primeiro-Ministro. Nessa qualidade, a sua intervenção pública não pode ignorar este parâmetro político e, sobretudo, comportamental. No encerramento do congresso do PS/Açores, no passado Domingo, Ferro Rodrigues voltou a insinuar uma «cabala», uma «urdidura» – como as palavras se gastam e perdem o sentido! - contra o PS a propósito das últimas notícias de novas escutas telefónicas. De uma vez por todas, o líder do PS tem de esclarecer o país sobre uma zona de sombra no seu discurso: o PS assume ou não que o processo da Casa Pia é um processo político contra o PS, maquinado sabe-se lá por quem?
UM LÍDER SITIADO

Ferro Rodrigues é um líder sitiado. Prisioneiro da sua própria estratégia, Ferro Rodrigues, indexou o sucesso da sua liderança ao desfecho do processo judicial que envolve Paulo Pedroso. A estratégia adoptada é errada a dois níveis: primeiro, um líder político não pode condicionar o seu comportamento ao sucesso ou insucesso dum processo judicial, que de político nada tem; segundo, a voragem mediática dos dias de hoje não coincide com o tempo da justiça, sempre mais lento, por definição. Deste modo, como se está a ver, haveria sempre um gap entre as notícias sobre o processo e a decisão judicial – ou decisões judiciais.
Ferro Rodrigues ignorou que, com esta estratégia, cada novo dia noticioso, é um dia de sobressalto para a sua liderança.
Creio que o líder do PS sobreviverá mais algum tempo, pelo simples facto de nenhum dos potenciais sucessores estar pessoalmente disponível neste preciso momento, não só pela circunstância que o PS atravessa, mas também pelo facto de se avizinharem difíceis eleições europeias.
ANGEL BLOGS (VIII) – ARCO ÍRIS

A manhã ameaça chuva. Uns pingos sorrateiros surpreendem quem passeia na marginal. Uma mulher abre um guarda-chuva: um resplandecente arco-íris. Intuição feminina ou uma provocação aos deuses?
Bom-dia!

20/10/2003

AGRADECIMENTOS À CASA DE AVIZ

Agradeço, tardiamente, a referência que o aviz fez a ao ANJO DO MUNDO. Fico duplamente agradecido ao Francisco José Viegas, porque o seu blog é uma referência e a sua escrita um prazer.
Para me redimir do atraso, convido-o para fumarmos um charuto – prazer que partilhamos. Proponho um Robusto Estrela - dos Açores, claro.
Fumar um charuto é mais do que fumar um charuto. Quando fumamos um charuto convocamos a memória olfactiva única, solitária daquele charuto. Acredito que nos definimos, também, pelos charutos que fumamos. Esclareço ser possível partilhar com um amigo o prazer de fumar um charuto, a olhar o mar, não trocando mais do que algumas palavras. E eu que gosto do som palavras!
ANGEL BLOGS (VII) – RESSACA DO TEMPO


Afogado em prazos, papéis, reuniões, os dedos fugiram-me do blog. Tornei-me prisioneiro do rush dos dias que teimam em escapar. Cronos manda na nossa vida. Limito-me a convocar um dos meus poetas – Al Berto – “o tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho”.

10/10/2003

ANGEL BLOGS (VI) – UM QUADRADO DE MAR

Ouço o mar. Sinto o mar. Cheiro o mar. Não vejo o mar. A minha janela é um quadrado de mar imaginário.
O mar que me define. Que me inunda e consome.
Nunca fui capaz de viver longe do mar. Quando morrer, bastará um epitáfio simples: gostava do mar!

07/10/2003

ANGEL BLOGS (V) – TINTA PERMANENTE


O teclado do computador nunca fará morrer o prazer subtil de escrever com uma caneta de tinta permanente. As minhas memórias de escrita fazem-se dos tinteiros de louça branca, plantados nas secretárias de dois lugares, da escola primária. Da tinta azul, aguada, de má qualidade, de cheiro intenso. Do giz branco que usava para ensopar a tinta que, volta não volta, teimava em borrar o “caderno da escola” – obra laboriosa de letra trémula – ou contagiar a alvura da bata.
Do meu computador não tenho memórias para inventar!
O INSUPORTÁVEL SILÊNCIO

As novas revelações da SIC sobre as relações entre os Gabinetes de Martins da Cruz e de Pedro Lynce fazem suspeitar de que ainda há factos por apurar. Perante o que já é do domínio público, o Ministro Martins da Cruz tem de prestar públicas explicações. Se a sua opção for um diplomático silêncio, a sua permanência no Governo tornar-se-á insuportável.

06/10/2003

ANGLE BLOGS (IV) – OS ANJOS DE TERRACOTA


Quando perdem as asas, os anjos transformam-se em anjos de terracota. Ainda assim, continuarão a amar?

Bom dia!
O PREÇO DA INGENUIDADE – NOTAS QUASE TARDIAS

Pedro Lynce pagou o preço duma certa ingenuidade pessoal e política. Porque o conheço, não tenho dúvidas que agiu de boa fé em todo o caso que culminou com a sua demissão.

O voluntarismo pessoal do Prof. Pedro Lynce – uma marca da sua personalidade – levou-o a não ponderar as implicações políticas do seu despacho, que levaram a fragilização da posição do Primeiro-Ministro que agiu como teria que agir: aceitar a demissão do Ministro.

Anote-se, porém, que Durão Barroso teve um gesto significativo em relação a Pedro Lynce: ouviu-o em relação à escolha do seu sucessor.

No meio de tudo isto, fica ainda a histeria da oposição que dum temporal fez uma tempestade política, à falta de melhores argumentos para atacar o Governo ou a maioria que o suporta. Não deixa, porém, de ser sintomático dum certo estado de alma, que a prática dum acto administrativo ilegal por parte dum Ministro provoque a sua demissão.

Em tudo o mais, na política, como na vida, ainda acredito na palavra de honra. Neste domínio não comungo da visão – aparentemente – cínica de Pacheco Pereira – abrupto.
GLÓRIA FÁCIL

Agradeço a referência simpática e amiga que o glória fácil fez ao ANJO DO MUNDO. O glória fácil é de leitura obrigatória. A sua escrita a oito mãos faz-me reflectir sobre o cimento das escritas de cada um e sobre o que gostam de escrever jornalistas que estimo e cujas amizades prezo, quando não escrevem enquanto jornalistas (voltarei ao assunto brevemente).
Nalguns domínios, não há diferenças entre a blogosfera e a vida. A pretensa dicotomia entre o “cá dentro” e “lá fora” não passa duma tentativa de dividir o(s) mundo(s) com uma de linha de Tordesilhas imaginária.
Blogamos como vivemos!

02/10/2003

CARTEIRO

Anjo e hotmail parecem não combinar muito bem. A caixa de correio volta a poder receber correio, depois de uma misteriosa - será angelical - avaria.

O endereço está ao lado. mudoanjo@hotmail.com

Como já disse, nem todos os anjos do mundo são mudos!
AS TIME GOES BY

As últimas aparições públicas de João Paulo II revelam um homem de corpo alquebrado e um rosto, quase sempre, atormentado por um «rictus» de dor. O Papa é a marca do sofrimento físico e ao mesmo da anulação desse sofrimento, entendido apenas como mais um sinal de provação do corpo.

Este Papa peregrino já está para lá das limitações do que é apenas «corpore». A sua força interior, a sua determinação, ultrapassam as contingências que a idade não perdoa. Talvez por isso, seja tão amado pelos mais jovens.

Carismático, afirmativo, combativo, de uma lucidez política impressionante, renovador e conservador, carismático, popular e introspectivo, contraditório quantas vezes, abriu a Igreja Católica ao mundo. Sem ter convocado um Concílio, como o Papa João, provocou um novo «aggiornamento» na Igreja do século XX. Muitas das consequências desta mudança apenas serão perceptíveis ao longo deste novo século que está a começar. O seu longo papado foi exercido sob o signo duma Igreja no meio dos homens. O exemplo pessoal de coragem e de sacrifício do Papa fazem mais pela Igreja e pela fé no homem em comunhão com Deus do que uma nova encíclica – perdoe-se-me a quase heresia. Olho para a foto que o DN publica e fico impressionado. Penso que ninguém fica indiferente!
QUANDO O DISCURSO DEFINE O HOMEM

O discurso de Tony Blair foi um acerto de contas com o destino. O Primeiro-Ministro britânico arrebatou o congresso do New Labour e prepara-se para reconquistar os britânicos. Dum discurso para a história – e o tempo se encarregará de do dizer – ressalta a coerência em matéria de política internacional – afinal o nó górdio político do momento – e a frontalidade nas opções.
Ao assumir a sua opção quanto à intervenção no Iraque, Blair sustenta que a grande ameaça que o século XXI enfrenta é do terrorismo difuso. Num momento em que seria mais fácil emendar a mão política, Blair preferiu o caminho mais difícil: o do realismo.
Tony Blair poderá não conseguir a eleição para um terceiro mandato, mas entrou já no universo dos grandes políticos da nossa era. Importa aqui recordar que a consistência ideológica da intervenção no Iraque foi sendo construída mais pelo Primeiro Ministro britânico do que pelo Presidente americano.
Numa Europa em que escasseiam os grandes líderes – sobretudo os líderes de convicções fortes, visionários – Tony Blair conquistou um espaço por direito próprio.

01/10/2003

COISAS ANTIGAS

Numa destas madrugas de vigília, li a «Senhora dos Açores», de Romana Petri (da Cavalo de Ferro). O livro estava na mesa de cabeceira à espera das leituras que a noite impõe.

Um olhar sereno sobre uns Açores divididos entre a chegada e a partida, o negrume das tempestades e luminosidade dos sonhos. Memórias mágicas de gente que vive no mar. Um Deus que paira sobre as coisas e dentro de cada um.

Este livro é um roteiro de solidões trocadas, de sentimentos antigos.

30/09/2003

TONY BLAIR NO SEU LABIRINTO


A capa da última edição da Newsweek é poderosa: uma foto de Tony Blair, manipulada para o fazer parecer mais velho, acompanhada do título «The twilight of Tony Blair».
No congresso de Bournemouth, o líder dos trabalhistas, depois de ser um dos vencedores da guerra do Iraque, enfrenta o preço interno da sua opção: primeiro no país, depois no seu próprio partido.
O discurso de Blair, amanhã aos congressistas, será um dos mais importantes da sua carreira: nele o líder trabalhista jogará todo o seu prestígio pessoal e a sua envergadura política para provar o acerto das opções do seu Governo em matéria de política internacional, encetar um novo esforço de «damage control»a propósito do caso Kelly, mas sobretudo traçar novos desafios para a sociedade e para a política inglesas.
Tony Blair já provou que é um lutador e que se supera a si próprio nos momentos mais difíceis.
Não creio que este congresso seja ainda um sinal de viragem na política inglesa, sobretudo porque os conservadores ainda não construíram uma alternativa de governo credível. A hipótese de uma mudança de líder no seio dos trabalhistas, não sendo de afastar, não será muito provável, tendo em conta o forte ascendente de Blair sobre o partido e o apoio que – apesar de tudo – ainda goza junto dos eleitores.

29/09/2003

UMA PIADA TEOLÓGICA

As propostas que a revista italiana Jesus divulgou para uma reforma litúrgica na Igreja Católica não podem deixar nenhum católico, ou apenas cristão, indiferente. Num tempo em que a Igreja Católica tem feito um esforço para se aproximar do tempo em vivemos e para se abrir um pouco ao mundo, sem perder os seus valores de referência, a ideia de que não haverá aplausos nas Igrejas, que as celebrações ecuménicas serão restringidas, que os cânticos e as expressões de alegria serão moderadas e que as mulheres deixarão de ser interpretes da tímida abertura que os últimos permitiu (para referir apenas algumas das propostas) deixa-me constrangido, pois não é apenas um sinal de conservadorismo, antes traduzindo um mergulho na Igreja no Concílio de Trento. A Igreja para o mundo que o Vaticano II proclamou morrerá soterrada nos escombros destas medidas, que espero, não passem de uma obscura proposta de teólogos desencantados.
O Deus dos cristãos é alegria. Não pode ser um Deus arrumado em rituais enfadonhos, sisudo.
ANGEL BLOGS(III) - Intimidades

Duas mulheres, numa esplanada, falam das suas desventuras amorosas. Demasiado alto. Parecem iguais, até nisso.
As paixões não resistem à intimidade dos lugares públicos.

26/09/2003

ANGEL BLOGS (II) - D. Antonio M.

A manhã caminha andando. O mar entra para dentro de nós. Ancorados, os navios inventam marinheiros para os sonhos.

25/09/2003

COLISEU MICAELENSE – OUSAR SONHAR
Ontem, o velho Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada, viveu um dia importante na sua já longa história (foi edificado em 1917), com a assinatura do contrato de adjudicação das obras para a sua recuperação. Propriedade da Câmara Municipal de Ponta Delgada, o Coliseu Micaelense é um dos três Coliseus em Portugal, a par dos de Lisboa e do Porto e a maior sala de espectáculos dos Açores.
O Coliseu é uma memória viva da identidade cultural de S. Miguel e dos Açores e bem revelador do espírito empreendedor das gentes das ilhas, que o construíram com recurso a materiais pouco utilizados até então (o uso do ferro forjado em varandins e na cúpula, por exemplo) e sem qualquer apoio do Estado, tendo o custo do projecto e da sua construção sido suportado por um punhado de homens bons de S. Miguel que ousaram sonhar.
ANGEL BLOGS

Os anjos

Todos têm uma boca lassa
E as claras almas sem limites.
e em seus sonhos por vezes perpassa
Uma saudade (talvez de pecado)


Ana Hatherly (1929)

Bom dia!

24/09/2003

NOCTURNO INDIFERENTE

Aprender a escutar os rumores do dia que teima em fugir. Na indiferença da madrugada invento a alba.

23/09/2003

TRISTE VIDA LEVA A TELEVISÃO


Eduardo Cintra Torres, de maneira desapaixonada e impiedosa (apenas porque a realidade que retrata o é em todo o seu esplendor ) no PÚBLICO de ontem,http://jornal.publico.pt/publico/2003/09/22/Media/ROLHO.html, desconstrói o alinhamento e o conteúdo do Telejornal da RTP1, de 11 de Setembro.
A informação já não é informação, como os manuais de jornalismo a caracterizam. Também já não é «info-entertainment», como a hiper-mediatização do real impôs. A informação noticiosa, dita de serviço público (e aqui a questão é apenas de escala em relação aos serviços noticiosos das televisão privadas) é agora um terceiro género, mistura explosiva da combinação da banalização do directo com as novas «notícias» feitas de não-acontecimentos e do abuso da linguagem coloquial (nas notícias transmitidas e nos rodapés que correm a par das imagens - afinal, também notícias).
CANSADO DOS DIAS SEM CARROS

A iniciativa do «Dia sem carros»banalizou-se e provoca indiferença: dos cidadãos que a olham já como um incómodo provocado pelos «políticos», das cidades que a ela não aderem (este ano foram apenas 967 cidades em todo o mundo) ou se aderem, limitam a sua aplicação a espaços simbólicos e a curto espaço de tempo.
O problema não é do dia em si. As cidades continuam a crescer de modo pouco regrado, asfixiadas em automóveis que disputam o espaço citadino aos cidadãos. As cidades de hoje são dos carros e não das pessoas.
Recordo a expressão dum conhecido arquitecto que, em matéria de trânsito nas cidades, defendia que todos tivessem um BMW ( não, não é o que possam pensar, mas apenas o acrónimo de «bus, metro and walk»).
A experiência de Londres, ao impor uma portagem paga à entrada da cidade, que consegui já reduzir em 15% os níveis de tráfego é sedutora, embora só possa ser aplicada se existirem alternativas rápidas, fiáveis, confortáveis.
As cidades precisam de mais políticas corajosas e menos discursos piedosos em dias sem carros.

20/09/2003

AS PALAVRAS QUE NÃO DIREI
Aprecio muito a poesia Manuel Alegre. Compreendo mal as suas recentes declarações políticas, quando afirma “que vivemos hoje num clima perverso do que no tempo da ditadura” (cito de memória).
Para alguém como Manuel Alegre, que viveu e sofreu em ditadura, a frase é insultuosa para as suas próprias memórias pessoais. Percebo que Manuel Alegre queira, no plano do discurso político enfatizar os problemas do Estado de Direito. Não percebo, porém, a relativização entre democracia e ditadura que a frase induz, sobretudo quando é proferida por um indiscutível democrata.
A frase de Manuel Alegre é bem sintomática da desvalorização do discurso político em Portugal e da sua degradação no plano conceptual.
A frase sendo um bom “sound-byte” (que jornalista desdenharia abrir um noticiário com ela) é produto do sacrifício da coerência à conveniência.
SEM PALAVRAS

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


Herberto Hélder «Os Amigos»

19/09/2003

EVERY TIME

Ouço Ella Fitzgerald a cantar uma belíssima canção de Cole Porter «Every time we say goodbye» e reconcilio-me com o meu dia.
Há magia indefinível em pequenas coisas, pequenos nadas que expulsam a desordem do rush do dia-a-dia: uma canção, um olhar, um poema e o mar.
Sempre o mar.
OVER THE RAINBOW

Depois duma tarde de chuva, o arco-íris torna-se imperador dos céus. Um miúdo, seduzido pelo fenómeno, pergunta ao pai: «Se eu andar em cima do arco-íris posso cair?».
Não há Homens-de-Lata. Judy Garland também não está aqui.

18/09/2003

UMA FERIDA NA NOITE

Sem anúncio prévio, o anoitecer desfez-se em aguaceiros. Ponta Delgada mergulhou em aguarias. O negrume do princípio da noite transformou-se num espectáculo de raios a dançarem, num rodopio de cabra-cega, obedecendo às ordens dum demiurgo invisível. A trovoada assenhorou-se da ilha, a coberto duma escuridão de breu. Sem luz, a não ser a dos carros nas ruas, a ilha parecia um animal ferido, a boiar durante horas num azul eléctrico, de feridas luminosas num céu invisível. Nestas alturas, os sentidos apuram-se mais e parece que tomamos consciência de coisas e seres voláteis que aparecem e desaparecem com o anúncio ribombante do próximo raio.
Só pela madruga é que a cidade e a ilha saíram da twilight zone !

16/09/2003

QUANDO AMANHECEMOS

Por vezes, as manhãs começam com a irrupção dos cheiros da madrugada. A adivinhação dum novo dia confunde-se na cor dos sonhos. As manhãs doem sempre.

15/09/2003

A CONSTITUIÇÃO E OS COELHOS NA CARTOLA

A proposta do PS para a revisão constitucional, condicionando a revisão constitucional apenas ao capítulo das Regiões Autónomas e apenas no caso de haver acordo com o PSD para a alteração das leis eleitorais nos Açores e na Madeira, tendo em conta as próximas eleições regionais de 2004 é um absurdo político.
Primeiro, porque a história política ensina isso mesmo, os partidos que estão na oposição é que procuram liderar os processos de revisão constitucional, deles retirando dividendos políticos (veja-se o que sucedeu com a revisão constitucional de 1997). Por isso mesmo, um partido da oposição defende uma revisão constitucional extensa, como forma de alargar a dimensão da vitória sobre o partido do poder.
Em segundo lugar, porque pretender uma revisão constitucional sob chantagem ao partido do poder sobre uma área que – embora importante – não justifica a urgência dum processo de revisão é dar um tiro no próprio pé, bastando para tal que o partido no poder (neste caso a coligação) entenda não ser relevante uma revisão constitucional circunscrita.
Em terceiro lugar, o PS ficou refém da sua própria proposta: a condição imposta é demasiado denunciada: o PS olha para a possibilidade de alteração das leis eleitorais com um olhar “guloso” sobre as próximas eleições regionais, em especial nos Açores, onde é poder.
Por fim, ao querer rever agora a Constituição, para voltar a revê-la depois duma hipotética aprovação da Constituição Europeia, o PS nega os pressupostos da sua própria proposta: então porque não esperar mais algum tempo para rever a Constituição num único e singular processo?
O coelho que Ferro Rodrigues pretendeu tirar da cartola, afinal parece ter orelhas de burro!
REGRESSO ÀS AULAS

No início de mais um ano escolar, a informação é rotineira, mastigada de ano para ano: o preço dos livros, o número de alunos, esta ou aquela escola com problemas na abertura, o optimismo do discurso político oficial.
As referências a questões mais fundas do sistema educativo está arredada das agendas mediáticas: vende mais e melhor a notícia de que uma mochila do Harry Potter é a novidade do ano escolar, do que a discussão sobre as causas da ineficiência do sistema educativo na preparação dos alunos do secundário nas designadas como disciplinas das “ciências” – matemática, física ou química, para citar apenas algumas - as repercussões da diminuição do número de alunos no sistema sobre as políticas públicas, a política de adopção dos manuais escolares ou as razões da efectiva desigualdade de escolha entre o ensino público e o ensino particular.
Como de costume, os portugueses optam por debater o acessório, o imediato, sem se deterem sobre a razão das coisas.

09/09/2003

PARADOXOS URBANOS

No semáforo, ao meu lado, pára um pequeno Smart. Ao volante, uma jovem mulher, come um gelado “Magnum”!
LEITURAS RÁPIDAS

Ainda de férias, entro na tabacaria dum centro comercial para comprar jornais. Sobre uma bancada central, repleta de revistas "do coração", o aviso breve e incisivo não passa despercebido: "Não é permitida a leitura demorada". O anúncio é singelo no contributo que dá no combate às baixas taxas de leitura da imprensa portuguesa: as revistas podem ser lidas ...rapidamente.
De modo quase irónico, o anúncio, implicitamente, assume a natureza "séria" destas publicações: a densidade do seu conteúdo leva a que o honesto livreiro recomende uma leitura rápida...
Assim temos Portugal no coração ... das letras.

07/09/2003

ACREDITAR PARA QUÊ?

A frase é de Santo Anselmo: "acredito de modo que possa compreender". Os mistérios da Fé e a complexidade do mundo reduzidos à dimensão humana.

05/09/2003

O DÉFICE DE UNS E AS VIRTUDES DE OUTROS

O Ministério das Finanças anunciou que o défice público para este ano será de 2,944%, pelo que se conterá dentro dos limites do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Num visível esforço, o Governo procura cumprir o “compromisso de honra”, como o designou o Ministro Morais Sarmento, à custa da contenção real das despesas públicas, mas também de elaboradas operações contabilísticas de venda e de englobamento de património. Ao mesmo tempo, o Primeiro-Ministro francês anuncia uma descida nos impostos sobre os rendimentos, quando se prevê um défice público da ordem dos 4%. Quando o PEC foi uma imposição dos grandes (da Alemanha e da França, sobretudo) para conter os desmandos económicos dos pequenos países da União, é, pelo menos irónico que um dos grandes não cumpra o PEC e faça gala em não o cumprir, confiando que a retoma do investimento induzida pela despesa pública sirva melhor os interesses económicos da França.
O esforço de contenção económica do governo é louvável em termos gerais e o seu ímpeto reformista é assinalável, mas em matéria de défice público, o Governo deveria ser menos inflexível, sobretudo quando está provado que a verdadeira redução do défice assenta na redução da despesa pública corrente.
A SUAVE LENTIDÃO DAS MANHÃS

Por vezes, gosto das manhãs. Acordar mais cedo, sentir o dia a espreguiçar-se, escutar os sons das coisas. De férias, deixo-me levar por esta indolência matinal e por rotinas invulgares para o dia-a-dia: sair para comprar os jornais e regressar a casa, para os ler, vagarosamente à hora do pequeno-almoço. Saborear o mundo sem impaciências. Olhar o céu à noite, tentando adivinhar o meu nome nas estrelas.

29/08/2003

SUAVE PERFUME DA BOLA

Didi, jogador do "escrete" campeão do mundo em 1958 e inventor do célebre livre em folha-seca, dizia que "o jogador de futebol devia colocar uma bola debaixo da cama para, logo ao acordar, a tocar, acariciar, dar o primeiro toque, ganhar sensibilidade e, assim criar intimidade com ela" O "princípe etíope", como lhe chamaram, sabia do que falava. A relação do jogador com a bola é um acto íntimo, de volúpia que se consome e renova em cada jodada. O futebol paixão alimenta-se dos momentos mágicos e sobrevive na fé individual de cada espectador.
A fé é paixão, que se alimenta e renova em cada jogo, em cada instante de cada jogo. Não é racional. Não se explica. Apenas nos consome. Ganhamos e perdemos em cada jogo. Gosto de futebol. Não percebo nada "do"futebol.

28/08/2003

CAOS

Serenamente, vou descobrindo os novos caminhos da blogosfera e da entrada duma nova faceta da informática na minha vida.
A Sofia foi preciosa. Obrigado Sofia.
Sei que para os meus leitores o nome não passa duma referência. Ainda assim o agradecimento é devido.Sei, também, que ela amanhã irá sorrir embaraçada, quando visitar o blogue.
Pelo menos um leitor terei!

27/08/2003

INFOLOGIAS

Socraticamente luto com o lado subterrâneo da blogosfera: como fazer o quê?

Para além da tentativa/erro vale-me a simpatia da Sofia que prometeu ajudar-me a pôr em ordem as cedilhas e os acentos fugidios e arrumar na prateleira certa o contador e o e-mail para os comentários.

Entretanto, lá fora, o planeta vermelho continua à espera.
Eternidade

Marte está ao canto do olhar. Apenas a cinquenta e três milhões de quilómetros. Sentimo-nos pequenos e perdidos num universo que desconhecemos. Hoje, estamos mais perto do infinito.

26/08/2003

O céu dos corvos

Os corvos afirmam que um só corvo poderia destruir os céus. E sem dúvida assim é, mas o facto não prova nada contra os céus, porque os céus não significam mais do que a impossibilidade dos corvos.

Franz Kafka, Reflexões sobre o pecado, a dor, a esperança e o verdadeiro caminho
Comentários

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Nem todos os anjos do mundo são mudos!
Late blog


A esperança determinada. Apenas!

Não se resume apenas a uma longa espera, como a dum célebre coronel de Garcia Marquez, para quem esperar era a única forma de esperança.

Blogar será uma forma de esperança?