07/11/2004

OS MINISTROS E AS DESVENTURAS DA OPINIÃO


O Ministro Álvaro Barreto, citado pelo PÚBLICO http://www.publico.pt, num tom que não deixa margens para dúvidas, critica de modo implícito o seu colega Rui Gomes da Silva. Não deixando de concordar com as palavras de Álvaro Barreto, creio que um Ministro em funções não pode dizer o que ele diz, sem essa declaração envolva uma quebra de solidariedade política, não apenas com o colega em causa, mas com o Primeiro-Ministro. Neste domínio, Álvaro Barreto não pode ter opinião como cidadão, já que não pode deixar de ser Ministro quando faz a afirmação que faz.

A declaração do Engº Barreto é surpreendente e bem reveladora dum certo modo de fazer política, assente na ideia as declarações ou atitudes "politicamente correctas" têm um condão salvífico e tal como o tide, podem lavar tudo. Muito pelo contrário, é com este tipo de atitudes que a classe política se descredibiliza aos olhos, cada vez mais argutos, dos cidadãos e dos eleitores.

O Engº Barreto disse o que não podia dizer, a menos que, com aquela declaração - o que não acredito - pretenda deixar o Governo.

ANGEL BLOGS (XV) - UM CERTO REGRESSO

Para Lázaro, o regresso é sempre um novo começo.
Recomeço, a partir de hoje, a escrita no blogue. Sacudo a poeira das palavras que não escrevi, a tentação de olhar os dias andados e não contados. Não falo do passado. Não penso no passado, porque não vivo para o passado. Com Heraclito aprendemos que a água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Assim é. Escrevo agora, muito depois das Trindades, a pensar no dia de amanhã. A pensar, sempre, no tempo que vem atrás do tempo. De nada me vale ficar, sorumbático, a mirar o relógio, na vã esperança de surpreender a marcha dos ponteiros...
Convoco a esperança que serve de mote ao blogue, para dizer que ela não é resignada, lembrando sempre a história dum certo coronel, contado por García Marquez, para quem esperar era a única forma de esperança.
Convoco, ainda, um dos meus poetas - Ary dos Santos - para recordar esse verso do Soneto Presente:

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Assim mesmo: não estou aqui. Sou daqui!
Boa noite

02/08/2004

ANGEL BLOGS (XIV) - OS CONFESSIONÁRIOS PÚBLICOS


As esplanadas dos cafés são os confessionários dos tempos modernos. Sem uma parede de madeira de permeio, sem a necessidade - quantas vezes dolorosa - de ficar de joelhos, as cadeiras das esplanadas cumprem a função do mítico divã do psiquiatra. A amiga chorosa, o marido enganado, o aspirante a enamorado, o cínico profissional... todos se reclinam nas cadeiras contando a sua vida, entre duas chamadas urgentes no telemóvel... Corre vida, corre!
Boa tarde.

01/08/2004

ANGEL BLOGS (XIII) - O SABOR DORMENTE DOS DOMINGOS

Os Domingos têm o sabor das amoras esmagadas no vidro da janela.
Boa noite.

SÓCRATES E A PALAVRA CAPRICHOSA

Regresso à escrita no blog. Já sinto saudades de escrever aqui. Diz-me o meu contabilista que o valor das acções deste blog na bolsa da blogosfera desceu a pique, em virtude da longa ausência. Paciência!

Tanscrevo abaixo a crónica que publiquei no Açoriano Oriental de ontem. Nesta época pré-eleitoral, a entrevista de José Sócrates ao Expresso permite um conjunto de reflexões mais alargadas sobre a política e os seus protagonistas que procurarei ir fazendo neste ANJO DO MUNDO.



Há em José Sócrates uma perturbante tentação para a voragem da frase solta, para uma espécie de ?fast-food? político, de bom-tom, mas vazio de conteúdo. Para um homem que, como candidato a líder socialista, se assume também como candidato a Primeiro-Ministro, a entrevista que deu ao ?Expresso? é uma desilusão.

Se a entrevista é o espelho do pensamento político do mais do que certo futuro líder socialista, então o PS deve preparar-se para permanecer na oposição por longos anos.

Sem fulgor e sem rasgo, José Sócrates deixa arrastar a entrevista, sem que o comum dos leitores consiga perceber o quer para Portugal o homem que ambiciona sentar-se na cadeira na qual se sentou um dia seu mentor António Guterres. Sabemos que José Sócrates leu muito, tal a profusão de citações ? de Miguel Torga a Karl Popper ? mas ignoramos que propostas políticas o distinguem, não só dos outros candidatos, como do PSD e do PP.

Sócrates fala bem, mas a política não vive apenas de palavras bonitas ou dos recursos oratórios. Esta entrevista é negação da ambição dum líder: para se chegar ao poder é preciso mostrar ideias ou propostas e, depois, convencer as pessoas de que se é capaz de as executar, uma vez conquistado o poder.

José Sócrates candidato parece ter predido o fulgor de José Sócrates ministro, que enfrentou dossiês sensíveis nas áreas do ambiente ou da defesa do consumidor.

Com um discurso estilizado pela exposição mediática na RTP, ao longo dos últimos anos, Sócrates esqueceu a máxima que enunciou na entrevista: ?a política vive da verdade. Quando é baseada apenas no ?marketing? percebe-se logo o vazio atrás?.

Ungido pelos ?media?, desejado pelas bases socialistas cansadas da liderança pardacenta de Ferro Rodrigues, o Engº Sócrates está predestinado a ganhar: ganhará o momento e a liderança do PS. Não é o desejado, mas apenas o possível, na roda da sorte dos sortilégios em que a política é fértil. Ganhará, desejando que o destino e a circunstância lhe não roubem o desejado estatuto de candidato a Primeiro-Ministro. Entre este engenheiro e um outro engenheiro, vai um mundo de diferenças. Pobre PS!

16/03/2004

ANGEL BLOGS (XII) - FÉNIX ANGELICAL


Sinto-me um anjo de pés descalços.

Depois dum impenitente silêncio, regresso - direi, angelicalmente - à blogosfera.

30/10/2003

ANGEL BLOGS (XI) SINAIS DO AMOR

Ao passar de carro reparo nas letras pretas, desajeitadas, marcadas na brancura do muro, a deitar para a rua: «Volta para mim, princesa». Sem desenho, sem assinatura, sem destinatário. Apenas a intensidade do desejo amoroso, do amador para a pessoa amada. Não posso deixar de sorrir ao pensar numa mulher misteriosa, objecto de tão pública declaração de amor. Se a intensidade dum amor se medir pela manifestação pública dos afectos, então este amor, feito no desejo do regresso, só pode ser um grande amor.

28/10/2003

O OLHAR DO FRANCISCO

O aviz comenta, se calhar com razão, a vertigem comunicacional que embrulhou a inauguração do estádio da Luz. Provavelmente Francisco José Viegas refere-se à comunicação que faz submergir a informação. Não vi rigorosamente nada, pois fui ao estádio com o Francisco, o meu filho mais velho.
O brilho do olhar do Francisco ao contemplar a imensidão dum estádio duma beleza serena, é inesquecível. Aquela noite ficará nas nossas memórias como um momento mágico. Não precisamos de mais palavras.
O TRIUNFO DE BART SIMPSON

Vejo a entrevista de Jorge Sampaio a uma pool de jornalistas na RTP e não percebo bem a maioria das suas posições: continua a faltar ao Presidente da República uma clareza essencial em questões importantes para o país. O dever de reserva que a função presidencial implica, não impõe um manto de silêncio retórico, quando, na mesma entrevista, por exemplo, o Dr. Jorge Sampaio não se inibiu de preconizar uma alteração ao regime legal das escutas telefónicas. Já quanto à reforma institucional da União Europeia, para dar um exemplo contrário, o Presidente da República evitou pronunciar-se claramente sobre o referendo.
A magistratura presidencial não é uma magistratura de silêncio.

Olho, com atenção, para o maior partido da oposição e detecto aquele movimento larvar de dilaceração interna que, nos partidos, acaba por conduzir à queda das direcções políticas. O PS é hoje, já, órfão dum líder em funções e consome as suas energias na oposição interna, em vez de as dirigir para os partidos do Governo.

Bart Simpson bem poderia deixar de ser uma personagem de banda desenhada!
ANGEL BLOGS (IX) ASAS PARA VOAR

Aeroportos. Aviões. O rush habitual. Gente apressada. Gente com destino. Gente à deriva. Os aeroportos são apenas lugares de passagem, excepto, talvez, para um emigrante ilegal que viveu cerca de um ano num aeroporto de Paris e cuja história correu o mundo informativo, perante a indiferença da burocracia que remeteu aquele homem para um limbo existencial, feito de gente que passa, corredores austeros e cadeiras de plástico de má qualidade.
Compramos um bilhete de avião como se fosse um passaporte para o azul do céu, povoado de anjos.
Bom dia!

27/10/2003

ANGEL BLOGS (IX) ? ANGELICAL LEVEZA

«Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as prumas.
Na leira rasa das aves, Tu, que redras
Terra, névoas e espumas,
- Deus, de teu nome! ? sabes
Que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No anjo e ergues o incensos»

Vitorino Nemésio, Anjos, in o «O Pão e a Culpa»

21/10/2003

UM LÍDER SITIADO (II)

O líder do maior partido da oposição é sempre, potencialmente, um futuro Primeiro-Ministro. Nessa qualidade, a sua intervenção pública não pode ignorar este parâmetro político e, sobretudo, comportamental. No encerramento do congresso do PS/Açores, no passado Domingo, Ferro Rodrigues voltou a insinuar uma «cabala», uma «urdidura» – como as palavras se gastam e perdem o sentido! - contra o PS a propósito das últimas notícias de novas escutas telefónicas. De uma vez por todas, o líder do PS tem de esclarecer o país sobre uma zona de sombra no seu discurso: o PS assume ou não que o processo da Casa Pia é um processo político contra o PS, maquinado sabe-se lá por quem?
UM LÍDER SITIADO

Ferro Rodrigues é um líder sitiado. Prisioneiro da sua própria estratégia, Ferro Rodrigues, indexou o sucesso da sua liderança ao desfecho do processo judicial que envolve Paulo Pedroso. A estratégia adoptada é errada a dois níveis: primeiro, um líder político não pode condicionar o seu comportamento ao sucesso ou insucesso dum processo judicial, que de político nada tem; segundo, a voragem mediática dos dias de hoje não coincide com o tempo da justiça, sempre mais lento, por definição. Deste modo, como se está a ver, haveria sempre um gap entre as notícias sobre o processo e a decisão judicial – ou decisões judiciais.
Ferro Rodrigues ignorou que, com esta estratégia, cada novo dia noticioso, é um dia de sobressalto para a sua liderança.
Creio que o líder do PS sobreviverá mais algum tempo, pelo simples facto de nenhum dos potenciais sucessores estar pessoalmente disponível neste preciso momento, não só pela circunstância que o PS atravessa, mas também pelo facto de se avizinharem difíceis eleições europeias.
ANGEL BLOGS (VIII) – ARCO ÍRIS

A manhã ameaça chuva. Uns pingos sorrateiros surpreendem quem passeia na marginal. Uma mulher abre um guarda-chuva: um resplandecente arco-íris. Intuição feminina ou uma provocação aos deuses?
Bom-dia!

20/10/2003

AGRADECIMENTOS À CASA DE AVIZ

Agradeço, tardiamente, a referência que o aviz fez a ao ANJO DO MUNDO. Fico duplamente agradecido ao Francisco José Viegas, porque o seu blog é uma referência e a sua escrita um prazer.
Para me redimir do atraso, convido-o para fumarmos um charuto – prazer que partilhamos. Proponho um Robusto Estrela - dos Açores, claro.
Fumar um charuto é mais do que fumar um charuto. Quando fumamos um charuto convocamos a memória olfactiva única, solitária daquele charuto. Acredito que nos definimos, também, pelos charutos que fumamos. Esclareço ser possível partilhar com um amigo o prazer de fumar um charuto, a olhar o mar, não trocando mais do que algumas palavras. E eu que gosto do som palavras!
ANGEL BLOGS (VII) – RESSACA DO TEMPO


Afogado em prazos, papéis, reuniões, os dedos fugiram-me do blog. Tornei-me prisioneiro do rush dos dias que teimam em escapar. Cronos manda na nossa vida. Limito-me a convocar um dos meus poetas – Al Berto – “o tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho”.

10/10/2003

ANGEL BLOGS (VI) – UM QUADRADO DE MAR

Ouço o mar. Sinto o mar. Cheiro o mar. Não vejo o mar. A minha janela é um quadrado de mar imaginário.
O mar que me define. Que me inunda e consome.
Nunca fui capaz de viver longe do mar. Quando morrer, bastará um epitáfio simples: gostava do mar!

07/10/2003

ANGEL BLOGS (V) – TINTA PERMANENTE


O teclado do computador nunca fará morrer o prazer subtil de escrever com uma caneta de tinta permanente. As minhas memórias de escrita fazem-se dos tinteiros de louça branca, plantados nas secretárias de dois lugares, da escola primária. Da tinta azul, aguada, de má qualidade, de cheiro intenso. Do giz branco que usava para ensopar a tinta que, volta não volta, teimava em borrar o “caderno da escola” – obra laboriosa de letra trémula – ou contagiar a alvura da bata.
Do meu computador não tenho memórias para inventar!
O INSUPORTÁVEL SILÊNCIO

As novas revelações da SIC sobre as relações entre os Gabinetes de Martins da Cruz e de Pedro Lynce fazem suspeitar de que ainda há factos por apurar. Perante o que já é do domínio público, o Ministro Martins da Cruz tem de prestar públicas explicações. Se a sua opção for um diplomático silêncio, a sua permanência no Governo tornar-se-á insuportável.

06/10/2003

ANGLE BLOGS (IV) – OS ANJOS DE TERRACOTA


Quando perdem as asas, os anjos transformam-se em anjos de terracota. Ainda assim, continuarão a amar?

Bom dia!