02/10/2003

CARTEIRO

Anjo e hotmail parecem não combinar muito bem. A caixa de correio volta a poder receber correio, depois de uma misteriosa - será angelical - avaria.

O endereço está ao lado. mudoanjo@hotmail.com

Como já disse, nem todos os anjos do mundo são mudos!
AS TIME GOES BY

As últimas aparições públicas de João Paulo II revelam um homem de corpo alquebrado e um rosto, quase sempre, atormentado por um «rictus» de dor. O Papa é a marca do sofrimento físico e ao mesmo da anulação desse sofrimento, entendido apenas como mais um sinal de provação do corpo.

Este Papa peregrino já está para lá das limitações do que é apenas «corpore». A sua força interior, a sua determinação, ultrapassam as contingências que a idade não perdoa. Talvez por isso, seja tão amado pelos mais jovens.

Carismático, afirmativo, combativo, de uma lucidez política impressionante, renovador e conservador, carismático, popular e introspectivo, contraditório quantas vezes, abriu a Igreja Católica ao mundo. Sem ter convocado um Concílio, como o Papa João, provocou um novo «aggiornamento» na Igreja do século XX. Muitas das consequências desta mudança apenas serão perceptíveis ao longo deste novo século que está a começar. O seu longo papado foi exercido sob o signo duma Igreja no meio dos homens. O exemplo pessoal de coragem e de sacrifício do Papa fazem mais pela Igreja e pela fé no homem em comunhão com Deus do que uma nova encíclica – perdoe-se-me a quase heresia. Olho para a foto que o DN publica e fico impressionado. Penso que ninguém fica indiferente!
QUANDO O DISCURSO DEFINE O HOMEM

O discurso de Tony Blair foi um acerto de contas com o destino. O Primeiro-Ministro britânico arrebatou o congresso do New Labour e prepara-se para reconquistar os britânicos. Dum discurso para a história – e o tempo se encarregará de do dizer – ressalta a coerência em matéria de política internacional – afinal o nó górdio político do momento – e a frontalidade nas opções.
Ao assumir a sua opção quanto à intervenção no Iraque, Blair sustenta que a grande ameaça que o século XXI enfrenta é do terrorismo difuso. Num momento em que seria mais fácil emendar a mão política, Blair preferiu o caminho mais difícil: o do realismo.
Tony Blair poderá não conseguir a eleição para um terceiro mandato, mas entrou já no universo dos grandes políticos da nossa era. Importa aqui recordar que a consistência ideológica da intervenção no Iraque foi sendo construída mais pelo Primeiro Ministro britânico do que pelo Presidente americano.
Numa Europa em que escasseiam os grandes líderes – sobretudo os líderes de convicções fortes, visionários – Tony Blair conquistou um espaço por direito próprio.

01/10/2003

COISAS ANTIGAS

Numa destas madrugas de vigília, li a «Senhora dos Açores», de Romana Petri (da Cavalo de Ferro). O livro estava na mesa de cabeceira à espera das leituras que a noite impõe.

Um olhar sereno sobre uns Açores divididos entre a chegada e a partida, o negrume das tempestades e luminosidade dos sonhos. Memórias mágicas de gente que vive no mar. Um Deus que paira sobre as coisas e dentro de cada um.

Este livro é um roteiro de solidões trocadas, de sentimentos antigos.

30/09/2003

TONY BLAIR NO SEU LABIRINTO


A capa da última edição da Newsweek é poderosa: uma foto de Tony Blair, manipulada para o fazer parecer mais velho, acompanhada do título «The twilight of Tony Blair».
No congresso de Bournemouth, o líder dos trabalhistas, depois de ser um dos vencedores da guerra do Iraque, enfrenta o preço interno da sua opção: primeiro no país, depois no seu próprio partido.
O discurso de Blair, amanhã aos congressistas, será um dos mais importantes da sua carreira: nele o líder trabalhista jogará todo o seu prestígio pessoal e a sua envergadura política para provar o acerto das opções do seu Governo em matéria de política internacional, encetar um novo esforço de «damage control»a propósito do caso Kelly, mas sobretudo traçar novos desafios para a sociedade e para a política inglesas.
Tony Blair já provou que é um lutador e que se supera a si próprio nos momentos mais difíceis.
Não creio que este congresso seja ainda um sinal de viragem na política inglesa, sobretudo porque os conservadores ainda não construíram uma alternativa de governo credível. A hipótese de uma mudança de líder no seio dos trabalhistas, não sendo de afastar, não será muito provável, tendo em conta o forte ascendente de Blair sobre o partido e o apoio que – apesar de tudo – ainda goza junto dos eleitores.

29/09/2003

UMA PIADA TEOLÓGICA

As propostas que a revista italiana Jesus divulgou para uma reforma litúrgica na Igreja Católica não podem deixar nenhum católico, ou apenas cristão, indiferente. Num tempo em que a Igreja Católica tem feito um esforço para se aproximar do tempo em vivemos e para se abrir um pouco ao mundo, sem perder os seus valores de referência, a ideia de que não haverá aplausos nas Igrejas, que as celebrações ecuménicas serão restringidas, que os cânticos e as expressões de alegria serão moderadas e que as mulheres deixarão de ser interpretes da tímida abertura que os últimos permitiu (para referir apenas algumas das propostas) deixa-me constrangido, pois não é apenas um sinal de conservadorismo, antes traduzindo um mergulho na Igreja no Concílio de Trento. A Igreja para o mundo que o Vaticano II proclamou morrerá soterrada nos escombros destas medidas, que espero, não passem de uma obscura proposta de teólogos desencantados.
O Deus dos cristãos é alegria. Não pode ser um Deus arrumado em rituais enfadonhos, sisudo.
ANGEL BLOGS(III) - Intimidades

Duas mulheres, numa esplanada, falam das suas desventuras amorosas. Demasiado alto. Parecem iguais, até nisso.
As paixões não resistem à intimidade dos lugares públicos.