30/04/2005

ISCAS..

O lado pagão das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em São Miguel, tem destas coisas: as tasquinhas de comes e bebes multiplicam-se, aviando os petiscos que fazem a sua - digamos, com generosidade - fama.
Em frente ao renovado Coliseu Micaelense, destoando do mar de bancas que vendem o último grito da moda cigana - calça de ganga de indizível marca e sapatos cor-de-rosa, de salto alto - o rés-do-chão da Melo Abreu serve umas iscas competentes. Ali encontrei o António José, azafamado,à hora do almoço, a atender pedidos, com outros amigos. Elogiei-lhe o jeito para a coisa, mas acho que o talento dele para escrever supera o de servir à mesa!
A propósito de iscas,com os agradecimentos ao glória fácil, Albino Forjaz de Carvalho, em 1940, escrevia na "Volúpia (a nona arte: a gastronomia)", Editorial Notícias:
"Ia-se às iscas. Ah!, mas não se julgue que as iscas eram o que são hoje. Não. Perdeu-se a poesia das iscas. (...) O cozinheiro era sempre galego, conhecido em calão por frege-moscas, e o segredo da sua preparação culinária, quanto a nós, devia-se a dois factores especialmente: primeiro, à espessura quase inverosímil da isca. Espessura negativa, que exigia na sua confecção adestramento e faca; segundo, a que nunca se lavava a frigideira a não ser de anos em anos, quando os cozinheiros iam à terra, para deixar malparados os créditos do substituto.(...) Com banha de porco e baço raspado, as iscas saídas do alguidar onde estão de molho em vinagre, sal, pimenta, louro e alho, saltam na ponta do garfo e espalham-se na frigideira. O fígado penetra-se do gosto dos condimentos e abre num cheiro maravilhoso.(...)Com as iscas comia-se uma conserva que os galegos denominavam conserva à portuguesa, composta de tiras muito finas de cenoura e pimentos verdes, que era um verdadeiro achado a junção dos dois petiscos. Isso tudo se perdeu."

29/04/2005

NOITE COM A CIDADE NOS SENTIDOS

Numa pequena sala de Ponta Delgada, Aníbal Raposo cantou, naquele seu jeito tímido de quem está em paz com o mundo. Um destes dias, a cidade foi o pretexto das palavras e da música. A cidade dos que nela nasceram e dos que a adoptaram e agora lhe chamam sua. Verdadeiramente não escolhemos as nossas cidades: são elas que convocam os sentidos. "São as cidades que fazem os homens", escreveu Cabrera Infante. As cidades são as sereias urbanas dos novos tempos.Ficamos enfeitiçados, para além de qualquer explicação racional.
A pergunta do questionário de Proust - dentro de dias voltará a povoar as páginas dos jornais, magros de tanto Verão - "que cidade escolheria para viver?" é sempre embaraçosa e quase impossível de responder.Como escolher uma cidade? Movemo-nos pelos impulsos momentâneos: Nova Iorque, pela cidade em si. Atenas, pela memória da pedra. Lisboa, pela luz.
Ponta Delgada, na sua altivez de basalto é a minha cidade. A relação com a cidade nem sempre foi pacífica. Tal como uma relação de amor, precisou de tempo para atingir a sua maturidade.
Ponta Delgada começou por ser sinónimo de doença. As férias eram passadas no Pico ou no Continente, satisfazendo os dois lados da família.Só vinha a Ponta Delgada, de avião, por razões clínicas, em que a ida ao médico se impunha. Recordo um episódio na Clínica do Bom Jesus, em que o Dr. Furtado Lima me foi mostrar uma das salas com equipamento médico - talvez a radiografia - e me perguntou, com um natural orgulho, o que me parecia aquilo. Do fundo da memória, arranquei de imediato a comparação que me pareceu mais evidente: "Parece uma central eléctrica!", exclamei, cioso dos meus vastos conhecimentos.
O alojamento era ali na Rua Hintze Ribeiro, na Pensão Puga, já desaparecida. O dono, reverencialmente tratado por Sr. Horácio, era a abelha-mestra do estabelecimento.Desse tempo, sobrou a lembrança dumas fatias de pão que o Sr. Horácio, com método e preceito, cortava na hora do pequeno-almoço que, de tão finas, quase pareciam laminadas. Tantas vezes assisti ao ritual que passei a designar uma fatia de pão mais fina como uma "fatia à Horácio". Ainda hoje o faço, por vezes.
Depois, foi o tempo do "exílio" estudantil, para completar o 12º ano, feito de rituais de cantinas, de quartos arrendados, das lutas políticas na Associação de Estudantes do Liceu, das sessões duplas de cinema no Coliseu,das tertúlias de café e jornais na Tabacaria Açoriana - "o mais democrático parlamento do mundo" - dos tostões contados, dos almoços de Domingo em casa do Capitão Bettencourt, em que o Pico era uma referência constante.
Mais tarde, o regresso. Não exactamente "regresso", porque nunca daqui saí. Acho que já pertenço aqui. De algum modo, a cidade escolheu-me. Sem eu saber!
Não sei o que Margarida Dulmo Clark - a de Nemésio - pensaria da sua cidade. Fica o "Tema para Margarida" composto pelo Aníbal para a versão televisiva de "Mau tempo no Canal", um (pre)texto para falar da cidade. Fica bonita cidade!

TEMA PARA MARGARIDA
Ai quem me dera partir
Na canoa da esperança
E ir ancorar noutras praias
Noutros varadouros
Ai quem me dera voltar
A gozar dos tesouros
Da felicidade que eu tinha
Quando era criança


Ai quem me dera ser garça
E voar no canal
Só entre o Pico e o Faial
Me quedar dividida
Ai quem me dera mão firme
No leme da vida
Ai este amor que me mirra
Me mata e faz mal


Ai quem me dera de novo
As certezas e os medos
Ai quem me dera ter credos
E não ser indiferente
Ai o amor passa ao largo
Da vida da gente...
Ai já o tempo se escoa
Como areia entre os dedos...
Aníbal Raposo


AMOR E CROCODILOS

Diz um anúncio publicitário: "o amor é como um crocodilo a nadar num rio". Saberá o publicitário que os crocodilos não mordem debaixo de água?
Bom-dia!

26/04/2005

DEMOCRACIA E AUTONOMIA

Trinta e um anos depois do 25 de Abril, uma reflexão sobre a democracia e a liberdade que, nos Açores, têm a expressão de autonomia, no anjo mudo, aqui ao lado, como sempre.

O PODER DO KETCHUP

Vejo-os sem os poder ouvir. Num vulgar centro comercial, numa dessas zonas impessoais a que chamam pomposamente "praça da comida", estão os dois sentados frente-a-frente, a comer, com um olhar ausente, o hamburguer que publicidade incisiva nos compele a consumir. O rapaz e rapariga - um casal? - estão obviamente zangados um com o outro. Adivinho a intensidade das palavras pela rudeza dos gestos e pelos olhares que se desviam. Sobretudo, pelos olhos que fogem do contacto, refugiando-se nas pessoas ao lado, na cúpula do centro comercial e no interesse desmedido pelas batatas fritas. Há um gesto dela mais irado, a que ele responde de modo rápido. Ficam os dois silenciosos. Frente a frente, cada um inventa uma estratégia para resistir ao momento. De súbito, ele pega num pequeno pacote de ketchup (daqueles que acompanham as batatas fritas do fast-food) e começa a ler, longamente, as instruções no verso. O rapaz construiu, ali mesmo, uma intransponível barreira vermelha contra o insuportável silêncio num local público.