AS TIME GOES BY
As últimas aparições públicas de João Paulo II revelam um homem de corpo alquebrado e um rosto, quase sempre, atormentado por um «rictus» de dor. O Papa é a marca do sofrimento físico e ao mesmo da anulação desse sofrimento, entendido apenas como mais um sinal de provação do corpo.
Este Papa peregrino já está para lá das limitações do que é apenas «corpore». A sua força interior, a sua determinação, ultrapassam as contingências que a idade não perdoa. Talvez por isso, seja tão amado pelos mais jovens.
Carismático, afirmativo, combativo, de uma lucidez política impressionante, renovador e conservador, carismático, popular e introspectivo, contraditório quantas vezes, abriu a Igreja Católica ao mundo. Sem ter convocado um Concílio, como o Papa João, provocou um novo «aggiornamento» na Igreja do século XX. Muitas das consequências desta mudança apenas serão perceptíveis ao longo deste novo século que está a começar. O seu longo papado foi exercido sob o signo duma Igreja no meio dos homens. O exemplo pessoal de coragem e de sacrifício do Papa fazem mais pela Igreja e pela fé no homem em comunhão com Deus do que uma nova encíclica – perdoe-se-me a quase heresia. Olho para a foto que o DN publica e fico impressionado. Penso que ninguém fica indiferente!
02/10/2003
QUANDO O DISCURSO DEFINE O HOMEM
O discurso de Tony Blair foi um acerto de contas com o destino. O Primeiro-Ministro britânico arrebatou o congresso do New Labour e prepara-se para reconquistar os britânicos. Dum discurso para a história – e o tempo se encarregará de do dizer – ressalta a coerência em matéria de política internacional – afinal o nó górdio político do momento – e a frontalidade nas opções.
Ao assumir a sua opção quanto à intervenção no Iraque, Blair sustenta que a grande ameaça que o século XXI enfrenta é do terrorismo difuso. Num momento em que seria mais fácil emendar a mão política, Blair preferiu o caminho mais difícil: o do realismo.
Tony Blair poderá não conseguir a eleição para um terceiro mandato, mas entrou já no universo dos grandes políticos da nossa era. Importa aqui recordar que a consistência ideológica da intervenção no Iraque foi sendo construída mais pelo Primeiro Ministro britânico do que pelo Presidente americano.
Numa Europa em que escasseiam os grandes líderes – sobretudo os líderes de convicções fortes, visionários – Tony Blair conquistou um espaço por direito próprio.
O discurso de Tony Blair foi um acerto de contas com o destino. O Primeiro-Ministro britânico arrebatou o congresso do New Labour e prepara-se para reconquistar os britânicos. Dum discurso para a história – e o tempo se encarregará de do dizer – ressalta a coerência em matéria de política internacional – afinal o nó górdio político do momento – e a frontalidade nas opções.
Ao assumir a sua opção quanto à intervenção no Iraque, Blair sustenta que a grande ameaça que o século XXI enfrenta é do terrorismo difuso. Num momento em que seria mais fácil emendar a mão política, Blair preferiu o caminho mais difícil: o do realismo.
Tony Blair poderá não conseguir a eleição para um terceiro mandato, mas entrou já no universo dos grandes políticos da nossa era. Importa aqui recordar que a consistência ideológica da intervenção no Iraque foi sendo construída mais pelo Primeiro Ministro britânico do que pelo Presidente americano.
Numa Europa em que escasseiam os grandes líderes – sobretudo os líderes de convicções fortes, visionários – Tony Blair conquistou um espaço por direito próprio.
01/10/2003
COISAS ANTIGAS
Numa destas madrugas de vigília, li a «Senhora dos Açores», de Romana Petri (da Cavalo de Ferro). O livro estava na mesa de cabeceira à espera das leituras que a noite impõe.
Um olhar sereno sobre uns Açores divididos entre a chegada e a partida, o negrume das tempestades e luminosidade dos sonhos. Memórias mágicas de gente que vive no mar. Um Deus que paira sobre as coisas e dentro de cada um.
Este livro é um roteiro de solidões trocadas, de sentimentos antigos.
Numa destas madrugas de vigília, li a «Senhora dos Açores», de Romana Petri (da Cavalo de Ferro). O livro estava na mesa de cabeceira à espera das leituras que a noite impõe.
Um olhar sereno sobre uns Açores divididos entre a chegada e a partida, o negrume das tempestades e luminosidade dos sonhos. Memórias mágicas de gente que vive no mar. Um Deus que paira sobre as coisas e dentro de cada um.
Este livro é um roteiro de solidões trocadas, de sentimentos antigos.
30/09/2003
TONY BLAIR NO SEU LABIRINTO
A capa da última edição da Newsweek é poderosa: uma foto de Tony Blair, manipulada para o fazer parecer mais velho, acompanhada do título «The twilight of Tony Blair».
No congresso de Bournemouth, o líder dos trabalhistas, depois de ser um dos vencedores da guerra do Iraque, enfrenta o preço interno da sua opção: primeiro no país, depois no seu próprio partido.
O discurso de Blair, amanhã aos congressistas, será um dos mais importantes da sua carreira: nele o líder trabalhista jogará todo o seu prestígio pessoal e a sua envergadura política para provar o acerto das opções do seu Governo em matéria de política internacional, encetar um novo esforço de «damage control»a propósito do caso Kelly, mas sobretudo traçar novos desafios para a sociedade e para a política inglesas.
Tony Blair já provou que é um lutador e que se supera a si próprio nos momentos mais difíceis.
Não creio que este congresso seja ainda um sinal de viragem na política inglesa, sobretudo porque os conservadores ainda não construíram uma alternativa de governo credível. A hipótese de uma mudança de líder no seio dos trabalhistas, não sendo de afastar, não será muito provável, tendo em conta o forte ascendente de Blair sobre o partido e o apoio que – apesar de tudo – ainda goza junto dos eleitores.
A capa da última edição da Newsweek é poderosa: uma foto de Tony Blair, manipulada para o fazer parecer mais velho, acompanhada do título «The twilight of Tony Blair».
No congresso de Bournemouth, o líder dos trabalhistas, depois de ser um dos vencedores da guerra do Iraque, enfrenta o preço interno da sua opção: primeiro no país, depois no seu próprio partido.
O discurso de Blair, amanhã aos congressistas, será um dos mais importantes da sua carreira: nele o líder trabalhista jogará todo o seu prestígio pessoal e a sua envergadura política para provar o acerto das opções do seu Governo em matéria de política internacional, encetar um novo esforço de «damage control»a propósito do caso Kelly, mas sobretudo traçar novos desafios para a sociedade e para a política inglesas.
Tony Blair já provou que é um lutador e que se supera a si próprio nos momentos mais difíceis.
Não creio que este congresso seja ainda um sinal de viragem na política inglesa, sobretudo porque os conservadores ainda não construíram uma alternativa de governo credível. A hipótese de uma mudança de líder no seio dos trabalhistas, não sendo de afastar, não será muito provável, tendo em conta o forte ascendente de Blair sobre o partido e o apoio que – apesar de tudo – ainda goza junto dos eleitores.
29/09/2003
UMA PIADA TEOLÓGICA
As propostas que a revista italiana Jesus divulgou para uma reforma litúrgica na Igreja Católica não podem deixar nenhum católico, ou apenas cristão, indiferente. Num tempo em que a Igreja Católica tem feito um esforço para se aproximar do tempo em vivemos e para se abrir um pouco ao mundo, sem perder os seus valores de referência, a ideia de que não haverá aplausos nas Igrejas, que as celebrações ecuménicas serão restringidas, que os cânticos e as expressões de alegria serão moderadas e que as mulheres deixarão de ser interpretes da tímida abertura que os últimos permitiu (para referir apenas algumas das propostas) deixa-me constrangido, pois não é apenas um sinal de conservadorismo, antes traduzindo um mergulho na Igreja no Concílio de Trento. A Igreja para o mundo que o Vaticano II proclamou morrerá soterrada nos escombros destas medidas, que espero, não passem de uma obscura proposta de teólogos desencantados.
O Deus dos cristãos é alegria. Não pode ser um Deus arrumado em rituais enfadonhos, sisudo.
As propostas que a revista italiana Jesus divulgou para uma reforma litúrgica na Igreja Católica não podem deixar nenhum católico, ou apenas cristão, indiferente. Num tempo em que a Igreja Católica tem feito um esforço para se aproximar do tempo em vivemos e para se abrir um pouco ao mundo, sem perder os seus valores de referência, a ideia de que não haverá aplausos nas Igrejas, que as celebrações ecuménicas serão restringidas, que os cânticos e as expressões de alegria serão moderadas e que as mulheres deixarão de ser interpretes da tímida abertura que os últimos permitiu (para referir apenas algumas das propostas) deixa-me constrangido, pois não é apenas um sinal de conservadorismo, antes traduzindo um mergulho na Igreja no Concílio de Trento. A Igreja para o mundo que o Vaticano II proclamou morrerá soterrada nos escombros destas medidas, que espero, não passem de uma obscura proposta de teólogos desencantados.
O Deus dos cristãos é alegria. Não pode ser um Deus arrumado em rituais enfadonhos, sisudo.
26/09/2003
25/09/2003
COLISEU MICAELENSE – OUSAR SONHAR
Ontem, o velho Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada, viveu um dia importante na sua já longa história (foi edificado em 1917), com a assinatura do contrato de adjudicação das obras para a sua recuperação. Propriedade da Câmara Municipal de Ponta Delgada, o Coliseu Micaelense é um dos três Coliseus em Portugal, a par dos de Lisboa e do Porto e a maior sala de espectáculos dos Açores.
O Coliseu é uma memória viva da identidade cultural de S. Miguel e dos Açores e bem revelador do espírito empreendedor das gentes das ilhas, que o construíram com recurso a materiais pouco utilizados até então (o uso do ferro forjado em varandins e na cúpula, por exemplo) e sem qualquer apoio do Estado, tendo o custo do projecto e da sua construção sido suportado por um punhado de homens bons de S. Miguel que ousaram sonhar.
Ontem, o velho Coliseu Micaelense, em Ponta Delgada, viveu um dia importante na sua já longa história (foi edificado em 1917), com a assinatura do contrato de adjudicação das obras para a sua recuperação. Propriedade da Câmara Municipal de Ponta Delgada, o Coliseu Micaelense é um dos três Coliseus em Portugal, a par dos de Lisboa e do Porto e a maior sala de espectáculos dos Açores.
O Coliseu é uma memória viva da identidade cultural de S. Miguel e dos Açores e bem revelador do espírito empreendedor das gentes das ilhas, que o construíram com recurso a materiais pouco utilizados até então (o uso do ferro forjado em varandins e na cúpula, por exemplo) e sem qualquer apoio do Estado, tendo o custo do projecto e da sua construção sido suportado por um punhado de homens bons de S. Miguel que ousaram sonhar.
24/09/2003
23/09/2003
TRISTE VIDA LEVA A TELEVISÃO
Eduardo Cintra Torres, de maneira desapaixonada e impiedosa (apenas porque a realidade que retrata o é em todo o seu esplendor ) no PÚBLICO de ontem,http://jornal.publico.pt/publico/2003/09/22/Media/ROLHO.html, desconstrói o alinhamento e o conteúdo do Telejornal da RTP1, de 11 de Setembro.
A informação já não é informação, como os manuais de jornalismo a caracterizam. Também já não é «info-entertainment», como a hiper-mediatização do real impôs. A informação noticiosa, dita de serviço público (e aqui a questão é apenas de escala em relação aos serviços noticiosos das televisão privadas) é agora um terceiro género, mistura explosiva da combinação da banalização do directo com as novas «notícias» feitas de não-acontecimentos e do abuso da linguagem coloquial (nas notícias transmitidas e nos rodapés que correm a par das imagens - afinal, também notícias).
Eduardo Cintra Torres, de maneira desapaixonada e impiedosa (apenas porque a realidade que retrata o é em todo o seu esplendor ) no PÚBLICO de ontem,http://jornal.publico.pt/publico/2003/09/22/Media/ROLHO.html, desconstrói o alinhamento e o conteúdo do Telejornal da RTP1, de 11 de Setembro.
A informação já não é informação, como os manuais de jornalismo a caracterizam. Também já não é «info-entertainment», como a hiper-mediatização do real impôs. A informação noticiosa, dita de serviço público (e aqui a questão é apenas de escala em relação aos serviços noticiosos das televisão privadas) é agora um terceiro género, mistura explosiva da combinação da banalização do directo com as novas «notícias» feitas de não-acontecimentos e do abuso da linguagem coloquial (nas notícias transmitidas e nos rodapés que correm a par das imagens - afinal, também notícias).
CANSADO DOS DIAS SEM CARROS
A iniciativa do «Dia sem carros»banalizou-se e provoca indiferença: dos cidadãos que a olham já como um incómodo provocado pelos «políticos», das cidades que a ela não aderem (este ano foram apenas 967 cidades em todo o mundo) ou se aderem, limitam a sua aplicação a espaços simbólicos e a curto espaço de tempo.
O problema não é do dia em si. As cidades continuam a crescer de modo pouco regrado, asfixiadas em automóveis que disputam o espaço citadino aos cidadãos. As cidades de hoje são dos carros e não das pessoas.
Recordo a expressão dum conhecido arquitecto que, em matéria de trânsito nas cidades, defendia que todos tivessem um BMW ( não, não é o que possam pensar, mas apenas o acrónimo de «bus, metro and walk»).
A experiência de Londres, ao impor uma portagem paga à entrada da cidade, que consegui já reduzir em 15% os níveis de tráfego é sedutora, embora só possa ser aplicada se existirem alternativas rápidas, fiáveis, confortáveis.
As cidades precisam de mais políticas corajosas e menos discursos piedosos em dias sem carros.
A iniciativa do «Dia sem carros»banalizou-se e provoca indiferença: dos cidadãos que a olham já como um incómodo provocado pelos «políticos», das cidades que a ela não aderem (este ano foram apenas 967 cidades em todo o mundo) ou se aderem, limitam a sua aplicação a espaços simbólicos e a curto espaço de tempo.
O problema não é do dia em si. As cidades continuam a crescer de modo pouco regrado, asfixiadas em automóveis que disputam o espaço citadino aos cidadãos. As cidades de hoje são dos carros e não das pessoas.
Recordo a expressão dum conhecido arquitecto que, em matéria de trânsito nas cidades, defendia que todos tivessem um BMW ( não, não é o que possam pensar, mas apenas o acrónimo de «bus, metro and walk»).
A experiência de Londres, ao impor uma portagem paga à entrada da cidade, que consegui já reduzir em 15% os níveis de tráfego é sedutora, embora só possa ser aplicada se existirem alternativas rápidas, fiáveis, confortáveis.
As cidades precisam de mais políticas corajosas e menos discursos piedosos em dias sem carros.
20/09/2003
AS PALAVRAS QUE NÃO DIREI
Aprecio muito a poesia Manuel Alegre. Compreendo mal as suas recentes declarações políticas, quando afirma “que vivemos hoje num clima perverso do que no tempo da ditadura” (cito de memória).
Para alguém como Manuel Alegre, que viveu e sofreu em ditadura, a frase é insultuosa para as suas próprias memórias pessoais. Percebo que Manuel Alegre queira, no plano do discurso político enfatizar os problemas do Estado de Direito. Não percebo, porém, a relativização entre democracia e ditadura que a frase induz, sobretudo quando é proferida por um indiscutível democrata.
A frase de Manuel Alegre é bem sintomática da desvalorização do discurso político em Portugal e da sua degradação no plano conceptual.
A frase sendo um bom “sound-byte” (que jornalista desdenharia abrir um noticiário com ela) é produto do sacrifício da coerência à conveniência.
Aprecio muito a poesia Manuel Alegre. Compreendo mal as suas recentes declarações políticas, quando afirma “que vivemos hoje num clima perverso do que no tempo da ditadura” (cito de memória).
Para alguém como Manuel Alegre, que viveu e sofreu em ditadura, a frase é insultuosa para as suas próprias memórias pessoais. Percebo que Manuel Alegre queira, no plano do discurso político enfatizar os problemas do Estado de Direito. Não percebo, porém, a relativização entre democracia e ditadura que a frase induz, sobretudo quando é proferida por um indiscutível democrata.
A frase de Manuel Alegre é bem sintomática da desvalorização do discurso político em Portugal e da sua degradação no plano conceptual.
A frase sendo um bom “sound-byte” (que jornalista desdenharia abrir um noticiário com ela) é produto do sacrifício da coerência à conveniência.
SEM PALAVRAS
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder «Os Amigos»
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Hélder «Os Amigos»
19/09/2003
18/09/2003
UMA FERIDA NA NOITE
Sem anúncio prévio, o anoitecer desfez-se em aguaceiros. Ponta Delgada mergulhou em aguarias. O negrume do princípio da noite transformou-se num espectáculo de raios a dançarem, num rodopio de cabra-cega, obedecendo às ordens dum demiurgo invisível. A trovoada assenhorou-se da ilha, a coberto duma escuridão de breu. Sem luz, a não ser a dos carros nas ruas, a ilha parecia um animal ferido, a boiar durante horas num azul eléctrico, de feridas luminosas num céu invisível. Nestas alturas, os sentidos apuram-se mais e parece que tomamos consciência de coisas e seres voláteis que aparecem e desaparecem com o anúncio ribombante do próximo raio.
Só pela madruga é que a cidade e a ilha saíram da twilight zone !
Sem anúncio prévio, o anoitecer desfez-se em aguaceiros. Ponta Delgada mergulhou em aguarias. O negrume do princípio da noite transformou-se num espectáculo de raios a dançarem, num rodopio de cabra-cega, obedecendo às ordens dum demiurgo invisível. A trovoada assenhorou-se da ilha, a coberto duma escuridão de breu. Sem luz, a não ser a dos carros nas ruas, a ilha parecia um animal ferido, a boiar durante horas num azul eléctrico, de feridas luminosas num céu invisível. Nestas alturas, os sentidos apuram-se mais e parece que tomamos consciência de coisas e seres voláteis que aparecem e desaparecem com o anúncio ribombante do próximo raio.
Só pela madruga é que a cidade e a ilha saíram da twilight zone !
16/09/2003
15/09/2003
A CONSTITUIÇÃO E OS COELHOS NA CARTOLA
A proposta do PS para a revisão constitucional, condicionando a revisão constitucional apenas ao capítulo das Regiões Autónomas e apenas no caso de haver acordo com o PSD para a alteração das leis eleitorais nos Açores e na Madeira, tendo em conta as próximas eleições regionais de 2004 é um absurdo político.
Primeiro, porque a história política ensina isso mesmo, os partidos que estão na oposição é que procuram liderar os processos de revisão constitucional, deles retirando dividendos políticos (veja-se o que sucedeu com a revisão constitucional de 1997). Por isso mesmo, um partido da oposição defende uma revisão constitucional extensa, como forma de alargar a dimensão da vitória sobre o partido do poder.
Em segundo lugar, porque pretender uma revisão constitucional sob chantagem ao partido do poder sobre uma área que – embora importante – não justifica a urgência dum processo de revisão é dar um tiro no próprio pé, bastando para tal que o partido no poder (neste caso a coligação) entenda não ser relevante uma revisão constitucional circunscrita.
Em terceiro lugar, o PS ficou refém da sua própria proposta: a condição imposta é demasiado denunciada: o PS olha para a possibilidade de alteração das leis eleitorais com um olhar “guloso” sobre as próximas eleições regionais, em especial nos Açores, onde é poder.
Por fim, ao querer rever agora a Constituição, para voltar a revê-la depois duma hipotética aprovação da Constituição Europeia, o PS nega os pressupostos da sua própria proposta: então porque não esperar mais algum tempo para rever a Constituição num único e singular processo?
O coelho que Ferro Rodrigues pretendeu tirar da cartola, afinal parece ter orelhas de burro!
A proposta do PS para a revisão constitucional, condicionando a revisão constitucional apenas ao capítulo das Regiões Autónomas e apenas no caso de haver acordo com o PSD para a alteração das leis eleitorais nos Açores e na Madeira, tendo em conta as próximas eleições regionais de 2004 é um absurdo político.
Primeiro, porque a história política ensina isso mesmo, os partidos que estão na oposição é que procuram liderar os processos de revisão constitucional, deles retirando dividendos políticos (veja-se o que sucedeu com a revisão constitucional de 1997). Por isso mesmo, um partido da oposição defende uma revisão constitucional extensa, como forma de alargar a dimensão da vitória sobre o partido do poder.
Em segundo lugar, porque pretender uma revisão constitucional sob chantagem ao partido do poder sobre uma área que – embora importante – não justifica a urgência dum processo de revisão é dar um tiro no próprio pé, bastando para tal que o partido no poder (neste caso a coligação) entenda não ser relevante uma revisão constitucional circunscrita.
Em terceiro lugar, o PS ficou refém da sua própria proposta: a condição imposta é demasiado denunciada: o PS olha para a possibilidade de alteração das leis eleitorais com um olhar “guloso” sobre as próximas eleições regionais, em especial nos Açores, onde é poder.
Por fim, ao querer rever agora a Constituição, para voltar a revê-la depois duma hipotética aprovação da Constituição Europeia, o PS nega os pressupostos da sua própria proposta: então porque não esperar mais algum tempo para rever a Constituição num único e singular processo?
O coelho que Ferro Rodrigues pretendeu tirar da cartola, afinal parece ter orelhas de burro!
REGRESSO ÀS AULAS
No início de mais um ano escolar, a informação é rotineira, mastigada de ano para ano: o preço dos livros, o número de alunos, esta ou aquela escola com problemas na abertura, o optimismo do discurso político oficial.
As referências a questões mais fundas do sistema educativo está arredada das agendas mediáticas: vende mais e melhor a notícia de que uma mochila do Harry Potter é a novidade do ano escolar, do que a discussão sobre as causas da ineficiência do sistema educativo na preparação dos alunos do secundário nas designadas como disciplinas das “ciências” – matemática, física ou química, para citar apenas algumas - as repercussões da diminuição do número de alunos no sistema sobre as políticas públicas, a política de adopção dos manuais escolares ou as razões da efectiva desigualdade de escolha entre o ensino público e o ensino particular.
Como de costume, os portugueses optam por debater o acessório, o imediato, sem se deterem sobre a razão das coisas.
No início de mais um ano escolar, a informação é rotineira, mastigada de ano para ano: o preço dos livros, o número de alunos, esta ou aquela escola com problemas na abertura, o optimismo do discurso político oficial.
As referências a questões mais fundas do sistema educativo está arredada das agendas mediáticas: vende mais e melhor a notícia de que uma mochila do Harry Potter é a novidade do ano escolar, do que a discussão sobre as causas da ineficiência do sistema educativo na preparação dos alunos do secundário nas designadas como disciplinas das “ciências” – matemática, física ou química, para citar apenas algumas - as repercussões da diminuição do número de alunos no sistema sobre as políticas públicas, a política de adopção dos manuais escolares ou as razões da efectiva desigualdade de escolha entre o ensino público e o ensino particular.
Como de costume, os portugueses optam por debater o acessório, o imediato, sem se deterem sobre a razão das coisas.
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