11/12/2004
08/12/2004
07/12/2004
Oito dias após o início da crise política em que o país está mergulhado, já é quase um lugar comum dizer-se que serão quase irrelevantes os argumentos que o Presidente da República usará para justificar o seu acto discricionário de dissolução da Assembleia da República.
Os portugueses já perceberam que não foi apenas a demissão do Dr. Chaves, o discurso da "incubadora" ou qualquer um dos desacertos da governação de Santana Lopes que, por si só, justificaram a dissolução: o comportamento do Dr. Jorge Sampaio revela que ele teve a percepção de que a maioria política no parlamento e no governo já não se identificaria com o sentimento dominante da sociedade portuguesa e que a melhor forma de apurar se a maioria política corresponderia à maioria sociológica conjuntural era através do voto.
Tomando como bom este argumento, então não se compreende que o Presidente da República tenha adiado a assinatura do decreto da dissolução da Assembleia da República para data posterior à da aprovação do orçamento de estado. A atitude do Dr. Jorge Sampaio é mesmo contraditória: se a actual maioria precisa de relegitimação por meio de sufrágio popular, então, o orçamento de estado que é uma das expressões mais evidentes das opções de governação está ferido de morte.
A dissolução da Assembleia da República em "slow motion" encetada pelo Presidente da República é um acto que pretende agradar a "Deus e ao diabo". Ao dissolver o Presidente reconcilia-se com a sua família política, agarrando um pretexto útil fornecido por um Governo que não soube acautelar a sua estabilidade interna como contra-peso às condições estabelecidas pelo Presidente da República em Julho, quando nomeou o Dr. Santana Lopes como Primeiro-Ministro. Aos olhos dos portugueses, o Presidente da República pretende assumir uma atitude responsável, ao dissolver, permitindo que o orçamento seja aprovado.
Nesta crise, o Dr. Jorge Sampaio revelou ? uma vez mais ? que a gestão do tempo político não é a sua especialidade. A sua comunicação ao país sobre as razões da dissolução é quase irrelevante e a consulta ao Conselho de Estado e aos partidos foi transformada numa trivialidade, despida de sentido institucional.
Com esta dissolução ? com a qual não concordo, embora possa entender as razões do Presidente da República ? ocorreu uma reinterpretação do poder presidencial de dissolução do parlamento, agora lido à luz da teoria das catástrofes: um bater de asas no governo, provoca, não uma tempestade em New York, mas a dissolução do parlamento, ainda que a maioria seja absoluta e sólida.
Em todo este episódio, o PSD tem de queixar, maioritariamente, de si próprio, pela maneira atabalhoada como a governação foi exercida nos últimos quatro meses. Nem todos os episódios da governação serão relevantes para determinar o carácter do executivo, mas a verdade é que o exercício do poder bem poderia ter sido mais eficaz, equilibrado e consentâneo com o que se esperaria dum Governo na segunda metade da legislatura.
O PS parte para as próximas eleições com a tarefa facilitada pelo facto da dissolução lhe ter caído ao colo: há eleições, muito embora o unido mérito do Engº Sócrates seja apenas o de existir. Escorado no seguro-caução de António Vitorino, o Engº Sócrates apresenta-se aos portugueses como o sucedâneo de outro engenheiro, do qual, aliás, é filho político dilecto. Apesar do momento, o PS ainda não ganhou as eleições e muito menos com maioria absoluta.
Os próximos dias são cruciais para os portugueses perceberem a espessura política de José Sócrates.
30/11/2004
29/11/2004
28/11/2004
26/11/2004
25/11/2004
No dia em que se inicia o julgamento do processo "Casa Pia", a imprensa re-descobre um filão mediático. O DN faz manchete com o tema, com um título de dupla leitura."O dia do juízo" leva de imediato o leitor a uma associação com o cristão dia do "juízo final" em que os justos serão premidados e os prevaricadores castigados. O título surge sobre uma foto, em cujo primeiro palno se vê uma câmara de filmar, num plano elevadíssimo sobre a rua, convocando o leitor a um "voyeurismo" cúmplice. Com as limitações impostas à comunicação social pelo Colectivo, o novo espaço mediático está circunscrito à rua e à opinião pública, a partir dos comunicados diários que o Tribunal irá emitir.
A imagem da câmara é também metafórica: o jornal diz aos seus leitores que a verdade está ali, porque o senso comum diz-nos que as câmaras não mentem. Porém, como todos sabemos, issojá não é verdade!
Como revela a mesma edição, em estudo realizado pela Marktest, a maioria dos portugueses não acredita num resultado justo neste processo. É a ideia recorrente de que "os ricos e poderosos se safam e os pobres se lixam".
Para que conste, devo dizer que acredito na Justiça portuguesa.
Deixo abaixo extracto dum texto com dois anos, sobre a relação da justiça com os "media", que continua actual.
Ao longo do último ano, os media descobriram a justiça como um filão - umas vezes da informação, outras apenas do "info-entretainment" - e a sociedade portuguesa constatou que nenhuma classe social - por mais influente ou poderosa que seja - está acima da justiça.
Com gente da política, do espectáculo, de classes sociais prestigiadas como arguidos em processos de grande impacto, a tentação de discutir os "contornos" de cada caso na hora do jantar ou no cabeleireiro tornou-se num novo passatempo dos portugueses.
Comenta-se o que não se conhece e julga-se, absolvendo ou condenando na praça pública, o que se ignora em absoluto.
Advogados, jornalistas, arguidos - através de interpostos porta-vozes - alimentam a corrente de opinião, umas vezes pública, outras apenas publicada, fazendo do segredo de justiça uma figura de retórica legislativa.
A discussão mais séria sobre a natureza da prisão preventiva ou da aplicação de determinadas medidas de coacção, em geral, sobre o estatuto dos arguidos e a relação de forças processual entre estes e o Ministério Público, titular do inquérito, sai sempre prejudicada quando é feita - como tem sido quase sempre - por acalorados "protagonistas" dos casos judiciais mais mediáticos, que persistem em confundir "culpa formada" com "indícios de actividade criminosa".
A pulsão da "court tv" está definitivamente instalada em Portugal, numa evidente contradição do uso do tempo: o tempo das decisões da justiça - de política legislativa ou de decisões jurisdicionais - é mais lento do que o tempo mediático que atravessamos.
A justiça não pode ser como os girassóis, que se voltam todos os dias à procura do sol.
24/11/2004
22/11/2004
19/11/2004
17/11/2004
As palavras são de Fernando Menezes, na tomada de posse do IX Governo Regional dos Açores, perante a Assembleia Legislativa:
"Quero ainda dizer-lhe, Senhor Presidente, que à frente desta Assembleia Legislativa está também um socialista que, sem prejuízo do respeito pela isenção institucional a que este elevado cargo obriga, lhe expressa neste momento tão significativo para todos nós, a sua solidariedade e o seu empenhamento para os desafios que haveremos de enfrentar nos próximos quatro anos."
No momento em que, pela primeira vez, o Governo toma posse perante o parlamento, as palavras que cito reflectem uma ideia errada sobre o papel do parlaemnto no nosso sistema constuticional autonómico.
As palavras de Fernando Menezes não são um bom augúrio.
1. A ASSEMBLEIA LEGISLATIVA - O novo parlamento regional iniciou funções, num quadro de renovação dos Deputados dos vários partidos com assento parlamentar, podendo augurar um novo tipo de postura no debate parlamentar. Com excepção do líder do PP, os Deputados da geração dos "founding father's" já não estão no parlamento regional, marcando-se, deste modo, uma transição de gerações - natural, pelas leis da vida - no terreno parlamentar. A Assembleia Legislativa padece de velhos vícios - nas rotinas, no funcionamento, no afastamento dos cidadãos, na excessiva permissividade das regras de substituição dos Deputados, que confundem os eleitores e penalizam o trabalho parlamentar, na reduzida eficácia como órgão de fiscalização política e na reduzida produção legislativa - a corrigir ou eliminar com urgência, em nome da credibilização do parlamento.
O desafio é lançado à robusta maioria parlamentar do PS para que aceite reformar o parlamento, ao invés de efectuar meras operações de cosmética, como sucedeu com as alterações ao regimento por si aprovadas, há bem pouco tempo. As reformas não se concretizam com piedosas proclamações, mas com atitudes decididas.
2. A ELEIÇÃO DE FERNANDO MENEZES - A eleição do Presidente do Parlamento com menos votos do que qualquer um dos outros membros da mesa é um sinal inequívoco de que os Deputados não se revêem na sua actuação no cargo e, sobretudo, na subalternização do Parlamento à maioria do PS. O Dr. Fernando Menezes não pretende modificar nada no Parlamento, em consonância com a posição do seu partido, como ficou claro nas tíbias palavras que ontem proferiu, depois da eleição. Fernando Menezes não ambiciona nada e contenta-se com muito pouco!
3. O NOVO GOVERNO - O novo governo é uma espécie de "quinta das celebridades" do socialismo açoriano, combinando a boa tradição de promoção do aparelho socialista, com a tentativa de refrescamento com personalidades cujos percursos não demonstram qualidades para o exercício das funções. O tempo dirá se tenho razão ou não, mas estou convencido que neste governo há vários erros de "casting".
A novidade mais notória é a criação do lugar de Vice-Presidente do Governo, para Sérgio Ávila, uma das estrelas socialistas. Depois do Presidente do Governo ter afastado publicamente - em entrevista à RTP/Açores - a possibilidade do Vice-Presidente poder vir a ser o seu sucessor na liderança socialista, o que faz correr Sérgio Ávila?
O Dr. Ávila fará no Governo aquilo que de melhor sabe fazer: administrar as ambições dos outros e utilizar os lugares que ocupa para consolidar a sua posição política. O Dr. Ávila ganhou um presente envenenado: na formação do governo ajustou as suas contas políticas com os adversários internos da Terceira, pagando o elevado preço de ser arredado publicamente pelo Presidente do PS da lista dos potenciais sucessores. Porém, como sabemos, na política nada é eterno ou imutável?
Apesar de Vasco Cordeiro poder ter sorrido, a verdade é que no equilíbrio das posições relativas, saiu a perder para o Dr. Ávila. Acantonado nas relações com o Parlamento e tendo de gerir a truculência de Francisco Coelho, a posição do ex-Secretário da Agricultura é delicada.
Carlos César baralhou o jogo da sucessão, inevitavelmente aberto pelas suas próprias declarações, apresentando um governo renovado, mas modesto.
Quanto ao resto, todos sabemos muito bem que a pasta dentífrica nunca volta a entrar no tubo.
11/11/2004
O frio cortante da noite é surpreendido por um intenso cheiro a incenso, a lembrar que pisamos chão sagrado. Isaías e Jeremias, na sua imobilidade de pedra, guardam silenciosamente a noite estrelada, vigiando os passos peregrinos que se aventuram na tranquilidade da memória ancestral da fé. Majestoso, abandonado no repouso que só a noite dá, o Bom Jesus de Braga debruça-se sobre o presépio da cidade, lá em baixo.
Boa noite!
Independentemente dos juízos políticos ou morais sobre os seus comportamentos, o tempo e a sua persistência pessoal tornaram Arafat num personagem incontornável num processo que há-de levar à criação dum estado palestiniano. A sua morte poderá representar um nova - talvez derradeira -oportunidade para a paz. "Give peace a chance", como na canção!
09/11/2004
(Muro de Berlin - Julho de 1974)
Faz sentido, hoje, doze anos depois do seu derrube, lembrar o muro de Berlim? Faz tanto sentido como lembrar o holocausto e as suas vítimas, o Cambodja, Beirute, Mostar ou a ilusão Cubana, na semana em que Fidel fez setenta e cinco anos.
Em nome de uma ideologia, perante a avaliação equívoca das outras potências vencedoras da guerra, os soviéticos muraram um sector de uma cidade, pensando aprisionar os homens e as suas consciências.
Em nome dum marxismo igualitário, os soviéticos esmagaram as liberdades individuais em favor do ?bem-estar colectivo?. A realização do ?socialismo real? era a mola utópica que determinava tais actos.
Da utopia do ?socialismo real? pouco há a dizer, pois pouco resta nos dias de hoje. Contudo, é essencial que a nossa memória não se apague, sobretudo quando alguns, em nome deste socialismo, procuram fazer re-leituras da história, legitimando discursiva e intelectualmente alguns dos fundamentos que levaram à construção do ?muro da vergonha?.
A construção do muro foi um braço de ferro com a democracia. Com a democracia que hoje vivemos, com as suas virtudes, com os seus defeitos, com as suas imperfeições. Uma democracia contraditória, é certo, que não é o fim da história, no sentido que lhe deu Francis Fukuyama, mas que não precisou de construir muros para se impôr.
Milan Kundera dizia que a luta contra o poder (totalitário) era a luta da memória contra o esquecimento. Uma das viagens que mais contribuiu para a minha formação cívica e política, foi uma viagem a Berlim Ocidental e depois a Berlim-Leste, no início dos anos 80, ainda estudante de Direito. Impressionou-me muito sentir a cidade dividida, o contraste entre a vida junto ao muro, do lado ocidental, e o silêncio sepulcral na terra de ninguém, minada, vedada e vigiada, junto ao mesmo muro, do lado de lá, as tarjas pretas nas bandeiras dos Land de leste, no interior do Parlamento de Berlim. Para já não falar no choque brutal que era atravessar a fronteira e mergulhar em Berlim-Leste: um regresso ao passado, literalmente.
Tenho no escritório, dentro duma caixinha de vidro, um pedacinho desse muro. Para não esquecer!
07/11/2004
O Ministro Álvaro Barreto, citado pelo PÚBLICO http://www.publico.pt, num tom que não deixa margens para dúvidas, critica de modo implícito o seu colega Rui Gomes da Silva. Não deixando de concordar com as palavras de Álvaro Barreto, creio que um Ministro em funções não pode dizer o que ele diz, sem essa declaração envolva uma quebra de solidariedade política, não apenas com o colega em causa, mas com o Primeiro-Ministro. Neste domínio, Álvaro Barreto não pode ter opinião como cidadão, já que não pode deixar de ser Ministro quando faz a afirmação que faz.
A declaração do Engº Barreto é surpreendente e bem reveladora dum certo modo de fazer política, assente na ideia as declarações ou atitudes "politicamente correctas" têm um condão salvífico e tal como o tide, podem lavar tudo. Muito pelo contrário, é com este tipo de atitudes que a classe política se descredibiliza aos olhos, cada vez mais argutos, dos cidadãos e dos eleitores.
O Engº Barreto disse o que não podia dizer, a menos que, com aquela declaração - o que não acredito - pretenda deixar o Governo.
Recomeço, a partir de hoje, a escrita no blogue. Sacudo a poeira das palavras que não escrevi, a tentação de olhar os dias andados e não contados. Não falo do passado. Não penso no passado, porque não vivo para o passado. Com Heraclito aprendemos que a água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Assim é. Escrevo agora, muito depois das Trindades, a pensar no dia de amanhã. A pensar, sempre, no tempo que vem atrás do tempo. De nada me vale ficar, sorumbático, a mirar o relógio, na vã esperança de surpreender a marcha dos ponteiros...
Convoco a esperança que serve de mote ao blogue, para dizer que ela não é resignada, lembrando sempre a história dum certo coronel, contado por García Marquez, para quem esperar era a única forma de esperança.
Convoco, ainda, um dos meus poetas - Ary dos Santos - para recordar esse verso do Soneto Presente:
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Assim mesmo: não estou aqui. Sou daqui!
Boa noite
02/08/2004
01/08/2004
SÓCRATES E A PALAVRA CAPRICHOSA
Tanscrevo abaixo a crónica que publiquei no Açoriano Oriental de ontem. Nesta época pré-eleitoral, a entrevista de José Sócrates ao Expresso permite um conjunto de reflexões mais alargadas sobre a política e os seus protagonistas que procurarei ir fazendo neste ANJO DO MUNDO.
Há em José Sócrates uma perturbante tentação para a voragem da frase solta, para uma espécie de ?fast-food? político, de bom-tom, mas vazio de conteúdo. Para um homem que, como candidato a líder socialista, se assume também como candidato a Primeiro-Ministro, a entrevista que deu ao ?Expresso? é uma desilusão.
Se a entrevista é o espelho do pensamento político do mais do que certo futuro líder socialista, então o PS deve preparar-se para permanecer na oposição por longos anos.
Sem fulgor e sem rasgo, José Sócrates deixa arrastar a entrevista, sem que o comum dos leitores consiga perceber o quer para Portugal o homem que ambiciona sentar-se na cadeira na qual se sentou um dia seu mentor António Guterres. Sabemos que José Sócrates leu muito, tal a profusão de citações ? de Miguel Torga a Karl Popper ? mas ignoramos que propostas políticas o distinguem, não só dos outros candidatos, como do PSD e do PP.
Sócrates fala bem, mas a política não vive apenas de palavras bonitas ou dos recursos oratórios. Esta entrevista é negação da ambição dum líder: para se chegar ao poder é preciso mostrar ideias ou propostas e, depois, convencer as pessoas de que se é capaz de as executar, uma vez conquistado o poder.
José Sócrates candidato parece ter predido o fulgor de José Sócrates ministro, que enfrentou dossiês sensíveis nas áreas do ambiente ou da defesa do consumidor.
Com um discurso estilizado pela exposição mediática na RTP, ao longo dos últimos anos, Sócrates esqueceu a máxima que enunciou na entrevista: ?a política vive da verdade. Quando é baseada apenas no ?marketing? percebe-se logo o vazio atrás?.
Ungido pelos ?media?, desejado pelas bases socialistas cansadas da liderança pardacenta de Ferro Rodrigues, o Engº Sócrates está predestinado a ganhar: ganhará o momento e a liderança do PS. Não é o desejado, mas apenas o possível, na roda da sorte dos sortilégios em que a política é fértil. Ganhará, desejando que o destino e a circunstância lhe não roubem o desejado estatuto de candidato a Primeiro-Ministro. Entre este engenheiro e um outro engenheiro, vai um mundo de diferenças. Pobre PS!
16/03/2004
30/10/2003
Ao passar de carro reparo nas letras pretas, desajeitadas, marcadas na brancura do muro, a deitar para a rua: «Volta para mim, princesa». Sem desenho, sem assinatura, sem destinatário. Apenas a intensidade do desejo amoroso, do amador para a pessoa amada. Não posso deixar de sorrir ao pensar numa mulher misteriosa, objecto de tão pública declaração de amor. Se a intensidade dum amor se medir pela manifestação pública dos afectos, então este amor, feito no desejo do regresso, só pode ser um grande amor.
28/10/2003
O aviz comenta, se calhar com razão, a vertigem comunicacional que embrulhou a inauguração do estádio da Luz. Provavelmente Francisco José Viegas refere-se à comunicação que faz submergir a informação. Não vi rigorosamente nada, pois fui ao estádio com o Francisco, o meu filho mais velho.
O brilho do olhar do Francisco ao contemplar a imensidão dum estádio duma beleza serena, é inesquecível. Aquela noite ficará nas nossas memórias como um momento mágico. Não precisamos de mais palavras.
Vejo a entrevista de Jorge Sampaio a uma pool de jornalistas na RTP e não percebo bem a maioria das suas posições: continua a faltar ao Presidente da República uma clareza essencial em questões importantes para o país. O dever de reserva que a função presidencial implica, não impõe um manto de silêncio retórico, quando, na mesma entrevista, por exemplo, o Dr. Jorge Sampaio não se inibiu de preconizar uma alteração ao regime legal das escutas telefónicas. Já quanto à reforma institucional da União Europeia, para dar um exemplo contrário, o Presidente da República evitou pronunciar-se claramente sobre o referendo.
A magistratura presidencial não é uma magistratura de silêncio.
Olho, com atenção, para o maior partido da oposição e detecto aquele movimento larvar de dilaceração interna que, nos partidos, acaba por conduzir à queda das direcções políticas. O PS é hoje, já, órfão dum líder em funções e consome as suas energias na oposição interna, em vez de as dirigir para os partidos do Governo.
Bart Simpson bem poderia deixar de ser uma personagem de banda desenhada!
Aeroportos. Aviões. O rush habitual. Gente apressada. Gente com destino. Gente à deriva. Os aeroportos são apenas lugares de passagem, excepto, talvez, para um emigrante ilegal que viveu cerca de um ano num aeroporto de Paris e cuja história correu o mundo informativo, perante a indiferença da burocracia que remeteu aquele homem para um limbo existencial, feito de gente que passa, corredores austeros e cadeiras de plástico de má qualidade.
Compramos um bilhete de avião como se fosse um passaporte para o azul do céu, povoado de anjos.
Bom dia!
27/10/2003
«Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as prumas.
Na leira rasa das aves, Tu, que redras
Terra, névoas e espumas,
- Deus, de teu nome! ? sabes
Que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No anjo e ergues o incensos»
Vitorino Nemésio, Anjos, in o «O Pão e a Culpa»
21/10/2003
O líder do maior partido da oposição é sempre, potencialmente, um futuro Primeiro-Ministro. Nessa qualidade, a sua intervenção pública não pode ignorar este parâmetro político e, sobretudo, comportamental. No encerramento do congresso do PS/Açores, no passado Domingo, Ferro Rodrigues voltou a insinuar uma «cabala», uma «urdidura» – como as palavras se gastam e perdem o sentido! - contra o PS a propósito das últimas notícias de novas escutas telefónicas. De uma vez por todas, o líder do PS tem de esclarecer o país sobre uma zona de sombra no seu discurso: o PS assume ou não que o processo da Casa Pia é um processo político contra o PS, maquinado sabe-se lá por quem?
Ferro Rodrigues é um líder sitiado. Prisioneiro da sua própria estratégia, Ferro Rodrigues, indexou o sucesso da sua liderança ao desfecho do processo judicial que envolve Paulo Pedroso. A estratégia adoptada é errada a dois níveis: primeiro, um líder político não pode condicionar o seu comportamento ao sucesso ou insucesso dum processo judicial, que de político nada tem; segundo, a voragem mediática dos dias de hoje não coincide com o tempo da justiça, sempre mais lento, por definição. Deste modo, como se está a ver, haveria sempre um gap entre as notícias sobre o processo e a decisão judicial – ou decisões judiciais.
Ferro Rodrigues ignorou que, com esta estratégia, cada novo dia noticioso, é um dia de sobressalto para a sua liderança.
Creio que o líder do PS sobreviverá mais algum tempo, pelo simples facto de nenhum dos potenciais sucessores estar pessoalmente disponível neste preciso momento, não só pela circunstância que o PS atravessa, mas também pelo facto de se avizinharem difíceis eleições europeias.
20/10/2003
Agradeço, tardiamente, a referência que o aviz fez a ao ANJO DO MUNDO. Fico duplamente agradecido ao Francisco José Viegas, porque o seu blog é uma referência e a sua escrita um prazer.
Para me redimir do atraso, convido-o para fumarmos um charuto – prazer que partilhamos. Proponho um Robusto Estrela - dos Açores, claro.
Fumar um charuto é mais do que fumar um charuto. Quando fumamos um charuto convocamos a memória olfactiva única, solitária daquele charuto. Acredito que nos definimos, também, pelos charutos que fumamos. Esclareço ser possível partilhar com um amigo o prazer de fumar um charuto, a olhar o mar, não trocando mais do que algumas palavras. E eu que gosto do som palavras!
Afogado em prazos, papéis, reuniões, os dedos fugiram-me do blog. Tornei-me prisioneiro do rush dos dias que teimam em escapar. Cronos manda na nossa vida. Limito-me a convocar um dos meus poetas – Al Berto – “o tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho”.
10/10/2003
07/10/2003
O teclado do computador nunca fará morrer o prazer subtil de escrever com uma caneta de tinta permanente. As minhas memórias de escrita fazem-se dos tinteiros de louça branca, plantados nas secretárias de dois lugares, da escola primária. Da tinta azul, aguada, de má qualidade, de cheiro intenso. Do giz branco que usava para ensopar a tinta que, volta não volta, teimava em borrar o “caderno da escola” – obra laboriosa de letra trémula – ou contagiar a alvura da bata.
Do meu computador não tenho memórias para inventar!
As novas revelações da SIC sobre as relações entre os Gabinetes de Martins da Cruz e de Pedro Lynce fazem suspeitar de que ainda há factos por apurar. Perante o que já é do domínio público, o Ministro Martins da Cruz tem de prestar públicas explicações. Se a sua opção for um diplomático silêncio, a sua permanência no Governo tornar-se-á insuportável.
06/10/2003
Pedro Lynce pagou o preço duma certa ingenuidade pessoal e política. Porque o conheço, não tenho dúvidas que agiu de boa fé em todo o caso que culminou com a sua demissão.
O voluntarismo pessoal do Prof. Pedro Lynce – uma marca da sua personalidade – levou-o a não ponderar as implicações políticas do seu despacho, que levaram a fragilização da posição do Primeiro-Ministro que agiu como teria que agir: aceitar a demissão do Ministro.
Anote-se, porém, que Durão Barroso teve um gesto significativo em relação a Pedro Lynce: ouviu-o em relação à escolha do seu sucessor.
No meio de tudo isto, fica ainda a histeria da oposição que dum temporal fez uma tempestade política, à falta de melhores argumentos para atacar o Governo ou a maioria que o suporta. Não deixa, porém, de ser sintomático dum certo estado de alma, que a prática dum acto administrativo ilegal por parte dum Ministro provoque a sua demissão.
Em tudo o mais, na política, como na vida, ainda acredito na palavra de honra. Neste domínio não comungo da visão – aparentemente – cínica de Pacheco Pereira – abrupto.
Agradeço a referência simpática e amiga que o glória fácil fez ao ANJO DO MUNDO. O glória fácil é de leitura obrigatória. A sua escrita a oito mãos faz-me reflectir sobre o cimento das escritas de cada um e sobre o que gostam de escrever jornalistas que estimo e cujas amizades prezo, quando não escrevem enquanto jornalistas (voltarei ao assunto brevemente).
Nalguns domínios, não há diferenças entre a blogosfera e a vida. A pretensa dicotomia entre o “cá dentro” e “lá fora” não passa duma tentativa de dividir o(s) mundo(s) com uma de linha de Tordesilhas imaginária.
Blogamos como vivemos!
02/10/2003
As últimas aparições públicas de João Paulo II revelam um homem de corpo alquebrado e um rosto, quase sempre, atormentado por um «rictus» de dor. O Papa é a marca do sofrimento físico e ao mesmo da anulação desse sofrimento, entendido apenas como mais um sinal de provação do corpo.
Este Papa peregrino já está para lá das limitações do que é apenas «corpore». A sua força interior, a sua determinação, ultrapassam as contingências que a idade não perdoa. Talvez por isso, seja tão amado pelos mais jovens.
Carismático, afirmativo, combativo, de uma lucidez política impressionante, renovador e conservador, carismático, popular e introspectivo, contraditório quantas vezes, abriu a Igreja Católica ao mundo. Sem ter convocado um Concílio, como o Papa João, provocou um novo «aggiornamento» na Igreja do século XX. Muitas das consequências desta mudança apenas serão perceptíveis ao longo deste novo século que está a começar. O seu longo papado foi exercido sob o signo duma Igreja no meio dos homens. O exemplo pessoal de coragem e de sacrifício do Papa fazem mais pela Igreja e pela fé no homem em comunhão com Deus do que uma nova encíclica – perdoe-se-me a quase heresia. Olho para a foto que o DN publica e fico impressionado. Penso que ninguém fica indiferente!
O discurso de Tony Blair foi um acerto de contas com o destino. O Primeiro-Ministro britânico arrebatou o congresso do New Labour e prepara-se para reconquistar os britânicos. Dum discurso para a história – e o tempo se encarregará de do dizer – ressalta a coerência em matéria de política internacional – afinal o nó górdio político do momento – e a frontalidade nas opções.
Ao assumir a sua opção quanto à intervenção no Iraque, Blair sustenta que a grande ameaça que o século XXI enfrenta é do terrorismo difuso. Num momento em que seria mais fácil emendar a mão política, Blair preferiu o caminho mais difícil: o do realismo.
Tony Blair poderá não conseguir a eleição para um terceiro mandato, mas entrou já no universo dos grandes políticos da nossa era. Importa aqui recordar que a consistência ideológica da intervenção no Iraque foi sendo construída mais pelo Primeiro Ministro britânico do que pelo Presidente americano.
Numa Europa em que escasseiam os grandes líderes – sobretudo os líderes de convicções fortes, visionários – Tony Blair conquistou um espaço por direito próprio.
01/10/2003
Numa destas madrugas de vigília, li a «Senhora dos Açores», de Romana Petri (da Cavalo de Ferro). O livro estava na mesa de cabeceira à espera das leituras que a noite impõe.
Um olhar sereno sobre uns Açores divididos entre a chegada e a partida, o negrume das tempestades e luminosidade dos sonhos. Memórias mágicas de gente que vive no mar. Um Deus que paira sobre as coisas e dentro de cada um.
Este livro é um roteiro de solidões trocadas, de sentimentos antigos.
30/09/2003
A capa da última edição da Newsweek é poderosa: uma foto de Tony Blair, manipulada para o fazer parecer mais velho, acompanhada do título «The twilight of Tony Blair».
No congresso de Bournemouth, o líder dos trabalhistas, depois de ser um dos vencedores da guerra do Iraque, enfrenta o preço interno da sua opção: primeiro no país, depois no seu próprio partido.
O discurso de Blair, amanhã aos congressistas, será um dos mais importantes da sua carreira: nele o líder trabalhista jogará todo o seu prestígio pessoal e a sua envergadura política para provar o acerto das opções do seu Governo em matéria de política internacional, encetar um novo esforço de «damage control»a propósito do caso Kelly, mas sobretudo traçar novos desafios para a sociedade e para a política inglesas.
Tony Blair já provou que é um lutador e que se supera a si próprio nos momentos mais difíceis.
Não creio que este congresso seja ainda um sinal de viragem na política inglesa, sobretudo porque os conservadores ainda não construíram uma alternativa de governo credível. A hipótese de uma mudança de líder no seio dos trabalhistas, não sendo de afastar, não será muito provável, tendo em conta o forte ascendente de Blair sobre o partido e o apoio que – apesar de tudo – ainda goza junto dos eleitores.
29/09/2003
As propostas que a revista italiana Jesus divulgou para uma reforma litúrgica na Igreja Católica não podem deixar nenhum católico, ou apenas cristão, indiferente. Num tempo em que a Igreja Católica tem feito um esforço para se aproximar do tempo em vivemos e para se abrir um pouco ao mundo, sem perder os seus valores de referência, a ideia de que não haverá aplausos nas Igrejas, que as celebrações ecuménicas serão restringidas, que os cânticos e as expressões de alegria serão moderadas e que as mulheres deixarão de ser interpretes da tímida abertura que os últimos permitiu (para referir apenas algumas das propostas) deixa-me constrangido, pois não é apenas um sinal de conservadorismo, antes traduzindo um mergulho na Igreja no Concílio de Trento. A Igreja para o mundo que o Vaticano II proclamou morrerá soterrada nos escombros destas medidas, que espero, não passem de uma obscura proposta de teólogos desencantados.
O Deus dos cristãos é alegria. Não pode ser um Deus arrumado em rituais enfadonhos, sisudo.
26/09/2003
25/09/2003
Ontem, o velho Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada, viveu um dia importante na sua já longa história (foi edificado em 1917), com a assinatura do contrato de adjudicação das obras para a sua recuperação. Propriedade da Câmara Municipal de Ponta Delgada, o Coliseu Micaelense é um dos três Coliseus em Portugal, a par dos de Lisboa e do Porto e a maior sala de espectáculos dos Açores.
O Coliseu é uma memória viva da identidade cultural de S. Miguel e dos Açores e bem revelador do espírito empreendedor das gentes das ilhas, que o construíram com recurso a materiais pouco utilizados até então (o uso do ferro forjado em varandins e na cúpula, por exemplo) e sem qualquer apoio do Estado, tendo o custo do projecto e da sua construção sido suportado por um punhado de homens bons de S. Miguel que ousaram sonhar.
24/09/2003
23/09/2003
Eduardo Cintra Torres, de maneira desapaixonada e impiedosa (apenas porque a realidade que retrata o é em todo o seu esplendor ) no PÚBLICO de ontem,http://jornal.publico.pt/publico/2003/09/22/Media/ROLHO.html, desconstrói o alinhamento e o conteúdo do Telejornal da RTP1, de 11 de Setembro.
A informação já não é informação, como os manuais de jornalismo a caracterizam. Também já não é «info-entertainment», como a hiper-mediatização do real impôs. A informação noticiosa, dita de serviço público (e aqui a questão é apenas de escala em relação aos serviços noticiosos das televisão privadas) é agora um terceiro género, mistura explosiva da combinação da banalização do directo com as novas «notícias» feitas de não-acontecimentos e do abuso da linguagem coloquial (nas notícias transmitidas e nos rodapés que correm a par das imagens - afinal, também notícias).
A iniciativa do «Dia sem carros»banalizou-se e provoca indiferença: dos cidadãos que a olham já como um incómodo provocado pelos «políticos», das cidades que a ela não aderem (este ano foram apenas 967 cidades em todo o mundo) ou se aderem, limitam a sua aplicação a espaços simbólicos e a curto espaço de tempo.
O problema não é do dia em si. As cidades continuam a crescer de modo pouco regrado, asfixiadas em automóveis que disputam o espaço citadino aos cidadãos. As cidades de hoje são dos carros e não das pessoas.
Recordo a expressão dum conhecido arquitecto que, em matéria de trânsito nas cidades, defendia que todos tivessem um BMW ( não, não é o que possam pensar, mas apenas o acrónimo de «bus, metro and walk»).
A experiência de Londres, ao impor uma portagem paga à entrada da cidade, que consegui já reduzir em 15% os níveis de tráfego é sedutora, embora só possa ser aplicada se existirem alternativas rápidas, fiáveis, confortáveis.
As cidades precisam de mais políticas corajosas e menos discursos piedosos em dias sem carros.
20/09/2003
Aprecio muito a poesia Manuel Alegre. Compreendo mal as suas recentes declarações políticas, quando afirma “que vivemos hoje num clima perverso do que no tempo da ditadura” (cito de memória).
Para alguém como Manuel Alegre, que viveu e sofreu em ditadura, a frase é insultuosa para as suas próprias memórias pessoais. Percebo que Manuel Alegre queira, no plano do discurso político enfatizar os problemas do Estado de Direito. Não percebo, porém, a relativização entre democracia e ditadura que a frase induz, sobretudo quando é proferida por um indiscutível democrata.
A frase de Manuel Alegre é bem sintomática da desvalorização do discurso político em Portugal e da sua degradação no plano conceptual.
A frase sendo um bom “sound-byte” (que jornalista desdenharia abrir um noticiário com ela) é produto do sacrifício da coerência à conveniência.
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder «Os Amigos»
19/09/2003
18/09/2003
Sem anúncio prévio, o anoitecer desfez-se em aguaceiros. Ponta Delgada mergulhou em aguarias. O negrume do princípio da noite transformou-se num espectáculo de raios a dançarem, num rodopio de cabra-cega, obedecendo às ordens dum demiurgo invisível. A trovoada assenhorou-se da ilha, a coberto duma escuridão de breu. Sem luz, a não ser a dos carros nas ruas, a ilha parecia um animal ferido, a boiar durante horas num azul eléctrico, de feridas luminosas num céu invisível. Nestas alturas, os sentidos apuram-se mais e parece que tomamos consciência de coisas e seres voláteis que aparecem e desaparecem com o anúncio ribombante do próximo raio.
Só pela madruga é que a cidade e a ilha saíram da twilight zone !
16/09/2003
15/09/2003
A proposta do PS para a revisão constitucional, condicionando a revisão constitucional apenas ao capítulo das Regiões Autónomas e apenas no caso de haver acordo com o PSD para a alteração das leis eleitorais nos Açores e na Madeira, tendo em conta as próximas eleições regionais de 2004 é um absurdo político.
Primeiro, porque a história política ensina isso mesmo, os partidos que estão na oposição é que procuram liderar os processos de revisão constitucional, deles retirando dividendos políticos (veja-se o que sucedeu com a revisão constitucional de 1997). Por isso mesmo, um partido da oposição defende uma revisão constitucional extensa, como forma de alargar a dimensão da vitória sobre o partido do poder.
Em segundo lugar, porque pretender uma revisão constitucional sob chantagem ao partido do poder sobre uma área que – embora importante – não justifica a urgência dum processo de revisão é dar um tiro no próprio pé, bastando para tal que o partido no poder (neste caso a coligação) entenda não ser relevante uma revisão constitucional circunscrita.
Em terceiro lugar, o PS ficou refém da sua própria proposta: a condição imposta é demasiado denunciada: o PS olha para a possibilidade de alteração das leis eleitorais com um olhar “guloso” sobre as próximas eleições regionais, em especial nos Açores, onde é poder.
Por fim, ao querer rever agora a Constituição, para voltar a revê-la depois duma hipotética aprovação da Constituição Europeia, o PS nega os pressupostos da sua própria proposta: então porque não esperar mais algum tempo para rever a Constituição num único e singular processo?
O coelho que Ferro Rodrigues pretendeu tirar da cartola, afinal parece ter orelhas de burro!
No início de mais um ano escolar, a informação é rotineira, mastigada de ano para ano: o preço dos livros, o número de alunos, esta ou aquela escola com problemas na abertura, o optimismo do discurso político oficial.
As referências a questões mais fundas do sistema educativo está arredada das agendas mediáticas: vende mais e melhor a notícia de que uma mochila do Harry Potter é a novidade do ano escolar, do que a discussão sobre as causas da ineficiência do sistema educativo na preparação dos alunos do secundário nas designadas como disciplinas das “ciências” – matemática, física ou química, para citar apenas algumas - as repercussões da diminuição do número de alunos no sistema sobre as políticas públicas, a política de adopção dos manuais escolares ou as razões da efectiva desigualdade de escolha entre o ensino público e o ensino particular.
Como de costume, os portugueses optam por debater o acessório, o imediato, sem se deterem sobre a razão das coisas.
09/09/2003
Ainda de férias, entro na tabacaria dum centro comercial para comprar jornais. Sobre uma bancada central, repleta de revistas "do coração", o aviso breve e incisivo não passa despercebido: "Não é permitida a leitura demorada". O anúncio é singelo no contributo que dá no combate às baixas taxas de leitura da imprensa portuguesa: as revistas podem ser lidas ...rapidamente.
De modo quase irónico, o anúncio, implicitamente, assume a natureza "séria" destas publicações: a densidade do seu conteúdo leva a que o honesto livreiro recomende uma leitura rápida...
Assim temos Portugal no coração ... das letras.
07/09/2003
05/09/2003
O Ministério das Finanças anunciou que o défice público para este ano será de 2,944%, pelo que se conterá dentro dos limites do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Num visível esforço, o Governo procura cumprir o “compromisso de honra”, como o designou o Ministro Morais Sarmento, à custa da contenção real das despesas públicas, mas também de elaboradas operações contabilísticas de venda e de englobamento de património. Ao mesmo tempo, o Primeiro-Ministro francês anuncia uma descida nos impostos sobre os rendimentos, quando se prevê um défice público da ordem dos 4%. Quando o PEC foi uma imposição dos grandes (da Alemanha e da França, sobretudo) para conter os desmandos económicos dos pequenos países da União, é, pelo menos irónico que um dos grandes não cumpra o PEC e faça gala em não o cumprir, confiando que a retoma do investimento induzida pela despesa pública sirva melhor os interesses económicos da França.
O esforço de contenção económica do governo é louvável em termos gerais e o seu ímpeto reformista é assinalável, mas em matéria de défice público, o Governo deveria ser menos inflexível, sobretudo quando está provado que a verdadeira redução do défice assenta na redução da despesa pública corrente.
Por vezes, gosto das manhãs. Acordar mais cedo, sentir o dia a espreguiçar-se, escutar os sons das coisas. De férias, deixo-me levar por esta indolência matinal e por rotinas invulgares para o dia-a-dia: sair para comprar os jornais e regressar a casa, para os ler, vagarosamente à hora do pequeno-almoço. Saborear o mundo sem impaciências. Olhar o céu à noite, tentando adivinhar o meu nome nas estrelas.
29/08/2003
Didi, jogador do "escrete" campeão do mundo em 1958 e inventor do célebre livre em folha-seca, dizia que "o jogador de futebol devia colocar uma bola debaixo da cama para, logo ao acordar, a tocar, acariciar, dar o primeiro toque, ganhar sensibilidade e, assim criar intimidade com ela" O "princípe etíope", como lhe chamaram, sabia do que falava. A relação do jogador com a bola é um acto íntimo, de volúpia que se consome e renova em cada jodada. O futebol paixão alimenta-se dos momentos mágicos e sobrevive na fé individual de cada espectador.
A fé é paixão, que se alimenta e renova em cada jogo, em cada instante de cada jogo. Não é racional. Não se explica. Apenas nos consome. Ganhamos e perdemos em cada jogo. Gosto de futebol. Não percebo nada "do"futebol.
28/08/2003
Serenamente, vou descobrindo os novos caminhos da blogosfera e da entrada duma nova faceta da informática na minha vida.
A Sofia foi preciosa. Obrigado Sofia.
Sei que para os meus leitores o nome não passa duma referência. Ainda assim o agradecimento é devido.Sei, também, que ela amanhã irá sorrir embaraçada, quando visitar o blogue.
Pelo menos um leitor terei!
27/08/2003
Socraticamente luto com o lado subterrâneo da blogosfera: como fazer o quê?
Para além da tentativa/erro vale-me a simpatia da Sofia que prometeu ajudar-me a pôr em ordem as cedilhas e os acentos fugidios e arrumar na prateleira certa o contador e o e-mail para os comentários.
Entretanto, lá fora, o planeta vermelho continua à espera.
